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“Não temos o tempo ‘deles’”: famílias de crianças com câncer se mobilizam pela Santa Casa

Foto de Maria Clara Cabral
Maria Clara Cabral

Enquanto governo do Estado e a Prefeitura de Cuiabá resolvem quem deve intervir na Santa Casa de Misericórdia, dezenas de crianças e adolescentes com câncer, pacientes da ala de oncologia do filantrópico, se organizam com suas famílias para reivindicar soluções e, até mesmo, pagar as dívidas da clínica.

O hospital teve os serviços paralisados de vez, no dia 11 de março, depois de meses sem pagar seus trabalhadores; os médicos, por exemplo, seguem há quase um ano sem receber.

A situação é desesperadora para grande parte da população que depende dos serviços da Santa Casa. Mas a falta de respostas pode ser ainda pior para quem estava em tratamento de quimioterapia, como Juliana Zaine, de 19 anos. A jovem de Sinop (480 km de Cuiabá) trata uma leucemia há 2 anos e 2 meses no filantrópico.

“Praticamente morei um ano em Cuiabá, quando eu vinha para minha cidade e só podia ficar uma semana aqui. Agora, eu volto a cada três semanas para Cuiabá. No dia 22 eu tenho consulta e quimioterapia para fazer, porque nossos médicos não desistiram de atender a gente”, relata a Juliana.

“Desde que comecei a fazer o tratamento, acontecem esses casos de a Santa Casa não repassar dinheiro para a clínica. Muitas vezes chegou a faltar quimioterapia e a gente teve que ir adiando. Mas até então, a situação ainda se resolvia”, complementa.

Antes de fechas as portas, a Santa Casa tinha 632 pacientes no serviço de oncologia e hemodiálise, sendo 611 adultos e 21 crianças. “As que estão em tratamento ainda, acho que são umas 20 ou mais. Mas também tem muitos jovens que fazem ainda fazem acompanhamentos semanais”, ressalta Juliana.

A paciente conta que na última quinta-feira (11), um grupo de pais de pacientes estiveram na Vara da Infância e da Juventude para buscar alternativas. “Lá eles disseram que se algum paciente precisar internar, eles vão arrumar um hospital, mas não vão transferir. Vão internar até resolver a situação da Santa Casa. Mas até resolver? A gente não pode esperar o tempo ‘deles’. Acho que não caiu a ficha que a gente trata de câncer e não de gripe”, afirma.

O prefeito Emanuel Pinheiro (MDB) argumenta que 70% dos atendimentos são a pacientes do interior e que Cuiabá não tem condições de “salvar” a unidade filantrópica sozinho. Já o governador Mauro Mendes (DEM) afirma que a manutenção da Santa Casa é competência exclusiva da prefeitura e que o Estado não tem recursos para ajudar a reduzir o déficit financeiro.

As famílias, por sua vez, se movimentam por conta própria, já que a informação é de que os medicamentos da clínica só serão suficientes até o final desse mês. Também na quinta-feira (11), as crianças e adolescentes realizaram uma manifestação em frente à Santa Casa.

“Desde que estão falando que a Santa Casa vai fechar as portas que os pais dos pacientes estão correndo atrás de respostas. Ano passado, um pai organizou, em Nova Mutum, um churrasco beneficente para pagar as dívidas da clínica com a farmácia. Esse ano, no dia 1º de maio, ele está organizando outro evento para comprar mais medicamentos”, afirma Juliana.

Foto: Prefeitura de Cuiabá

Imbróglio

No dia 1º de abril, governo do Estado e a Prefeitura de Cuiabá se reuniram para cobrar da direção da Santa Casa transparência nos dados da administração da unidade. Foi o primeiro encontro para tratar do plano de recuperação do filantrópico desde sua paralisação, na primeira quinzena de março.

Na reunião, um novo número foi apresentado pela direção do filantrópico, desta vez a dívida era em torno de R$ 50 milhões, mas não leva em consideração os salários atrasados e nem os adiantamentos em forma de empréstimos feitos pelo governo e prefeitura.

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