Fumaça hi-tech: cigarros eletrônicos são a nova porta de entrada para o vício?

Anvisa discute regulamentação enquanto, na prática, proibição de venda não é respeitada

Dispositivo traz vapor e essências e torna-se atrativo para os jovens (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

A tecnologia chegou à indústria tabagista para atrair novos seguidores. O antigo cheiro forte dos cigarros foi substituído pelas essências de diversos sabores – e a fumaça, por vapor. Um novo hábito que tomou conta das baladas e rodas de jovens por meio dos e-cigarettes ou dispositivos eletrônicos para fumar.

Mesmo com a comercialização não regulamentada, o acesso ao produto é fácil. Ele está nas lojas de importados do centro de Cuiabá (MT) e mercados da Internet, a distância de um clique.

O preço insinua aos novos alvos que fumar pode voltar a ser um sinônimo de status. Um e-ciggy ou ecigar (outros nomes comerciais do dispositivo) custa entre R$ 150 e R$ 500.

As essências, que vão da tradicional menta aos sabores mais refinados, como bolo de morango, custam de R$ 100 a R$ 150. Elas vêm em um frasco de 100 ml.

De acordo como coordenador do Programa Antitabagismo da Prefeitura de Cuiabá, o enfermeiro Carlos Alexandre Rodrigues, o tema é discutido com intensidade nos eventos técnicos.

Segundo ele, nos últimos anos o número de fumantes de cigarros tradicionais reduziu muito e os especialistas temem que a indústria esteja “abrindo uma nova porta” para atrair os jovens.

“Quando fumar passou a ser proibido em locais públicos e a propaganda foi controlada, o número de novos consumidores reduziu exponencialmente. E os antigos foram parando ou morrendo”.

(Foto criado por freepik – br.freepik.com)

Conforme dados do Ministério da Saúde, a quantidade de fumantes caiu 40% de 1989 até hoje.

A receita para este resultado foi a taxação do produto, ações para retardar o acesso por parte dos jovens, prevenção e tratamento de quem é viciado.

Informações dispersas

Rodrigues afirma que, no início, a ideia era criar uma ferramenta para ajudar quem quisesse parar de fumar.

Porém, a situação mudou e hoje não se tem controle da quantidade de nicotina e os poucos estudos feitos no produto mostram que ele vicia mais rápido.

“Usa todas as técnicas para cair no gosto dos mais novos. A tecnologia e os sabores adocicados, por exemplo”.

O enfermeiro alega ainda que, pelo preço ser alto, uma hora o usuário pode ficar sem recursos e acabar se rendendo ao cigarro tradicional, que são mais baratos. “Toda a indústria é assim, sempre achando uma forma de se reinventar”.

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Quem fuma

Estudante e DJ, Paulo Azevedo, 20, trocou o cigarro tradicional pelo e-cigarette. Ele conta que pagou R$ 500 pelo produto, que é de primeira linha.

Entre as vantagens está o amplo reservatório de essência, o controle eletrônico da temperatura e da quantidade de vapor, além da bateria com ultravida.

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Na opinião dele, a escolha foi assertiva, uma vez que pesquisou sobre o produto na Internet. “Eu vi que tem menos substâncias tóxicas e, depois que comecei a usar, não me sinto mais cansaço como antes”.

A carteira e meia diária, que custa no máximo R$ 105 por semana, foi substituída pelo frasco de essência de 150 ml, a R$ 150.

Processo de regulação

A Anvisa está realizando audiências públicas para apresentar estudos existentes sobre o uso dos dispositivos de fumar. Os eventos estão dentro do processo de regularização.

Clique aqui e saiba como é feita a regularização.

Vale lembrar que, desde 2009, está em vigor a proibição de venda, importação e distribuição dos e-ciggy. A decisão foi tomada após um documento encaminhado pela Associação Médica Brasileira.

Na ocasião, a entidade argumentava que os cigarros eletrônicos causavam mal à saúde e seriam uma alternativa da indústria para atrais jovens e crianças.