|terça, 21 agosto 2018

    Martinho da Vila resume o Brasil: “devagar, devagarinho”

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    No Rio, o destino me fez professor de Martinho da Vila, autor de versos memoráveis de nosso cancioneiro. Com ele sempre aprendi muito à distância, que é o modo como talvez ele agora aprenda algo comigo, uma vez que também estas aulas são ministradas à distância.

    Que bela lição nessa amostra: “Devagar/ Devagarinho/ É que a gente chega lá/ Se você não acredita/ Você pode tropeçar”.

    Martinho da Vila é uma daquelas glórias brasileiras de quem todos podem se orgulhar. É homem afável, gentil, tremendamente observador: nada parece escapar de seus afiados sentidos.

    Outro dia assisti a um diálogo entre ele e o embaixador Jerônimo Moscardo em reunião numa mesa de bar, nas cercanias da Academia Brasileira de Letras, e me vi boquiaberto admirando a prosa entusiasta do diplomata e ex-ministro da Cultura no governo Itamar Franco, em claro contraste com a quietude reflexiva e atenta de Martinho da Vila.

    O diplomata vituperava um autor americano cujo texto deixava bem claro um projeto de esculhambar a música brasileira genuína, substituindo-a por pontas de lança destruidoras do ritmo e da melodia nacionais.

    O cantor fluminense de Duas Barras ouviu atentamente nosso amigo cearense, senhor de grandes poderes de persuasão, levou o texto para ler com calma em casa e dias depois, estribado em seu talento e experiência, um saber de experiências feito, concluiu que o samba já venceu no passado e voltará a vencer. Mas reconheceu real e perigosa a ameaça do americano.

    Na mesma canção que abre esta crônica diz Martinho da Vila: “Eu conheci um cara/ Que queria o mundo abarcar/ Mas de repente/ Deu com a cara no asfalto/ Se virou, olhou pro alto/ Com vontade de chorar”.

    Apoiado nestas convicções, à moda de Martinho sem pressa, conclui muito coerentemente que “Devagar,/ Devagarinho, / É que a gente chega lá” (…) “Vou seguindo o meu caminho,/ Sei aonde vou chegar”.

    Nos anos sessenta, ele emplacara, não apenas um sucesso, mas uma profecia com O Pequeno Burguês: “Felicidade!/ Passei no vestibular,/ Mas a faculdade/ É particular”.

    O narrador, depois de muitas peripécias, comuns àqueles que o governo chama estudantes que trabalham, mas que são em verdade trabalhadores que estudam, pois a principal ocupação não era, como não é ainda, estudar, e sim trabalhar para pagar os estudos, não tem dinheiro para pagar as taxas que incluem o anel, o diploma e a beca de formando. Por isso não pode comparecer à formatura.

    Todavia, repele com firmeza o título de pequeno burguês: “E depois de tantos anos/ Só decepções, desenganos/ Dizem que sou um burguês/ Muito privilegiado/ Mas burgueses são vocês/ Eu não passo/ De um pobre coitado/ E quem quiser ser como eu
    Vai ter é que penar um bocado”.

    Pensando bem, à luz de suas canções tão fascinantes e de forte conteúdo social, Martinho da Vila não é aluno. Ele é professor! E, por justo reconhecimento, a UFRJ concedeu-lhe no ano passado o título de Doutor Honoris Causa.

    É proverbial o elogio da vagareza, muito bem sintetizado no dito do dialeto italiano “piano, piano, se va lontano” (devagar se vai longe), enquanto a pressa, dada como inimiga da perfeição, é vitimada neste outro dito bem brasileiro: “apressado come cru”.

    Endossada na música, no ritmo e no balanço que lhe são característicos, a canção de Martinho da Vila expressa com graça a irritante retomada da economia brasileira. Neste caso, vai tão devagar que até parece que não sai do lugar.

    Deonísio da Silva, da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Filologia, é Doutor em Letras pela USP, professor e Diretor do Instituto da Palavra, na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. É autor de dezenas de livros, entre os quais De onde vêm as palavras e Avante, soldados: para trás (Prêmio Internacional Casa de las Américas). Na companhia do jornalista Ricardo Boechat, apresenta Sem Papas na Língua, na Rádio Bandnews Fluminense

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