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Monsenhor Trebaure: o santo cuiabano que veio da França

Foto de Caroline Rodrigues
Caroline Rodrigues

Maria, Ilga, Amália e Thalita foram apenas algumas das pessoas que receberam graças pela intercessão do padre Monsenhor Alexandre Trebaure, morto em 1939. Após alcançarem a benção, oficializaram o testemunho no Jornal A Cruz, uma publicação da sociedade católica da época.

Os anúncios foram registrados ao longo de uma década após o falecimento do religioso francês. Eles não descrevem os pedidos, porém provam a crença dos cuiabanos na santidade do antigo pároco da Igreja Boa Morte, localizada no centro da Capital mato-grossense.

Uma devoção que se segue até os dias de hoje, tendo em vista que o túmulo dele é um dos mais visitados do tradicional Cemitério da Piedade e sempre está adornado com muitas flores, velas e cartas de agradecimento, que atualmente substituem as publicações.

Diferentes de muitos santos – reconhecidos depois de mortos -, a santidade do padre foi reconhecida enquanto ele ainda era vivo e fazia os trabalhos na paróquia.

Um vida devotada aos pobres

Pesquisador e administrador do grupo no Facebook “Cuiabá de Antigamente”, Francisco das Chagas diz que as pessoas ficavam comovidas com o desapego do padre Monsenhor Alexandre Trebaure em relação ao conforto e bens materiais.

Seu quarto não tinha sequer cama. Dormia em uma estrutura forrada por lona, rodeada de poucos móveis, entre eles, uma mesa com algumas imagens de santos, onde fazia suas orações.

Tudo que ganhava era para ajudar os pobres. Carmelita do Couto (1908-1981), que morava na vizinhança e conviveu com o padre, relata no livro de Luis Philippe Pereira Leite que Trebaure chegava a passar necessidade de alimentos por conta da excessiva generosidade.

Entre as páginas 22 e 28 de “Alexandre Trebaure – patriota francês, piedoso sacerdote, popular cuiabano, padrinho das crianças e protetor dos pobres”, ela conta que um dia o sino da igreja não tocou e sua mãe mandou o irmão ver o que estava acontecendo.

Padre francês Monsenhor Alexandre Trebaure, pároco da Igreja Boa Morte (Foto: divulgação/Cuiabá de Antigamente)

Chegando lá, o menino se deparou com o padre extremamente debilitado. Ele, então, avisou a família, que conseguiu um médico para consultá-lo e o diagnóstico foi falta de leite.

O dinheiro havia acabado e Trebaure estava há mais de dois meses sem o alimento, um dos poucos que faziam parte de seu cardápio rotineiro.

Logo que descobriram, os fieis se juntaram e garantiram que nunca mais o produto faltasse.

Como vivia em situação de muita escassez, o padre tinha as refeições doadas e elas nunca podiam ser em quantidade além do que ele considerava necessário.

Costumeiramente, o almoço eram dois ovos cozidos em água limpa e uma garrafa pequena de café. Já a janta, um mingau de leite.

Muitos afilhados

Trebaure era francês e dava aulas de sua língua materna gratuitamente. Também era aclamado pelos mais jovens pela sua calma e disposição em ensinar.

Foi padrinho de centenas de crianças e, toda vez que celebrava a primeira comunhão, saia batendo de porta em porta para conseguir bolos, quitutes e chá para depois das celebrações.

Ele conhecia a vida das famílias mais pobres da comunidade e, sempre que a igreja ganhava uma doação, ele já distribuía entre as pessoas que ele sabia que estavam mais necessitadas”, conta o professor Paulo Nince, sobrinho de Carmelita do Couto.

As pessoas o admiravam e viam grandiosidade naquele homem franzino, que apesar de assumir um vida de pobreza, era muito alegre e adorava o dia do próprio aniversário.

“Era no dia de Nossa Senhora da Conceição e ele tinha muito orgulho. Então, limpava o quintal, colocava os bancos para fora e recebia os vizinhos, que traziam os quitutes para o chá com bolo”, descreve o professor.

O que sobrava, virava quentinha para os convidados. Salvo um pouco de doce de figo e de leite, que Camelita do Couto descreveu no livro com os seus preferidos.

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O caso da batina

O padre tinha apenas duas batinas e uma delas estava muito velha. Então, ele ganhou um tecido e foi apreçar quanto era a confecção no colégio dos padres.

Voltou triste porque não tinha dinheiro suficiente e sabia que a peça que estava em uso não duraria muito.

Como ele sabia que Carmelita fazia reparos a máquina, pois ela arrumava as rouparias da igreja gratuitamente, ele pediu que costurasse uma nova.

No livro, a fiel admite que não tinha perícia suficiente, mas pediu para ele trazer a batina velha, que iria desmanchar e usar como modelo para nova.

Ao final, a costura deu certo e, a partir daquele dia, Trebaure soube que não teria mais problemas com a vestimenta.

Uma relíquia de família

Nince guarda com muito carinho uma imagem de Santo Antônio, que Trebaure deu a tia dele quando estava no leito de morte.

A peça tornou-se uma relíquia de família e um compromisso dele com a memória do padre.

Professor Paulo Nince guarda a imagem de Santo Antônio que era do padre Trebaure (Foto: arquivo de família)

Segundo o professor, a imagem era muito bonita e chamou a atenção da mãe de Carmelita. O padre disse a ela, então, que quando fosse chamado para fazer a passagem, a daria como presente.

Quando estava no hospital, mandou entregar o objeto que estava na cabeceira da cama. Ele disse que Santo Antônio ia ajudar a família a realizar o sonho de ter uma casa própria, pois moravam de aluguel.

Contudo, a mãe de Carmelita deveria fazer um chá com bolo para os pobres no dia do santo para homenageá-lo.

Dois anos após a morte do padre, a família conseguiu o tão sonhado imóvel.

A graça da sabedoria

Nince conta que muitas pessoas pedem a intercessão de Trebaure em busca de autoconhecimento e sabedoria.

“A oração dele é forte, mas não para bens materiais. É para quando você precisa melhorar para entender e resolver as coisas”, relata.

O professor acredita que os pedidos monetarizados, inclusive, divergem da vida do pároco que sempre prezou pela simplicidade, uma característica absorvida pelo seu sucessor o Frei Quirino.

Mas, isso é outra história.

Recorte do Jornal A Cruz que fala sobre a comoção no velório do padre Trebaure

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