Crime no Alphaville? Conheça os detalhes sobre a morte de Isabele, segundo a polícia

Entenda como a Polícia Civil chegou à conclusão de que a versão da adolescente que atirou na amiga era falsa - e de que o tiro foi intencional

A morte da adolescente Isabele Guimarães Ramos, 14 anos, na mansão da família Cestari, no condomínio Alphaville, em Cuiabá, no dia 12 de julho deste ano, chocou o Brasil e deixou muitas perguntas sem respostas.

Nessa quarta-feira (2), porém, a Polícia Judiciária Civil e a Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) apresentaram a finalização do inquérito sobre o homicídio da adolescente e explicaram em detalhes como chegaram à conclusão de que a melhor amiga de Isabele a matou de forma intencional, ou, ao menos, assumiu o risco de matar a amiga.

Como tudo começou

O caso começa, segundo a Polícia Judiciária Civil, depois do almoço do dia 12 de julho, quando o namorado da adolescente que mais tarde atiraria na amiga chegou à mansão da família Cestari com duas armas.

Ele foi em um carro de aplicativo e levou as armas, pertencentes ao pai dele, em uma mochila.

Na casa, ele desmuniciou a arma, o que, segundo o delegado Wagner Bassi, foi comprovado durante a investigação, e, durante o dia, todas as pessoas que estavam na casa (Marcelo Cestari, Gaby Cestari e os quatro filhos adolescentes) tiveram acesso à arma.

“Ela circula na mão das pessoas que estavam no local. Deixando claro, eram duas armas, uma arma estava desmuniciada, a outra continua no case”, disse o delegado.

Isabele chegou à casa da amiga às 16h41. O LIVRE contou como foi o dia da adolescente antes desse momento, segundo relato da mãe dela (LEIA AQUI).

Depois da adolescente, chega outro namorado de uma das adolescentes moradoras da casa. Ele foi apenas uma testemunha e não teve envolvimento com o caso.

Do fim da tarde até pelo menos 21 horas, estavam na casa os pais da família Cestari, quatro filhos, dois namorados de duas das filhas e Isabele.

Segundo o delegado Wagner Bassi, enquanto estavam todos reunidos, na mesa da sala havia várias armas expostas, visto que Marcelo Cestari estava fazendo a manutenção das armas.

Mesmo com os quatro filhos e três visitas em casa, haviam várias armas na mesa da sala (Foto: Polícia Civil)

A Polícia Civil fez questão de destacar que na casa não havia cofre para guardar o armamento, ou seja, as armas ficavam ao alcance dos filhos adolescentes a todo momento. Nesse dia em específico, também ao alcance de três visitantes adolescentes: Isabele e os dois namorados das filhas.

Preparação da arma

Entre 21 horas e 21h30, o namorado da adolescente que depois viria a atirar na amiga decidiu ir embora. Antes, porém, ele pede ao sogro para deixar as armas na casa e o sogro permite.

A arma, que havia passado pela mão de todas as pessoas da casa, até então estava sem munição.

“Essa arma ficou na casa, circulou, várias pessoas tiveram acesso, várias pessoas manusearam a arma, manobraram a arma, apertaram o gatilho na casa, várias pessoas mexeram nessa arma, a gatilho foi puxado, conforme comprova-se nas oitivas, então realmente essa arma não estava municiada”, afirmou o delegado Bassi.

Antes de ir embora, porém, por volta das 21h50, o adolescente inseriu o carregador na arma, o que atiradores chamam de “alimentar a arma”. A namorada dele não o viu fazendo isso. Em seguida, ele guardou a arma na case e a fechou.

“Tecnicamente a gente diz que uma arma ‘municiada’ é com munição no carregador; ‘alimentada’ é quando ela insere o carregador e ‘carregada’ é quando ela está pronta para disparo. Então essa arma não estava carregada: ela estava municiada e alimentada. Conforme informado por ele, ele deixou a arma nessa condição, com munição, mas dessa forma a arma não dispara”, explicou o delegado.

Às 21h59 esse adolescente vai embora da casa e a namorada fica na porta. Tudo isso é filmado pelas câmeras de segurança externas da casa e também pela portaria do condomínio.

1 minuto e 18 segundos

Segundo a investigação da Polícia Civil, após se despedir do namorado, a adolescente entra na casa, pega a case que estava em cima do sofá e sobe as escadas.

A polícia fez a reprodução simulada dos fatos e a medição deu que ela levou 36 segundos para ir até o quarto dela. A adolescente afirmou em depoimento que guardaria a case e as armas no quarto do pai, mas o quarto do pai fica no extremo oposto da casa e ela foi para o quarto dela.

“No quarto dela tem uma bancada próxima à televisão, ela põe a case e abre ela. Ela deixa uma das armas dentro da case, pega a outra arma, que estava municiada, e vai para o banheiro”, afirmou o delegado Wagner Bassi.

Isabele, segundo Bassi, estava no banheiro fumando um cigarro eletrônico. Em depoimento, a mãe dela confirmou que sabia que a filha fumava escondido, sem autorização dela e já havia prometido parar. Na cena do crime, ela está com o cigarro eletrônico na mão.

Conforme a investigação da Polícia Civil, contrariando a versão da acusada, a adolescente que estava com a arma entrou no banheiro e vítima e acusada ficaram dentro do local do crime.

“O tempo exato que elas ficam no banheiro, a gente fez toda essa medição através das imagens e das perícias, é 1 minuto e 18 segundos. A partir desse momento, nesse intervalo de tempo de 1 minuto e 18 segundos, acontece um disparo dessa forma [veja imagem abaixo]. Com as duas dentro do banheiro. Pela altura do disparo e pela distância, nos permite dizer que foi dessa forma”, disse o delegado.

Como a perícia aponta que aconteceu o disparo (Imagem: Polícia Judiciária Civil)

Provas

A perícia apontou que esse modelo de arma não dispararia sozinho, nem poderia disparar sem ser carregado.

“Nesse intervalo de tempo em que ela coloca a arma no case e vai para o banheiro, acontece o carregamento da arma com o golpe no ferrolho. A gente não consegue precisar de forma exata o momento em que aconteceu esse municiamento, mas ele tem que ter acontecido, porque senão a arma não teria disparado, que é o movimento de golpear para inserir a munição na câmara”, disse o delegado.

Questionado sobre a possibilidade de não ter sido a adolescente que carregou a arma, o delegado foi enfático:

“Não vou afirmar como foi o carregamento, mas alguém carregou. Mas isso na nossa visão não muda o raciocínio final que fez a nossa conclusão: foi ela quem apontou a arma numa altura x e acionou o gatilho em direção ao rosto da vítima”.

Uma das primeiras provas analisadas foi a “tatuagem” deixada pelo disparo no rosto da vítima, que é chamuscamento deixado pelo tiro. Foi por ele que a perícia conseguiu apontar que o tiro havia sido disparado de uma distância de 20 a 30 centímetros do rosto de Isabele.

Perícia apontou a distância que o tiro foi disparado (Imagem: Polícia Civil)

A Polícia Civil chegou ao tempo de 1 minuto e 18 segundos para que o crime tenha ocorrido porque o namorado da adolescente que atirou vai embora às 21h59 e, às 22h01, a porta da frente da casa se abre novamente e as câmeras, que funcionam por movimento, se ligam.

“Quando a porta abre, inicia uma gritaria na casa. A gente verifica que o crime já tinha acontecido e há várias falas que provam que o crime já tinha acontecido, como ‘socorre’, ‘estou socorrendo’, ‘to cuidando’. O que é possível afirmar é que o crime ocorre nesse intervalo, entre a saída do adolescente e o momento em que a porta se abre novamente com esses gritos”, afirmou o delegado.

E a maior prova, segundo a Polícia Civil, que derrubou a tese defendida pela defesa da família Cestari e pela adolescente que atirou, de que o tiro teria sido disparado quando a arma caiu da case e ela tentava guardar de volta na maleta, foi que não foi encontrada manchas de sangue nem na case, nem na segunda arma. Ou seja, a case não estava na cena do crime.

Os peritos fizeram a análise com luminol, porque o sangue sempre fica marcado e com esse reagente é possível detectar o sangue. Com isso, foi possível encontrar sangue que respingou do rosto de Isabele na arma do crime, na roupa da adolescente que atirou – que ela trocou na casa de uma vizinha, mas foi recuperada e analisada – e no chão.

“Mas a case e a outra arma não tinham sangue, então aquela versão está descartada, porque se a adolescente estivesse com a case na mão, como informada, tinha sangue nela. Tinha que ter sangue. Esse sangue ia ter espirrado também no case. Então além das amostras das análises que eram incompatíveis, pela altura, levantar tanto a case, a gente já tinha essa análise, mas o fato do sangue comprova, através de um elemento pericial, que a case não estava na cena do fato”, declarou o delegado.

Quando o tiro atinge o rosto, o sangue respinga, mas a case não tinha manchas de sangue e, por isso, não poderia estar na cena do crime (Imagem: Polícia Civil)

Além disso, durante a reprodução simulada do crime feita pela Polícia Civil e pela Politec, acompanhados pela família – somente a adolescente que atirou não participou – no dia 19 de agosto, duas pessoas que estiveram no local do crime imediatamente após o disparo disseram não ter visto a case na mão da adolescente que atirou, mas sim no quarto dela.

Outro ponto é que a posição do corpo de Isabele também impede que ela tenha sido morta na porta do banheiro, como dizia a amiga.

“A Isabele foi encontrada com a cabeça para dentro do box. A atiradora, segundo análise dos peritos, estava nessa posição. Por que? Pela nossa estrutura corpórea, esse tipo de disparo a gente fala que desliga a vítima. Ela pega uma posição do nosso crânio que praticamente apaga, é indolor, a pessoa não chega a sentir nada. Ela desliga mesmo porque pega o nosso eixo de ligação entre o cérebro e o corpo, ela perde todos os movimentos”.

“Esse tipo de disparo faz com que a vítima caia reta e jogue o corpo para trás. Os peritos falam isso no laudo, esclarecendo todo esse movimento de queda de uma vítima que toma um disparo dessa forma. Então, com isso, a pessoa que atirou tinha que estar aqui”, explicou o delegado, mostrando a imagem abaixo.

Posição que Isabele foi encontrada e que a atiradora precisava estar (Imagem: Polícia Civil)

O delegado Wagner Bassi afirmou que o corpo de Isabele não foi arrastado, nem houve qualquer modificação no corpo, apenas pequenas alterações para os primeiros-socorros, como a massagem cardíaca.

Indiciamentos

Glauco Fernando Mesquita Correa da Costa, dono da arma do crime e da segunda arma que estava na case, e pai do namorado da adolescente que atirou, foi indiciado por omissão de cautela na guarda de armas de fogo.

Ele alegou que o filho pegou as armas sem sua autorização, mas a polícia entendeu que ele não teve o cuidado de guardar as armas em local seguro e deixou em fácil acesso para um adolescente.

Marcelo Cestari foi indiciado por quatro crimes: posse de arma de fogo, por ter deixado o genro deixar as armas do pai na casa dele; homicídio culposo, por ter agido com imprudência e negligência ao deixar que a filha pegasse uma arma e isso ter gerado a morte de Isabele; entregar arma para adolescente, por ter entregado a arma para a filha menor; e fraude processual, por ter atrapalhado a investigação mandando a esposa esconder os apetrechos de armas que estavam em cima da mesa quando o Samu chegou e por ter falado para o Samu no telefone que não era um tiro.

Já os adolescentes, conforme o Código Penal, não cometem crimes, cometem atos infracionais, com medida máxima de internação em estabelecimento educacional de no máximo três anos.

Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre

O namorado da adolescente que atirou responderá por ato infracional análogo a porte de arma de fogo, por ter levado as duas armas na mochila para a casa da namorada.

Por fim, a adolescente que atirou na amiga responderá por ato infracional análogo a homicídio doloso, quando a pessoa quer matar, ou assume o risco de matar, de qualquer forma.

“Para nós, a conduta é clara; dessa forma, considerando as incompatibilidades todas da adolescente nas versões dos fatos, a gente acha que a conduta dela é dolosa por, no mínimo, ter assumido o risco de matar a vítima. Ela era uma adolescente treinada, capacitada”, disse o delegado.

A adolescente fazia treinamento de tiro e, até mesmo, já participou de campeonatos; com isso, a Polícia Civil concluiu que ela tinha condições de saber o que estava fazendo.

“Quando a gente faz treinamento de tiro, antes de pegar em arma a gente aprende uma situação que se chama segurança; a gente aprende a desmuniciar e a olhar se a arma está municiada ou carregada. Ela era uma adolescente treinada e já tinha essa capacitação de segurança. Então, no mínimo, ao manusear essa arma dentro do banheiro, com a amiga, nessa altura e nessa proximidade, ela assumiu o risco de gerar a morte da adolescente. A conduta dela, para a gente, é incompatível com mera negligência, imprudência e imperícia”, afirmou Bassi.

Delegado Wagner Bassi (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Intenção e motivação

As perícias dos celulares dos envolvidos mostraram que Isabele e a melhor amiga não tinham nenhum problema, pelo contrário, tinham uma boa relação.

Ainda assim, a polícia concluiu que o tiro foi intencional, segundo o delegado Wagner Bassi, pela forma como o tiro aconteceu.

“Essa conduta de apontar a arma, acionar o mecanismo de gatilho da arma e considerando as incompatibilidades das versões apresentadas. A gente pode concluir que, no mínimo, com o treinamento e a capacitação dela, que ela sabe muito bem ver se uma arma está municiada ou não. Isso nos levou a afirmar que ela, no mínimo, assumiu o risco de matar e que isso pode caracterizar o ato infracional análogo a homicídio doloso”, disse o delegado.

Questionado se foi encontrado algum motivo durante a investigação para que a adolescente tenha matado intencionalmente a amiga, o delegado afirmou:

“A única pessoa que estava no local e que pode falar se ela tinha uma intenção ou não é ela (atiradora). Mas, por meios técnicos, a gente consegue estabelecer como foi a dinâmica dos fatos e do disparo. E através disso nós tiramos a conclusão do que aconteceu, conforme foi informado. Mas informar o que está dentro da mente dela a gente não vai poder informar, porque a gente não tem essa perícia ainda”.

Isabele não resistiu e morreu no local (Foto: arquivo pessoal)

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3 COMENTÁRIOS

  1. Tudo aponta para mais uma ” infeliz ” brincadeira de adolescentes imaturos brincando com armas. Sofrimento de famílias. Trabalho exemplar de investigação. Um cofre e uma responsabilidade teria evitado.

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