Inocentado mas injustiçado: o duro recomeço de quem passou quase quatro anos na prisão

Inocentado por falta de provas, Diego ainda sente o peso da descrença e lamenta: "os verdadeiros culpados estão livres"

Ser declarado inocente pelo tribunal do juri no último dia 2 de dezembro, em Cuiabá, pouco aliviou a angústia vivida por Diego José da Silva, 25 anos, há mais de cinco anos.

Principal – e único – acusado pelas mortes das adolescentes Luzinete Lemos Rodrigues, 16 anos, e Poliana Alessandra de Araújo Alves, 14, brutalmente assassinadas em 2014, Diego afirma que tem acompanhado a repercussão do julgamento e acha que sua inocência ainda é alvo de dúvidas.

Mesmo que os jurados tenham decidido que ele não teve envolvimento no crime, Diego acredita que continua, de certa maneira, sob suspeita.

“Por eu ter sido inocentado por ausência de provas, é como se não conseguissem me culpar oficialmente, mas em nenhum momento pensam que os verdadeiros culpados estão livres”.

“Eu passei três anos e oito meses na cadeia, sem contar o tempo que usei tornozeleira, e fui vítima de muito preconceito. Afinal de contas, ninguém quer dar emprego para alguém que usa tornozeleira”, disse Diego, em entrevista exclusiva ao LIVRE.

Ameaças de morte

Fora o peso da dúvida, ele revela que tem que lidar também com constantes ameaças de morte – desde a primeira prisão até a recente liberdade. Para segurança do rapaz e da família, seu paradeiro não pode ser revelado.

“Já não posso ver meus dois filhos, porque a mãe tomou rumo ignorado, temendo pela segurança deles. É muito sofrimento. Eu só queria recuperar tudo que perdi, mas vejo que isso está longe de acontecer”.

Diego conta que, à época do crime, vivia um romance conturbado com Poliana, mas que gostava muito dela. Ele a conheceu em um baile funk, quando ela tinha quase 13 anos. Mas, segundo ele, a jovem afirmou ter 16. Para ficarem juntos, teve que conversar com a mãe e o irmão dela.

“Até chegamos a morar juntos por uns dois meses. Nesse tempo, eu tive uma moto e um carro, que tive que me desfazer porque ela decidia que queria sair e, se eu não fosse, ela ficava brava comigo. Eu não sabia se teríamos futuro, porque ela preferia as festas e as amizades a ficar comigo. Sempre fui caseiro”.

Segundo ele, quando já estavam juntos, morando na casa da mãe dela, em setembro de 2014, “uns caras chegaram com ela desacordada, dizendo que a encontraram no campo, jogada. Eu peguei, dei banho nela, cuidei e tive que contar para a mãe dela. Pedi à sua mãe que tivesse compaixão e apenas conversasse. Eu me preocupava com ela”.

No dia do crime…

Ele lembra que estava no quarto, já havia colocado um short e se preparava para dormir, enquanto mexia no celular, quando um homem avisou que ela teria morrido.

“A irmã achou que fosse mentira, mas eu e o namorado dela fomos até lá para checar”. Este mesmo namorado, a propósito, viu quando Diego chegou em casa naquela noite e relatou à polícia que não viu nada de atípico.

“Quando eu cheguei lá, a polícia já tinha isolado o local e eu estava tão desesperado, lembrando das ameaças que ela havia falado que recebia, que achava que qualquer um ali podia ser o culpado”, relembra.

Depois começou o tormento.

“No dia do velório, a delegada foi até lá me buscar para depor e eu perguntei: ‘mas tem que ser hoje? Eu estou muito abalado’. Ela disse que tinha que ser. Passamos em outro local para ver se ela encontrava dois suspeitos de estarem na casa antes das mortes delas, mas não foram encontrados. Haviam fugido, eu acho”.

A advogada relata que ambos os suspeitos foram assassinados meses depois.

A prisão

Para Diego, foi um dos piores dias da sua vida. Haviam passado sete dias de seu depoimento e ele foi detido no seu local de trabalho: a Central de Flagrantes.

“Eu disse: doutora, a senhora está cometendo uma injustiça. Daí ela respondeu, na frente de todos: ‘eu estou acostumada a prender vagabundo que nem você’. Eu disse a ela, eu não sou vagabundo, a senhora está me prendendo no meu local de trabalho”.

Selfie retirada da biblioteca de mídia de Diego: “ele tinha muito orgulho de trabalhar na Central de Flagrantes”, diz advogada

Quando chegou no presídio, Diego apanhou pela primeira vez. “E levei tanto spray de pimenta na cara que chegou a me causar queimaduras, a pele ficava mole e caía. Não tinha hora, eu podia estar comendo, lendo a Bíblia…”.

Ele lembra de estar em situação de choque, a ponto de agentes comentarem: “esse não vai aguentar puxar cadeia”.

Diego ficou lá por oito meses da primeira vez. Depois, voltou e permaneceu mais três anos.

“Foram cinco anos perdidos da minha vida. Achei que ia morrer lá dentro. Quando minha família chegava para me visitar, eles tiravam onda falando que o inocente tinha visita”.

“No intervalo entre uma prisão e outra, eu reatei com a ex-mulher, com quem me encontrei no dia da morte da Poliana. Tivemos mais um filho, mas voltei para cadeia e, então, nunca mais soube sobre o paradeiro dela. Não vi mais meus filhos”.

“Quando estávamos juntos dessa última vez, vendi picolés, carpi quintais… ninguém queria me dar trabalho com carteira assinada porque era só puxar o ‘nada consta’, que eu estava fichado”.

Questionado se há mágoas em relação à família das meninas, especialmente à mãe de Poliana, que continua o acusando pela morte da filha, Diego diz que se coloca no lugar dela.

“Eu não tenho mágoa porque sei que, talvez, no lugar dela, pensaria a mesma coisa, por conta do que a levaram crer. Mas eu queria dizer a ela que Deus é justo e os verdadeiros culpados vão aparecer. Nesse dia, ela vai se surpreender”

“Se um dia o Paulo [irmão de Poliana] ou dona Patrícia [mãe da moça] quiserem falar comigo, eu estarei à disposição, porque eu gosto muito deles e sou grato por tudo que fizeram por mim”.

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