Pesquisadores são presos em MT durante estudo do Ministério da Saúde sobre covid-19

Ao todo, 17 pessoas foram detidas em Rondonópolis e Barra do Garças. Pelo visto, por um problema de comunicação

(Foto: Divulgação)

Um pesquisa sobre a propagação da covid-19 financiada pelo Ministério da Saúde, em Mato Grosso resultou na prisão de 17 profissionais que abordaram pessoas nas ruas de Barra do Garças e Rondonópolis. Ao que tudo indica, por conta de uma falha na comunicação.

Na última quinta-feira (14), em Rondonópolis (215 km de Cuiabá), um casal foi detido por policiais militares. A polícia chegou após a denúncia de moradores abordados pela dupla, que oferecia testes rápidos para covid-19.

Com eles, a polícia apreendeu 24 testes, toucas plásticas, aventais, saches de álcool em gel e outros materiais. Eles foram ouvidos e liberados em seguida.

No mesmo dia, em Barra do Garças, outros 15 pesquisadores foram parar na delegacia pelo mesmo motivo.

Nas duas cidades, os policiais disseram ter entrado em contato com as respectivas secretarias de Saúde, que informaram não haver autorização para pesquisa alguma na região.

O que diz o Ministério?

No site do Ministério da Saúde, as informações sobre o início da tal pesquisa foram disponibilizadas um dia após as prisões em Mato Grosso. Lá, a informação é de que “cerca de 100 mil pessoas, de 133 municípios, serão entrevistadas e testadas” e que o próprio Ministério “enviou 150 mil testes rápidos para viabilizar a ação”.

Nesta segunda-feira (18), a reportagem do LIVRE entrou em contato com o governo federal.

Por meio de assessoria, o Ministério informou que o estudo é coordenado pelo Centro de Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), do Rio Grande do Sul. Como os próprios pesquisadores chegaram a dizer aos policiais que os abordaram.

O governo federal sustentou também que notificou as secretarias estaduais sobre a realização da pesquisa.

Em Mato Grosso, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) disse, entretanto, que só tomou conhecimento sobre o levantamento após o início dele, através do Conselho Nacional de Secretários Estaduais (Conass).

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O que diz a UFPel?

Em nota, a Universidade Federal de Pelotas defendeu a importância do estudo e enalteceu a qualidade das pesquisas desenvolvidas pela instituição.

Informou que o projeto foi submetido à apreciação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), tendo sido aprovado ainda no dia 28 de abril de 2020.

Explicou ainda que os pesquisadores não mentiram quando disseram que trabalhavam para o Ibope. O instituto foi contratado para a realizar a pesquisa após um processo seletivo.

A instituição alega ainda que todos os requisitos de segurança estão sendo seguidos, incluindo o uso de equipamentos de proteção individual. Entre eles, está a inclusão apenas de entrevistadores com teste negativo para anticorpos do coronavírus.

A função de contatar os municípios, porém, ficou a cargo do Ministério da Saúde, segundo a universidade.

O que vai acontecer agora?

Segundo a Polícia Civil de Mato Grosso, os pesquisadores detidos em Barra do Garças vão responder por exercício ilegal de profissão. Isso porque nenhum deles é profissional de saúde, pelo que já foi apurado.

A punição leva em conta, o manuseio do material coletado para os testes rápidos: o sangue dos moradores.

No município, um auto de infração sanitária também foi feito em desfavor da empresa JC Pesquisa, de São Paulo. Ela foi contratada pelo Ibope para realizar a pesquisa em Mato Grosso.

Não foi só em MT

Segundo a Universidade Federal de Pelotas, a situação – no mínimo – constrangedora pela qual passaram os pesquisadores não foi exclusividade em Mato Grosso. As equipes de pesquisa vêm passando por isso em outros municípios do país.

Desde o início da pesquisa, cerca de 2 mil funcionários já foram detidos.

“Trata-se de brasileiros e brasileiras que estão trabalhando para sustentar suas famílias, numa pesquisa que pode salvar milhares de vidas, e que mereciam proteção das forças de segurança e uma salva de aplausos por parte de toda a população. Ao contrário, as forças de segurança, que deveriam proteger os entrevistadores, foram responsáveis por cenas lamentáveis e ações truculentas, algumas delas felizmente registradas”, diz a nota.

Para a universidade, o possível atraso na comunicação entre o Ministério da Saúde e os  municípios não é justificativa para o tratamento dado aos pesquisadores.

“Nada justifica o comportamento de ‘xerifes’ assumido por alguns gestores municipais, que impedem ou atrapalham a realização de uma pesquisa”.

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