A guerra política entre os evangélicos

O caminho que nos resta é voltar à boa e velha espiritualidade que repousa em Cristo e na cruz e nada mais

(Foto: Thanti Nguyen on Unsplash)

O povo evangélico brasileiro está enfrentando uma grande crise interna. Está vendo diante de seus olhos a morte de uma cultura religiosa ingênua, que acreditava que a unidade entre os grupos evangélicos era não só uma possibilidade, mas uma obrigação moral. Nós os evangélicos queríamos ganhar o mundo – e repetíamos incessantemente o clichê da unidade não só possível, mas necessária.

Sempre foi evidente que essa unidade nunca seria fácil, mas a cada encontro interdenominacional ignorávamos as divisões doutrinárias, as diferenças rituais e nos espremíamos em galpões apertados para provar a nós mesmos e a Deus que a tão desejada unidade era possível.

Éramos vítimas de um idealismo infantil, que ignorava até as próprias raízes da Reforma Protestante. Mais do que ninguém, nós, os evangélicos, herdeiros do protestantismo, deveríamos ter entendido que a unidade universal de todas as expressões cristãs não era nem desejável, nem possível.

A perda da inocência

A vantagem era que esse desejo por unidade nos inspirava à civilidade e à tolerância recíproca, duas coisas necessárias para a construção de qualquer movimento social. – Posso não ser de Paulo, ou de Apolo,  compartilho o mesmo Evangelho, e presto contas ao mesmo Deus.

Agora nem isto somos mais capazes de fazer. Perdemos a inocência. Agora não se acredita mais em unidade. Não por causa de posturas teológicas. As diferenças na teologia, na doutrina e na liturgia viraram questões menores diante do verdadeiro desafio: a crise política.

A divisão entre a direita e a esquerda evangélica chegou matando de vez qualquer ilusão sobre a possibilidade de que os evangélico pudessem vir a militar juntos. O membro de outra congregação agora não é mais o “primo” ou o colega de evangelho. Quando o outro diverge de mim politicamente, ele se torna o próprio capeta.

Barreira intransponível

Não importa se este outro é pastor, se guarda alguma posição de autoridade dentro da igreja, se é informado teologicamente ou não, se tem um bom testemunho de vida e caráter ou não. Não importa se tenhamos antes apreciado suas pregações, os ensinos de seu grupo, o louvor que eles produziam, não importa se tenhamos orado ou até chorado juntos. Não importa se antes da fatídica divisão política tivéssemos considerado esse mesmo “demônio” – e que agora nos sentimos na obrigação de odiar – como um irmão.

Agora que estamos do outro lado da arena política, a barreira se tornou intransponível. A retórica é de ódio, de rejeição total, nos incapacitando de ver uma faísca do Evangelho ou do Espírito Santo nesse outro.

Resgate da espiritualidade

Será que existe um retorno? Acredito que sim. O desafio para superar essa crise é entender o Evangelho como a única força capaz de produzir coesão suprasocial e suprapolítica.

Acredito que o caminho que nos resta trilhar para evitar a cristalização dos ódios que sem dúvida vão nos conduzir a um inevitável secularismo,   é voltar à boa e velha espiritualidade que repousa em Cristo e na cruz e nada mais – e assim confinar a política ao lugar inferior que ela merece.

“Cada um, cada um”, como dizíamos na infância. A capacidade para a tolerância ao outro, seja ele o outro político ou religioso, encontramos se estamos em Cristo. É aos pés da cruz, onde somos iguais, não aos pés da bandeira, seja ela verde amarela ou vermelha.

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