Para muitas gerações, o castigo físico foi visto como uma forma aceitável de disciplina, uma prática enraizada em tradições legais, religiosas e culturais de muitas sociedades. No entanto, um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) enfatiza o que muitos especialistas já falam: castigo corporal em crianças acarreta múltiplos riscos, inclusive para a sociedade.
O estudo, intitulado “O castigo corporal de crianças: o impacto na saúde pública”, foi coordenado pela Unidade de Prevenção da Violência da OMS. A pesquisa se baseou em uma análise de dados existentes de pesquisas anteriores, globais e nacionais.
Segundo os dados coletados, cerca de 1,2 bilhão de crianças entre 0 e 18 anos são submetidas a essa prática anualmente. Desse total, aproximadamente 17% sofrem formas severas de punição, como serem atingidas na cabeça, rosto ou ouvidos, ou serem agredidas de forma forte e repetida.
Como o castigo corporal prejudica o desenvolvimento cognitivo
Um estudo em 49 países de baixa e média renda, citado pela OMS, mostrou que crianças expostas a castigos corporais têm cerca de 24% menos probabilidade de ter um desenvolvimento cognitivo adequado do que aquelas que não sofrem punições físicas. Os impactos incluem hiperatividade, vocabulário mais pobre e habilidades cognitivas reduzidas.
A pesquisa de neuroimagem sugere que punições físicas severas podem reduzir o volume de massa cinzenta no cérebro em áreas ligadas ao desempenho cognitivo.
Outra revisão de 69 estudos em 9 países mostrou que o comportamento das crianças piora com o tempo quando elas são submetidas a castigos físicos, independentemente de outros fatores externos.
Quais os efeitos a longo prazo?
As consequências do castigo corporal não se limitam à infância. Os impactos negativos continuam na vida adulta.
1. Danos físicos e mentais
Apunição corporal pode causar danos físicos diretos e indiretos, ativando respostas de estresse que levam a mudanças na estrutura e função cerebral. Além disso, a prática está fortemente associada a problemas de saúde mental, incluindo ansiedade, depressão, baixa autoestima e instabilidade emocional, que podem persistir na vida adulta.
2. Aumento da agressão
O castigo corporal aumenta a probabilidade de agressão em crianças. Elas são mais propensas a aprovar o uso da violência em suas relações, praticar bullying, usar métodos violentos para resolver conflitos e ser agressivas com os próprios pais.
3. Relações familiares prejudicadas
A punição física pode danificar severamente a qualidade da relação entre pais e filhos, com as crianças relatando sentir-se magoadas, com raiva e com medo, o que leva a uma relação de evitação. Esses efeitos podem se estender para a vida adulta.
4. Pior desempenho educacional
O castigo físico está ligado a menores conquistas acadêmicas, com estudos mostrando que crianças que o sofrem têm desempenho inferior em matemática, leitura e soletração. A prática na escola cria um ambiente de intimidação que dificulta o aprendizado e pode levar os alunos a odiarem os professores ou abandonarem a escola.
5. Custo social e econômico
As consequências se somam em um custo social considerável, incluindo um aumento da carga sobre os serviços de saúde, proteção à criança e justiça criminal. A OMS estima que o custo da violência contra crianças, incluindo o castigo corporal, pode custar entre 2% e 5% do PIB global anualmente.
O relatório conclui que, embora as leis que proíbem o castigo corporal sejam necessárias, elas não são suficientes para eliminá-lo. O esforço para acabar com essa prática deve ser acompanhado por campanhas de conscientização e apoio a pais e educadores, incentivando abordagens disciplinares positivas e não violentas.




