O dom da linguagem

Artigo de Marco Túlio Ribeiro sobre a importância da linguagem

Fonte: Projeto Colabora.

O escritor Montaigne diz que não há tortura maior que a de um homem incapaz de expressar o que está em sua alma. Pois bem, esta frase poderia ser a explicação perfeita somente da minha adolescência e do início da minha vida adulta, só que é a explicação de tantas outras vidas.

Ao leitor mais atento, eu “roubei”, de fato, o título de um ensaio do escritor Theodore Dalrymple, mas espero que o que escreverei aqui justifique a minha “transgressão”.

Essa tortura a que se refere Montaigne é de cunho sutil, a priori, mas depois se torna tão sutil quanto um elefante na sala.

Na adolescência, eu lidava com dilemas que, por não serem nominados, provavelmente, se tornaram muito maiores do que de fato eram.

Como a história do lençol que, à noite, se parece com um fantasma.

Mas quando eu precisei colocar em palavras, não as tendo, eu usei palavras erradas para tentar me explicar. Se eu uso as palavras erradas, ninguém poderá me entender, inclusive eu mesmo.

A precisão nas palavras é algo muito subestimado. Porque se você tem as “palavras erradas”, você vai pensar errado, vai agir errado, vai sentir errado e assim por diante. Isso é algo que os escritores levam muito a sério, mas a maioria de nós acha irrelevante.

Lembro dos meus primeiros escritos marcantes. Foi na aula de português/literatura, inspirado por leituras e vivências, que eu comecei a escrever. Cada escrita tinha a sua finalidade. Escrevi cartas para amores platônicos e para correspondidos. Escrevi carta de desculpas e de agradecimentos para professores. Escrevi minha primeira letra de música.

E até escrevi porque eu simplesmente precisava.

Engraçado que, por muito tempo, eu tive a sensação de escrever menos do que deveria. Só que, ao olhar meus arquivos e pensar no que se perdeu, há até bastante coisa. Se eu penso que poderia ter feito mais na escrita, na leitura com certeza fiquei em débito no passado.

E não digo isso no sentido de “ter que ler, porque sim”, mas pensando na quantidade de ferramentas que eu teria para lidar com tudo aquilo que eu não conseguia explicar, mas que eu sentia mesmo assim.

Os livros falam de outras vidas, outras histórias, outras possibilidades, que em uma vida são impossíveis de se ter. Podemos aprender vivendo, podemos aprender com a experiência dos nossos familiares e dos nossos amigos. Mas também podemos aprender com os mortos, como Shakespeare, Homero, Dostoievski.

Para tentar expressar o que está em nossa alma, tenho certeza de que todas essas formas se somam e que uma é incompleta sem a outra.

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