15 de abril de 2026 00:02
BrasilCidadesDestaques

Forma como presídios são geridos pode ser mais letal que a covid-19, aponta estudo

Foto de Redação
Redação

Estudo de pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Universidade de São Paulo (USP) publicado na quinta (30), na revista “Cadernos Ibero-Americanos de Direito Sanitário”, apresenta uma reveladora relação entre as mortes carcerárias por doenças e o agravo das condições dos presídios durante a pandemia de Covid-19.

A partir da análise de 27 casos de pedido de prisão domiciliar feitos pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo para pessoas do grupo de risco, em 2020, os estudiosos perceberam um descompasso entre a justiça criminal e a magnitude da crise sanitária. A conclusão foi que as mortes decorrem das próprias condições de funcionamento das prisões, sendo que este cenário se agravou durante a pandemia.

De acordo com os autores Fábio Mallart, pós-doutorando do Instituto de Medicina Social da UERJ e Paula Pagliari de Braud, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia na Universidade de São Paulo, as prisões produzem mortes de diversas formas e não apenas de pessoas que já possuem doenças anteriores ao encarceramento.

No caso da Covid-19, a prisão – superlotada e sem quaisquer condições sanitárias de atender exigências de distanciamento e higiene impostas pela pandemia – se tornou um local propício para a propagação do vírus.

LEIA TAMBÉM

Mesmo diante da crise sanitária, as condições carcerárias permaneciam insalubres, como superlotações em locais sem ventilação, úmidos e com pouca luminosidade, infiltrações, umidade, racionamento de água potável, ausência de medicamentos e de profissionais de saúde e com infestação de insetos e roedores. Isso cria, reforçam os autores, um sistema de morte que se retroalimenta e, pelo contrário de ressocializar os indivíduos, agrava os contextos de vulnerabilidade e violência.

“Há relações de continuidade entre encarceramento e morte. Isso se dá a partir de diferentes tecnologias de produção da morte, seja porque os antecedentes criminais operam como um critério de extermínio para policiais fardados ou encapuzados que atuam nas periferias urbanas, seja porque as condições nefastas das prisões contribuem para a produção e disseminação de distintas doenças, como, por exemplo, tuberculose, beribéri, entre outras”, pontuam os autores.

O artigo demonstra também como, em nome de um suposto enfrentamento da pandemia, no Rio de Janeiro, a suspensão de atendimentos médicos eletivos e do fornecimento de medicamentos para outras enfermidades agravou as mortes decorrentes de outras enfermidades.

“Com os pedidos de prisão domiciliar em mãos, pudemos analisar o processamento, as manifestações e as decisões que mantiveram essas pessoas presas, apesar de sua condição de risco de morte por Covid-19”. Além disso, a política de contenção sanitária nos presídios também impactou na produção da pesquisa, dada a dificuldade de acesso aos dados e informações referentes ao sistema penal, característica que foi reforçada em tempos pandêmicos.

“O que não imaginávamos, e esse é um ponto importante do texto, é que a maneira como a crise sanitária foi gerida pelos órgãos penitenciários pode ter sido mais letal do que o próprio vírus. Ademais, compreender a prisão, e a morte que ela produz, passa por entender a forma como o Sistema de Justiça Criminal mantém as pessoas presas”, finalizam os autores.

(Da Agência Bori)

Notícias em primeira mão

Junte-se à nossa comunidade exclusiva no Whatsapp e seja notificado sobre os furos de reportagem e análises profundas antes de todos.

Últimas Notícias

Justiça

Presidente de ONG é absolvida por desacato contra o Ministério Público do Estado de Mato Grosso

Turma Recursal do TJMT entende que a insatisfação com os serviços públicos não é passível de criminalização
Crônicas Policiais

Homem é preso após ameaçar esposa com faca em Guarantã do Norte

Suspeito foi detido em flagrante pela Polícia Militar e encaminhado à delegacia após ocorrência registrada dentro de residência familiar
Economia

Exportações de carne bovina de MT crescem 74% e superam US$ 1,1 bilhão no 1º trimestre

China segue como principal destino, enquanto novos mercados ampliam participação no comércio internacional da proteína mato-grossense
Crônicas Policiais

PM apreende 229 kg de drogas em carro suspeito em Pontes e Lacerda

Veículo foi abordado durante patrulhamento e motorista acabou preso em flagrante por tráfico