A rotina da infância perdida

Baseado numa história real

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Cheguei em casa, tinha onze anos de idade. Minhas idéias sobre a vida, o futuro, sobre sexo, eram confusas. Como uma estudante da escola pública via novelas, beijava garotos. Achava que estava abafando. Mas era uma época em que a bordelização cultural não existia.

As cantoras MC-bundalelê dificilmente fariam sucesso, sendo que as vozes que dominavam a MPB eram as de Elis, Betânia, e outras bem diferentes dos gritos orgásticos e descrições glamorosas de estupro coletivo que hoje compõem o cardápio musical da moçada.

Acho que minha geração foi poupada do sabor amargo do desespero existencialista que caracteriza o sexo pós-moderno. Desde uma idade muito tenra, as crianças de hoje sabem tudo, erotizadas pelo tsunami sexual que invadiu nos invadiu.

Os adolescentes não namoram, ficam, com 10, 15, 20 pessoas em cada festa. O romantismo foi substituído pela prática prematura e animal do sexo.

Mas, como ia dizendo, cheguei em casa, para comer o arroz com feijão cozido na panela de ferro de minha mãe. Entrei pelo portão sempre aberto de casa, pelo jardim tomado pelo mato, porque minha mãe, cujo hobby era jardinagem andava sem tempo.

Eu gostava muito da festa que minha irmãzinha mais nova fazia me recebendo em casa todas as tardes. Uma carinha de anjo, cabelinho enrolado e sorriso carinhoso. Ela não parecia ter puxado a veia guerreira das mulheres da família. Era suave e tranquila, brincava sozinha, sina de caçula.

Minha mãe gastava mais tempo com ela do que jamais tivera para gastar comigo, mais velha de todos, mas eu não me importava. Sua beleza era como a de um quadro de Renoir, um brilho plácido que iluminava a vida conturbada de nossa casa.

Entrei, esperava ver minha irmãzinha correndo para me encontrar no portão, mas ela não veio. Ouvi um chorinho e a encontrei no fundo com a vizinha. Mulher simples, lavadeira, a vizinha balbuciava sem coragem uma descrição de uma cena inintendível para mim na época, e quase insuportável quando penso nela hoje.

Minha irmãzinha de quatro anos havia sido forçada a fazer sexo oral com o homem que morava na casa do lado. A vizinha viu, interrompeu, mas era tarde demais. Aquele abusador doente já tinha violentado suas três filhas e não perdoava qualquer menina que passava por lá, por mais tenra que fosse.

Fiquei em silêncio e assim ficou minha maninha por muitos dias, semanas, meses, só babando. Babava muito, minha mãe não entendia o porquê daquela regressão, sendo que ela era tão esperta, precoce para a idade. Babava, agora eu sei, para se livrar do nojo e da dor da agressão que sofreu.

Hoje adulta não tem o brilho que poderia ter. Sofre de um distúrbio mental que a condena a viver sob o efeito de remédios fortes. Minha maninha perdeu a inocência muito cedo.

Não sei como terminar este texto. Gostaria de ser otimista, mas é melhor dizer que milhares de outras crianças passam por isto no Brasil de hoje e milhares de agressores continuam impunes.

Respeito

Prefiro lembrar que afinal existe um Deus a quem todos vamos prestar contas. Sejamos religiosos ou não, o respeito ao outro, e principalmente o respeito à infância não é uma opção.

A Bíblia fala da tarefa cristã de salgar a sociedade crua antes que ela apodreça de vez, e de ser luz nas trevas que a cercam, antes que elas se tornem tão densas que nos apaguem. É bom que saibamos que muitos abusos acontecem dentro da própria igreja.

É bom que fiquemos alertas porque a pedofilia que hoje nos causa horror e revolta, provavelmente dentro de alguns anos vai ser considerada como mais uma opção sexual limpa e justificada como qualquer uma das práticas que povoam nossa sociedade, nossa mídia e imaginações pan-sexuais, cruéis e falaciosamente “chics”.

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*Publicado originalmente na Revista Ultimato

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1 COMENTÁRIO

  1. Última vez que li Bráulia deve ter uns 4-5 meses.
    Ela continua encantadora com as palavras e as ideias. Quando o leitor pensa que ela glamoriza as ideias ou carrega nas tintas das descrições de fatos, ela desce o porrete com vigor e chama o leitor à chincha. Eu gosto disso. Fiquei chocado com o relato. Não tem como calar-se. Há um grito abafado de FDP que vem lá de dentro pelo abuso sofrido pela irmanzinha.

    Faço duas observações que a rigor não desmerecem uma vírgula do texto. A primeira. “…as crianças de hoje sabem tudo, erotizadas pelo tsunami sexual que invadiu nos invadiu..”. Sabem? Fui ‘a campo’. Minha esposa, quando casei, ela tinha 36 anos e não sabia nada sobre clitóris e muito menos sobre sua função, ficou deslumbrada.

    Não deveria ter dito nada a ela, porém, sobre a clitoridectomia, como é chamada, o ritual de passagem, ou iniciação, praticado na África, Oriente Médio e sudeste asiático há 2 000 anos onde o clitóris é cortado com uma lâmina de barbear, no seco mesmo, geralmente com o apoio da mãe da menina de 7-8 anos e agora na Inglaterra também! Ela custou a se recuperar do trauma que juntara com a ignorância (conhecimento). Demorou cerca de 10 anos, com certeza.

    Fui a campo.
    Ela tem dois sobrinhos, um de 15 e outro de 12. Joguei alguns termos que me pareciam óbvios, entre eles, este, “sabem o que é prepúcio?” (usei outras palavras no ‘popular’ mesmo). Como não são de igrejas e nem educados em fé alguma, achei que o campo fértil da rua e da escola teriam sido as fontes ‘acadêmicas’ de informação.

    Sabem tudo o que os olhos vêem, são verdadeiros asnos mentais sobre qualquer área do conhecimento sexual que vá além daquelas figuras dos macaquinhos que tapam os olhos, ouvido e boca. Nada, zero. E olha que estudam em escola particular e são de classe média-média.

    Sabem tudo? Não sabem nada. São como aquela sueca que deita a falar sobre economia em DAVOS sobre como o mundo deve se comportar, e, diga-se de passagem, tem ela 17 anos. “Vá pra casa, Greta!”. Concordo que o impacto (volume) de ‘informações’ sobre essas crianças e adolescentes é espantoso. Mas morre aí. Informação em excesso simplesmente gera impasse. É informação como ‘macaxeira’. David Livingstone, o missionário Inglês do século XIX na África, escreveu que macaxeira ´você pode comer um quilo que uma hora e meia depois você está com fome. Está para informação dessas crianças-adolescentes como sua substância para carboidratos.

    Não. As crianças e adolescentes de hoje não sabem nada sobre sexo (e outras áreas). Quase zero. Talvez algo durante o banho na frente de um espelho. E só. Ou quando os pais ficam sabendo que a coleguinha está grávida… dele!

    O outro ponto fica mais para frente.
    Grande abraço,
    Eduardo

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