Santa Casa: pacientes encontram portas fechadas e trabalhadores passam fome

Familiares vem de outros municípios tentar atendimento; já funcionários estão com seis folhas salariais em atraso

Era segunda-feira (11) à noite quando a Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá colocou um aviso na porta que dá acesso às dependências do hospital: os atendimentos estão suspensos até que a prefeitura regularize o repasse de R$ 3,6 milhões. No dia seguinte, pela manhã, houve a surpresa de Sandra Aparecida dos Santos, que veio de Querência (760 km da Capital) em busca de atendimento para o neto de seis anos.

Há quatro anos, a criança ingeriu, acidentalmente, soda cáustica. Desde então, todos os meses a dona de casa precisa passar, pelo menos, uma semana em Cuiabá para que o neto realize uma cirurgia de dilatação do esôfago, procedimento que só é realizado por um médico da Capital. E o procedimento gratuito, ela só consegue por meio da Santa Casa.

Na manhã de terça-feira (12), a sensação de Sandra era de desânimo. Ela chegou na Capital no domingo e estava hospedada na casa de apoio, mas o neto precisaria, urgentemente, fazer o procedimento, já que estava com dificuldades para engolir até mesmo a saliva. A cirurgia estava marcada para esta quarta-feira (13), mas o médico que atende a criança foi taxativo ao informar: não poderia fazer.

Sandra, então, ligou para o médico Antônio Preza, ex-presidente da Santa Casa, e explicou a situação. Segundo ela, ele prontamente se disponibilizou a atende-la no hospital. Mas, até o momento que a reportagem do LIVRE entrevistou a avó da criança, o médico ainda não havia aparecido.

Um procedimento como o que o neto de Sandra precisa fazer custa, na rede particular, aproximadamente, R$ 800. Esse valor está muito além dos custos que a dona de casa poderia arcar. E sobre a situação da Santa Casa, Sandra é compreensiva, no entanto, precisa da instituição.

“Eu entendo o que está acontecendo aqui. Entendo, principalmente, que muitos funcionários aqui estão trabalhando somente pelo amor à causa, porque eles não são obrigados a trabalhar sem receber”, disse a moradora de Querência.

Pacientes que chegaram à Santa Casa na manhã de terça-feira (12) encontraram as portas fechadas e um aviso (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Salários atrasados

Atualmente, a Santa Casa deve seis folhas salariais aos trabalhadores, são as de novembro a março e o 13º salário. Além disso, o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e INSS também não estão sendo recolhidos.

A Santa Casa conta com pouco mais de 800 trabalhadores, destes, 400 são enfermeiros, de acordo com o presidente do Sindicato dos Profissionais de Enfermagem, Dejamir Soares. Acompanhando a situação de perto, ele critica, principalmente, a falta de transparência da diretoria com relação aos valores arrecadados por meio dos atendimentos particulares.

“Não sabemos quanto a Santa Casa já arrecadou com os atendimentos particulares. Não sabemos qual é a real arrecadação da Casa. Nós chegamos a um ponto que a Santa Casa está estagnada e não produz mais nada. É triste, mas essa é a realidade”, lamentou.

Atividades paralisadas

Outra queixa dos funcionários é com relação à forma como a paralisação foi feita. De acordo com um dos representantes dos trabalhadores, André Luiz Devaux de Lara, a paralisação foi uma deliberação da diretoria, que não informou os trabalhadores. Tanto que a maioria só ficou sabendo quando a própria imprensa noticiou.

“É uma falta de diálogo muito grande. Nós mesmos não temos ciência do que está acontecendo. No entanto, a situação dos trabalhadores é crítica. Esperamos que em um próximo acordo a Santa Casa quite pelo menos duas folhas salariais. Se ela decidir pagar menos do que isso, o movimento já decidiu pelo desligamento geral dos funcionários da instituição”, explicou André.

A equipe do LIVRE conversou com uma funcionária da Santa Casa que não quis se identificar. Ela contou que muitos colegas estão com contas em atraso e o mais grave: alguns não têm nem o que comer. Falta até mesmo o dinheiro para pegar a condução que leva o trabalhador até o hospital. Destes 800 funcionários, muitos já deixaram o emprego.

Na sessão da Câmara de Cuiabá que aprovou a intervenção na Santa Casa, realizada na terça-feira, o sentimento era de angústia. Lenir Maria de Barros tem uma filha de 12 anos, que faz tratamento com leucemia. A grande preocupação dela é que hospitais filantrópicos como o do Câncer não tenham capacidade para “absorver” todos os pacientes da Santa Casa.

Lenir conta com a sensibilidade das autoridades para auxiliarem os pacientes que precisam do hospital filantrópico (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

“Eu peço muito às autoridades que nos ajudem, nós precisamos de socorro. Nós não podemos deixar a Santa Casa fechar. É muita gente que precisa, tem muitos funcionários que precisam. E se as portas fecharem de vez, para onde nós vamos? Eu peço a colaboração de todos e que as pessoas e o poder público se comovam com isso”, emocionou-se Lenir.

O que diz a Prefeitura de Cuiabá

Trecho de um último posicionamento da prefeitura sobre a situação deixa a entender que o prefeito Emanuel Pinheiro (MDB) está avaliando a possibilidade do repasse dos R$ 3,6 milhões à Santa Casa, mesmo com a recomendação da Controladoria Geral do Estado (CGE), que alertava que a instituição está sendo investigada pela Delegacia Fazendária (Defaz).

Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, Emanuel deve decidir nos próximos dias. Confira na íntegra a nota divulgada nesta terça-feira (13):

Ainda sobre os repasses da Prefeitura de Cuiabá para a Santa Casa:

1- A Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá não cumpriu com o acordado com a Prefeitura de Cuiabá. Foram repassados R$ 24.866.260 para a instituição, mas os serviços hospitalares que deveriam ser oferecidos aos cidadãos não foram executados. Sendo esse o motivo da dívida da Santa Casa com a Prefeitura de Cuiabá;

2- A Prefeitura de Cuiabá se comprometeu a ajudar a Santa Casa a continuar de ‘portas abertas’ repassando o valor R$ 3,6 mi como forma de adiantamento em troca de serviços hospitalares para a população. Importante frisar que a Prefeitura de Cuiabá não é obrigada a passar mais nenhum valor para a instituição e que esta seria uma ajuda e não uma obrigação;

3- Diante do fato de que a Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá estar sob investigação por parte da Delegacia Fazendária. A secretaria Municipal de Saúde recebeu na última quinta-feira (dia 07.03) uma notificação da Controladoria Geral do Estado recomendando para que não fosse feito nenhum repasse financeiro para a instituição enquanto não findarem as investigações devido à auditoria solicitado pela DEFAZ.

4- A Procuradoria Geral do Município tomou conhecimento ontem (11.03) do ocorrido e, por cautela, recomendou a suspensão do repasse, encaminhando todos os documentos ao prefeito, que está em viagem, para que tome conhecimento, analise a situação e tome a decisão referente ao fato;

5- O prefeito Emanuel Pinheiro esclarece que, acima de tudo, tem compromisso com a população e sabe que muitos dependem dessa importante instituição filantrópica e tão logo analise os documentos tomará a decisão baseado na legalidade da questão, sempre priorizando a humanização do atendimento à saúde dos cuiabanos.

Prefeitura Municipal de Cuiabá

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