Jardim Umuarama: a história de duas jovens mortas, um preso injustiçado e nenhum culpado

Principal suspeito foi inocentado da acusação, mas não sem pagar pelo crime que não cometeu

A advogada elaborou um mapa que aponta o trajeto de Diego da noite do dia 4 à madrugada do dia 5 (Ednilson Aguiar)

No dia 5 de outubro de 2014, duas jovens foram encontradas nuas, caídas ao chão, mortas a pauladas. Luzinete Lemos Rodrigues, 16 anos, e a amiga, Poliana Alessandra de Araújo Alves, 14, tinham ido até à quitinete onde Luzinete morava com a mãe para tomar banho.

Era madrugada no bairro Jardim Umuarama, em Cuiabá. Luzinete foi golpeada com tanta intensidade na cabeça que o laudo da necrópsia apontou fratura craniana. Poliana foi atingida por menos golpes, mas, assim como a amiga, teve o rosto desfigurado tamanha  violência que sofreu.

Poliana e Luzinete (Reprodução Facebook)

Pela brutalidade do atentado – um verdadeiro banho de sangue atingiu a sala, porta de saída e teto da quitinete -, o autor não teria saído ileso, sem se machucar ou, fatalmente, estar sujo de sangue.

E é bem possível que não fosse apenas uma pessoa, já que o laudo da necrópsia apontou que as meninas não reagiram.

Teriam sido seguradas enquanto alguém as agredia? E os pedaços de madeira e o martelo encontrados na cena, por que não foram periciados? E os chinelos que estavam na porta e a mãe de Luzinete não reconheceu como sendo da casa? E o pano sujo de sangue que foi encontrado próximo ao corpo das vítimas e não foi considerado como prova?

Esses e outros questionamentos vieram à tona com as investigações da advogada Natália Rodrigues Alvares Macedo. Ela levou em consideração o apelo da cunhada, Martha Cristina Macedo, que era patroa da mãe do principal acusado, para entrar no caso.

Seu objetivo era defender o jovem Diego José da Silva, 25, indiciado pelos assassinatos. Ex-namorado de Poliana, ele vivia em um quarto nos fundos da casa dela.

Mesmo estivessem oficialmente separados, eles mantinham contato e, por vezes, ainda ficavam juntos, como revelara mais tarde a quebra do sigilo telefônico dele, analisada profundamente, e cujas conversas foram exibidas pela defesa durante o julgamento.

O desafio da advogada era provar que, na hora em que elas foram mortas, Diego estava em um programa com a família e, mesmo passando perto da casa onde os corpos estavam prestes a ser descobertos, ele nada teve a ver com o caso.

No último dia 2 de dezembro, o juri se convenceu disso. A promotoria não conseguiu responsabilizar Diego pelo crime e ele foi solto após ficar três anos e oito meses na prisão.

Investigação focou em Diego

Desde o início, a delegada Anaíde Barros, que conduziu as investigações da polícia, não recuou da acusação – ressaltando em entrevistas que Diego permanecia na casa da família e criava boatos de suspeitos para tentar tirar o foco dele próprio.

“Ela o acusou de criar comunicação via grupos de celular apontando suspeitos, o que nunca se confirmou”.

A delegada Anaíde Barros perdeu o cargo nesta sexta-feira por outra acusação: improbidade administrativa (Foto: Divulgação/PJC)

A delegada teria dito ainda que Diego ameaçava a jovem e a perseguia para que ela não pudesse ter outros relacionamentos. E que, no dia do duplo assassinato, ele teria ido a um motel para criar um álibi, além de sentar em outras duas lanchonetes.

“Mas ele foi mesmo. Foi em uma brincadeira em um grupo de amigos no WhatsApp que ele revelou que estava no motel, mas ele estava com a ex-mulher, com quem tentava reatar. Isso foi confirmado”, disse a advogada, em entrevista ao LIVRE.

Com todo o foco em Diego durante os cinco anos passados entre investigação e os ritos processuais, só no dia 2 de dezembro ele foi a júri popular, denunciado por dois homicídios triplamente qualificados e cometidos por motivo torpe, que dificultou a defesa das vítimas (surpresa) e utilizou meio cruel.

Diego foi considerado inocente. “Tivemos um inquérito policial malfeito, cheio de falhas e erros”, declara a advogada.

Investigação rasa

Natália Macedo acredita que faltou dedicação da delegada que estava à frente do caso.

“Por exemplo, Diego estava com uma roupa clara no dia em que as jovens foram mortas e a mãe de Poliana foi quem lavou suas roupas – já que ele permaneceu por lá. Não havia manchas de sangue e, mesmo se houvesse, a delegada poderia ter usado o luminol para verificar se havia vestígios. Diego só possuía duas calças jeans, um único tênis e poucas camisetas, não seria difícil periciar”.

Segundo a advogada, o laudo pericial revelou que os homicídios foram praticados com a porta da casa fechada, tanto é que a parte interna estava repleta de respingos de sangue.

“Logicamente que, para os autores saírem, tiveram que pegar na maçaneta, mas nem digital e nem DNA foram colhidos. Paulo Roberth, namorado de Luzinete, afirmou que a porta estava aberta quando ele adentrou a casa”, disse a advogada.

Outro ponto diz respeito à coleta de sêmen. “Em Luzinete foi encontrado; porém, nunca foi realizado teste de DNA para identificar de quem era, afinal o namorado afirmou que eles não mantinham relação há mais de uma semana. Houve relatos sobre a presença de três homens na casa antes do homicídio, mas as pessoas não mantiveram o depoimento; seria por medo?”.

Por fim, a advogada ressalta que a ausência de diligências para encontrar imagens que comprovassem o trajeto de Diego na noite do crime foi um dos maiores infortúnios para o jovem injustiçado.

“No passo a passo da noite de sábado (4 de outubro de 2014) à madrugada do domingo, o trajeto dele seria facilmente confirmado se fossem solicitadas as imagens de mais de 100 câmeras de segurança, mas a investigação policial as desconsiderou”.

A família, então, entrou em cena

Não fosse uma iniciativa da própria família, de tentar conseguir essas imagens, Diego não teria nada para apoiar seu relato.

“A família foi em todos os mais de 100 estabelecimentos, mas, como não se tratava de um pedido da polícia, só receberam negativas. Apenas uma pessoa, sensibilizada pelo pedido da mãe de Diego, forneceu o vídeo, que foi usado anteriormente pela Defensoria”. Natália pegou o caso em maio deste ano.

“Depois da prisão de Diego, a mãe, o irmão e irmã – que estavam junto dele naquela noite – refizeram o trajeto. A mãe suplicou à delegada que pedisse as imagens, ela negou, dizendo que não precisava de mais nada, pois já estava convicta da culpa de Diego”.

Martha relembra: “e ela foi além, pedindo que a delegada fizesse o trabalho direito e ela respondeu à mãe de Diego: ‘tanto estou que seu filho está atrás das grades'”.

Para a advogada, a investigação focou na pessoa do acusado.

“Não buscou outras linhas de investigação, tampouco proporcionou ao acusado a oportunidade de mostrar sua inocência, querendo resolver logo um crime bárbaro e dar uma falsa sensação à sociedade, de que havia cumprido seu trabalho”.

A reportagem tentou contato com a delegada Anaíde Barros, porém, até o fechamento da matéria, ela não respondeu ao contato. O espaço continua aberto à manifestação.

Desconstruindo argumentos do MP

Advogada fez minuciosa investigação para aceitar o caso e ao que parece, foi muito além da polícia (Foto de Ednilson Aguiar)

Baseando-se pelas informações do inquérito policial, o Ministério Público apontou que Diego fazia ameaças à ex-namorada, porém, as mensagens teriam sido filtradas pela investigação para acusar Diego, sem levar em conta o real contexto.

“Depois que ela disse à ele que ela tinha medo que ela e ele fossem mortos, ele passou a tentar protegê-la, pois ela saía muito para festas e teria conexões com pessoas das quais ele queria protegê-la. Por exemplo, uma vez ele ligou para o irmão dela fingindo ser outra pessoa, pedindo que ele não a deixasse sair, pois ela corria perigo… era sempre pensando na segurança dela”.

No dia do julgamento, a advogada ressaltou que Diego também temia pelo fato de ter, ele próprio, presenciado um homicídio praticado por Douglas Claudino (vulgo Monstrão) e testemunhado contra o assassino, que foi condenado. Diego afirmou ter sido ameaçado de morte.

Linha do tempo e triangulação de rede

À época das investigações, a delegada chegou a dizer em entrevista coletiva: “ele foi para um motel e postou fotos na rede social, também frequentou lugares conhecidos já na intenção de criar uma cadeia de álibis sobre a noite do crime. Ele pode ter passado naquele lugar e naquele horário, porém depois daquilo ele foi até a quitinete onde estavam as meninas e cometeu o crime. Não temos dúvida”.

Mas a advogada fez uma linha do tempo baseada nos relatos de Diego e de quem esteve com ele até a madrugada, além de contratar um topógrafo para avaliar as distâncias de cada ponto por onde ele passou naquele dia. Ele saiu da casa da irmã, onde pegou a moto emprestada, e foi até a casa da ex-mulher, com quem tentava uma reaproximação.

Depois, convocado pelo irmão e irmã e respectivos parceiros e sobrinho, ele foi a duas lanchonetes diferentes, até passar pelo ponto de uma pizzaria, de volta ao bairro Jardim Umuarama. Deixou a moto na casa da irmã e chegou a passar por um caminho próximo ao local onde as meninas foram assassinadas, mas foi direto para a casa.

A advogada pediu também a quebra de sigilo telefônico dele e utilizou o recurso da triangulação dos celulares para analisar onde estavam os envolvidos no intervalo em que, provavelmente, as jovens foram assassinadas, entre 2h e 2h30.

“Durante toda a noite os celulares estavam em torres diferentes, ou seja, ele não saiu gerando álibis. Neste tempo, ele estava transitando e não teria tempo para chegar à casa dela e, o que é mais importante, sem qualquer vestígio de sangue, usando a mesma roupa com as quais saiu e supostamente teria assassinado as vítimas”.

Agora que conseguiu provar que Diego é inocente, Natália anuncia que vai entrar com uma ação cobrando indenização por danos morais contra o Estado.

“Porque, na realidade, não foi realizada uma investigação correta. Depois de sua imagem ter sido incansavelmente associada a um criminoso, Diego não consegue mais arrumar emprego por conta da repercussão nacional que ganhou o caso. O tribunal do júri o inocentou, mas muita gente ainda tem dúvidas – acha que pode ter sido por conta da ausência de provas, fica sempre uma dúvida. A verdade é que a investigação falhou em apontar os reais autores do duplo assassinato”.

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1 COMENTÁRIO

  1. Kk é rir pra não chorar, a mãe da vítima lavou as roupas meu pai do céu quanta mentira, a mãe acaba de perder a filha e vai lavar as roupas do acusado é muita sacanagem. Só não vê quem não quer só vão e chegar quando acontecer com a filha de vcs ou quando ele matar novamente.

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