Rompimento da barragem: “Era como se um grande botijão estourasse!”, diz testemunha

Duas pessoas ficaram feridas e, até agora, empresa não se manifestou sobre o caso

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

José Simão de Oliveira, 57, estava dando comida para o gado quando escutou uma forte explosão vinda da área de mineração.

Uma das paredes da represa de rejeitos, que tem 15 metros de altura e volume armazenado de mais de 582 mil metros cúbicos, cedeu e um caldo grosso, como se fosse lava de vulcão, começou a vazar.

José mora a menos de um quilômetro de onde a empresa VM Mineração, de Nossa Senhora do Livramento (40 km de Cuiabá), atua na extração de ouro em Mato Grosso.

“Era como se um grande botijão estourasse. Estava de carro e só pensei em correr até em casa e pegar minha irmã. Depois fomos para um ponto distante e alto. Lá, encontramos os outros vizinhos”.

Segundo o morador de um dos sítios que compõem a comunidade do Brejal, todos estavam muito nervosos e não conseguiam deixar de correlacionar a situação com a de Brumadinho, tomada por uma tragédia em janeiro deste ano.

O grupo esperou cerca de 45 minutos. Então, a lama parou de se movimentar e eles voltaram para casa por volta das 8 horas.

Imagens da represa de Nossa Senhora do Livramento na tarde de hoje, após a explosão (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Em seguida, foi uma correria e, algumas horas depois, dois funcionários deram entrada no hospital do município, vítimas de acidente de trabalho. Um deles estava em um caminhão e disse à equipe de saúde que viu o derrame de lama e correu como pôde.

O outro estava em um trator e, mesmo correndo, acabou atingido pela lama. Ele chegou todo sujo do pescoço para baixo e sem as roupas, que ficaram presas nos rejeitos.

Nenhum deles teve ferimentos graves e foram liberados poucas horas depois de receber atendimento.

“Eles choravam muito e o que ficou preso na lama disse que até os documentos ficaram para trás. Uma funcionária da empresa que veio aqui e trouxe cópias”.

Animais mortos

O prefeito de Nossa Senhora do Livramento, Silmar de Souza Gonçalves, disse que até agora não tem informações precisas sobre o incidente.

“Cada hora chega uma história, mas temos a certeza de que não houve feridos graves e nem mortes. Então, pelos contatos de fiscais e técnicos, sabemos que a situação está sob controle”, afirmou ao LIVRE.

Segundo Gonçalves, a área de impacto ambiental era utilizada para pasto e um morador se queixou da morte de 25 animais.

Ele lembra que a comunidade não tem um pólo e é formada por sítios que ficam a uma distância segura do local da represa, cujas paredes têm cerca de 15 metros de altura.

“Até onde sabemos, todas as licenças estão em dia. Mas isto cabe a Sema e à ANM, que estão no local”.

Atualmente, conforme o prefeito, existem cerca de 30 barragens na cidade e todas são de empresas que trabalham com a extração de ouro.

Todos os meses os impostos arrecadados com a atividade chegam a R$ 200 mil.

Movimentação

Enquanto a equipe do LIVRE estava no local, vários carros de fiscais da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) e da Polícia Civil passaram pela cidade.

Os peritos informaram que iriam verificar se o rompimento da barragem tinha atingido um reservatório de água potável, que está dentro da propriedade da VM Minerações.

Outro lado

O LIVRE entrou em contato com a empresa VM Mineração. Um atendente informou que os diretores já tinham ido embora e apenas eles dariam um posicionamento sobre o rompimento da barragem.

O espaço permanece aberto à manifestação.

A Sema encaminhou uma nota oficial às 18h.

Leia nota na íntegra:

A Secretaria de Estado Meio Ambiente (Sema) informa que, por meio das coordenadorias de Mineração e Fiscalização de Empreendimentos, identificou que o rompimento de barragem de mineração em Nossa Senhora do Livramento não atingiu drenagens, corpos hídricos ou áreas de preservação permanente (vegetação nativa). A lâmina de aproximadamente 10cm percorreu apenas áreas já antropizadas: áreas destinadas à pastagem ou de uso do próprio empreendimento.
A empresa VM Mineração foi notificada a paralisar todas as atividades e apresentar relatório circunstanciado apresentando causa e efeito do ocorrido e detalhamento das ações emergenciais em curso para correção total do problema. O empreendimento possui licença de operação válida até julho de 2021 e atua na extração de ouro, sendo que a barragem onde ocorreu o rompimento é destinada a rejeito composto de material silto areno, com cerca de 80% sólido e 20% de líquido. O rejeito da barragem não possui contaminantes.
Também participaram das inspeções, Energisa, Defesa Civil do Estado de Mato Grosso, Agência Nacional de Mineração, Delegacia Especializada de Meio Ambiente (Dema), Prefeitura de Nossa Senhora do Livramento e equipe de profissionais da mineradora. A Sema se coloca à disposição da sociedade mato-grossense e reforça seu compromisso com a conservação do meio ambiente e desenvolvimento sustentável do Estado.

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