No mundo da Lua: deputados de MT já gastaram R$ 20 milhões com viagens neste ano

Levantamento do LIVRE mostra que deputados estaduais gastaram, em combustíveis e passagens aéreas, o suficiente para muitas viagens à Lua

(Foto: Mauricio Barbant / ALMT)

Passagens de ônibus e avião, no Brasil ou exterior, em voos de carreira ou jatinhos fretados, além de combustível à vontade para a frota. Em 2019 – só até setembro –, a farra do vaivém de deputados estaduais custou R$ 20 milhões à Assembleia Legislativa de  Mato Grosso (ALMT) e, consequentemente, a você.

O valor inclui aluguel de aeronaves particulares, passagens de ônibus e avião, além do gasto com combustível. Tudo sob o argumento de que os deslocamentos dos parlamentares são necessários ao exercício do mandato.

Ao custo aproximado de R$ 5,7 milhões, o contrato a empresa WDA Táxi Aéreo Ltda, por exemplo, só não permite que quatro dos 24 deputados estaduais cheguem à Lua porque o modelo de aeronave previsto é um bimotor com autonomia de quatro horas de voo.

Não fosse isso, a distância que os parlamentares podem percorrer, conforme previsão do contrato – 483 mil quilômetros –, seria mais que suficiente para alcançar o satélite natural da Terra, que está a cerca de 384 mil quilômetros de distância.

Os deputados também poderiam escolher dar 12 voltas no planeta Terra. E como o mínimo exigido pela ALMT no contrato é uma aeronave com capacidade para quatro passageiros, se todos os assentos fossem ocupados, cada parlamentar poderia fazer essa viagem mais de uma vez.

Falando de Mato Grosso, os deputados têm condições de realizar, com este contrato, pelo menos uma viagem por dia – ao longo de um ano inteiro – de Cuiabá para qualquer cidade localizada no extremo Norte do Estado.

24 mil horas

Assinado no dia 13 de setembro deste ano, o contrato com a WDA não é o único quando se trata das viagens áreas de servidores e parlamentares da ALMT. Firmado pouco tempo depois – no dia 20 do mesmo mês – o contrato com a Abelha Táxi Aéreo e Manutenção Ltda prevê mais 24 mil horas/voo.

Nesse caso, o valor a ser desembolsado pode chegar a R$ 552 mil. Só as especificações da aeronave são diferentes: a Abelha precisa fornecer um avião turbo-hélice, com capacidade para, no mínimo, seis passageiros.

Contratos, em geral, são assinados pelo presidente da Mesa Diretora, deputado Eduardo Botelho (Foto: JL Siqueira / ALMT)

Mundo da Lua

Dos R$ 20 milhões já gastos neste ano, mais de 10% foram consumidos com pagamento de etanol, gasolina e diesel. De novo, combustível suficiente para percorrer a distância entre a Terra e a Lua.

Para fazer a conta, a reportagem do LIVRE considerou os valores mais altos de Cuiabá, registrados na tabela de preço da Agência Nacional do Petróleo – no período compreendido entre 13 e 19 de outubro.

Também um carro hipotético que utilize um litro de combustível a cada oito quilômetros rodados.

No caso da gasolina, ao custo de R$ 4,59 por litro, seria possível viajar 3,48 milhões de quilômetros com o orçamento da ALMT. Ou seja, pelo menos nove viagens à Lua.

Se o veículo fosse movido a diesel (R$ 4,16), um pouco mais: 3,84 milhões de quilômetros. E no etanol (R$ 2,69), a maior distância de todas: 5,94 milhões de quilômetros em um carro que rode oito km/L.

Se todo esse combustível fosse utilizado por um único carro, ainda que ele percorresse só um quilômetro a cada litro, também seria o suficiente para percorrer – no caso do etanol algumas vezes – a distância entre a Terra e a Lua.

Tem ônibus também

Os voos fretados e o deslocamento de automóvel não são as únicas formas de viagem que a ALMT proporciona a seus funcionários e deputados. Em abril, a Agência de Viagens Universal Ltda foi contratada pelo Parlamento para fornecer passagens aéreas e terrestres nacionais e internacionais.

Esse contrato prevê a emissão de passagens aéreas até o limite de R$ 5,2 milhões. No caso das terrestres, o teto a ser alcançado é de R$ 650 mil.

O pacote garantiu, por exemplo, a presença do presidente da Casa, deputado Eduardo Botelho (DEM), e uma seleta comitiva, na Assembleia Geral da ONU, realizada entre 17 e 30 de setembro, em Nova Iorque (EUA).

Primeiro-secretário, deputado Max Russi é o campeão de gastos em combustível (Foto: Fablício Rodrigues / ALMT)

Viajou…

Mas o campeão de gastos com gasolina, etanol e diesel – em 4 dos 5 meses pesquisados pela reportagem do LIVRE – foi o primeiro-secretário da Mesa Diretora, o deputado estadual Max Russi (PSB).

Com base eleitoral em Jaciara, que fica a pouco mais de 210 quilômetros de Cuiabá, Max Russi chegou a gastar R$ 35 mil – somente em abril – com transporte terrestre, se forem somados os valores de seu gabinete funcional e o da Mesa Diretora.

Para se ter uma ideia, o teto de gastos de um deputado estadual de São Paulo em combustível – o que inclui também alimentação e acomodações nas eventuais viagens que façam – é de R$ 8 mil por mês.

O que diz a ALMT?

Sobre os contratos com a WDA, a Abelha Táxi Aéreo e a Agência de Viagens Universal Ltda, vale frisar que a Assembleia Legislativa de Mato Grosso só paga por aquilo que efetivamente utilizar.

A reportagem do LIVRE enviou questionamentos sobre os contratos à Secretaria de Comunicação do Parlamento. Também às assessorias dos deputados Max Russi e Eduardo Botelho. Até agora não recebeu um retorno.

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