Quer parar de fumar? 50% dos que participam dos grupos de apoio conseguem

Tratamento e medicamentos são oferecidos pelos Sistema Único de Saúde (SUS) gratuitamente

Equipe multidisciplinar prepara atividades diferentes para cada encontro (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

A vontade de integrar o seleto rol de ex-fumantes atrai pessoas de vários pontos da cidade para o Grupo Antitabagismo do Centro de Saúde do bairro Cidade Verde. O local está entre os 25 pontos disponíveis para este tipo de tratamento e segundo a Prefeitura de Cuiabá, a porcentagem de sucesso chega a 50% dos inscritos.

Na primeira reunião, o indivíduo passa pela avaliação individual, na qual são coletados dados como peso, medidas, pressão arterial e o histórico da relação dele com o cigarro.

Geralmente, explica o coordenador do programa no Município, o enfermeiro Carlos Alexandre Rodrigues da Silva, trata-se de um relacionamento longo, que envolve tentativas solitárias de rompimento sem sucesso.

Primeira parte da reunião, realizada no Cidade Verde, é destinada as apresentações (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Em seguida, é a vez de se acomodar na cadeira para participar da reunião.

Cada um dos pacientes se apresenta. Normalmente, o nome vem acompanhado de um número, que representa a quantidade de dias ou meses sem fumar.

Um contato inicial otimista para quem quer abandonar o vício. Maria José disse estar há 2 anos entre idas e vindas, mas que desta vez será definitivo; Paulo Henrique está 9 meses sem fumar; Franciele há 2 meses; Conceição há 8 e Cleonice desde quarta-feira passada.

O Livre participou de um dos encontros e na ocasião, cerca de 12 pessoas em fases diferentes do processo compunham o grupo.

Segundo o coordenador do programa, a equipe de apoio é multidisciplinar e apresentam as soluções conforme são solicitadas. Vão desde orientação nutricional e psicológica, até a assistência médica com prescrição medicamentosa.

“Trabalhamos com uma medicação de apoio que contribuir com a decisão do paciente de parar de fumar. São formuladas com nicotina e ansiolíticos, que amenizam os efeitos da ausência do cigarro”.

Silva deixa bem claro que o serviço é oferecido apenas para quem quer parar e vai a unidade buscar auxílio. Ele justifica que qualquer imposição, iria ferir o direito individual das pessoas sobre suas escolhas.

“Aqui trabalhamos com a terapia cognitiva comportamental. Levamos a pessoa a se avaliar e entender os motivos de querer sua mudança de hábito. Não trabalhamos como outras instituições, muitas vezes baseadas em diretrizes religiosas”.

Não existe em nenhum lugar de Cuiabá um tratamento parecido em toda rede particular, afirma Silva. Quando questionado sobre o valor de mercado, ele assegura que é difícil calcular porque inclui o atendimento de pneumologistas, enfermeiros, educadores físicos, psicólogos, médicos, agentes de saúde, assistentes sociais, exames e medicações.

Acompanhado é melhor que só

Servidor público, Edmilson Almeida está há 167 dias sem fumar (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Edmilson de Pinho Almeida,48, tentou várias vezes parar de fumar. Todas as vezes a iniciativa era solitária e não resistia a primeira demanda da vida social seja barzinho ou festa.

“Apenas eu fumava em casa e minha família sempre quis que eu parasse. Minha mãe fumou no passado, mas teve que parar após 3 infartes. O médico disse para ela: ou para, ou morre”.

Um dia, Edmilson entrou no escritório para dar suporte a um computador e uma das pessoas falou que o cheiro de cigarro estava muito forte. Depois, ela sugeriu que procurasse ajuda para parar, indicando o grupo.

Hoje, Edmilson conta os dias de vitória. São 167 sem cigarro, alcançados com apoio dos amigos do grupo, dos profissionais e de adesivos de nicotina.

“Comecei com uma concentração maior de nicotina e agora, estou na mais fraca. A expectativa é não usar mais daqui a poucas semanas”.

Ciclo familiar do vício

Maria José viu mãe e pai morrer em decorrência do tabagismo (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Maria José Oliveira, 68, perdeu os pais por causa do cigarro. Ela conta que até o último dia de lucidez, o pai fumou. Ele tinha câncer de pulmão e quando se esgotaram os recursos médicos, o pneumologista disse: “Dê o que ele pedir. Já não tem mais jeito”.

A, hoje, ex-fumante diz que lembra claramente do pai acordando para tomar café e pedindo um cigarro. “Ele estava muito doente, mas não conseguia parar. Minha irmã falou que não tinha, mas ele não acreditou. Disse onde estava carteira, sobre a geladeira”.

Este foram os últimos momentos dele. Depois, foi para o hospital e morreu entubado. “Não sai da minha cabeça a morte do meu pai”.

Já a mãe de Maria José, sofreu um acidente, mas estava com o pulmão danificado por causa do vício. Resultado: não resistiu.

“As situações me fizeram querer mudar e parar. Já recai várias vezes, mas agora, será definitivo”.

Maria aprendeu a fumar dentro de casa e aumentou a quantidade ao se casar. O marido também era fumante.

Ela chegou a fumar 4 carteiras de cigarro por dia. “Eu não quero morrer como meu pai”.

Como funciona

O tratamento é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que paga todos os medicamentos. O governo começou oferecê-lo em 2011 e atualmente, são 25 grupos distribuídos na Capital mato-grossense.

No ano passado, 1.448 pessoas foram inscritas e 50% delas conseguiu deixar o vício.

Grupos de Cuiabá:

Interessados no tratamento devem procurar as unidades Saúde da Família nos bairros: Pedra 90 I, Baú, Areão, Jardim Fortaleza, CPA 3, Despraiado, Jardim Vitória, Grande Terceiro, Praeiro, Ribeirão da Ponte, Pedregal, Dr. Fábio, Pedra 90 IV, Tijucal, Planalto, Campo Velho, Santa Laura, Renascer, Quilombo, Jardim Araça, Pico do Amor, Jardim Vitória 3, Serra Dourada, Santa Amália, Parque Cuiabá, Cidade Verde e Residencial Coxipó 1.