Quanto menor, mais controle: saiba como é a quarentena no interior de MT

Os prefeitos sofrem pressão direta da população e, em algumas cidades, não é possível entrar sem a promessa de cumprir um período de isolamento

(Foto: Reprodução)

De toque de recolher e estradas bloqueadas a uma vida que voltou ao normal da noite para o dia, diante de um simples decreto. O período de isolamento social para evitar a proliferação do novo coronavírus, no interior de Mato Grosso, segue um ritmo próprio.

No início da semana passada, a Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM) publicou uma portaria com 20 recomendações aos prefeitos. E grande parte delas, até chegou a ser adotada por um período.

Mas em alguns lugares, o decreto do governador Mauro Mendes (DEM) que “afrouxou” as regras da quarentena no Estado – agora já suspenso por decisão da Justiça – impôs aos prefeitos uma pressão difícil de aguentar.

“Nas cidades do interior, a população tem um contato pessoal com o prefeito muito grande e a pressão sobre ele acaba sendo muito forte. Se não tiver o aval do governo estadual e federal, fica muito complicado ele [o prefeito] manter alguma restrição mais forte. Um ou outro acaba cedendo a essa pressão”.

A avaliação é do promotor de Justiça Felipe Augusto Ribeiro de Oliveira, que atua em Comodoro, cidade com aproximadamente 18 mil habitantes e distante 600 km de Cuiabá.

Segundo ele, por lá, a quarentena começou com o comércio fechado – com exceção de estabelecimentos como farmácias, mercados e postos de combustível – e regras de distanciamento entre as pessoas que precisassem circular por esses locais.

Mas a vida voltou praticamente ao normal há cerca de uma semana, quando o presidente da República, Jair Bolsonaro, passou a defender de forma mais enfática a retomada da economia do país e o governador Mauro Mendes assinou o Decreto 425/2020.

“Ficou praticamente inconcebível o prefeito tentar manter a restrição”, disse o promotor.

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Conforme Oliveira, em Comodoro ainda há um horário mais limitado para o funcionamento do comércio, apenas 5 horas diárias, “mas no período em que está aberto, é impressionante: população na rua, pessoas consumindo, se encontrando”, ele relata.

“A realidade do interior é que os municípios seguem muito a linha dos governos estadual e federal”, ele completa.

Mais de 920 quilômetros distante de onde está o promotor, Guarantã do Norte – cidade que tem 32 mil habitantes e fica a 710 km de Cuiabá – viveu uma situação não muito diferente.

Segundo relata a professora do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) Krishna Rosa, a proibição ao comércio por lá não se sustentou mais que dois dias. O decreto da prefeitura determinando o fechamento foi publicado na segunda-feira, dia 23, e derrubado na quarta, dia 25.

A explicação que circula pela cidade é que a autorização para reabertura considerou o fato de a maioria das empresas ser familiar e representar a única fonte de renda dessas pessoas.

Desde então, alguns escolheram manter as portas fechadas, outros não.

Em Guarantã, continuam valendo só as determinações do governo do Estado de interrupção no transporte intermunicipal – “para sair da cidade, ou usa veículo próprio ou pega carona com caminhoneiro”, diz a professora – e o fechamento das escolas.

“Não tem pânico nas ruas. As pessoas ainda se visitam, bem menos, mas se visitam. Também tem muita gente que continua em casa, fazendo home office. Os supermercados não lotam, mas algumas coisas já estão em falta como ovos. No mais, tudo parece quase a mesma coisa”, ela diz.

Quanto menor, mais controle

Enquanto isso, nas cidades com menos habitantes, a realidade parece ser outra. Em Ponte Branca – que tem 1,7 mil moradores e fica a 500 km de Cuiabá –, praticamente não existe mais aglomeração de pessoas pelas ruas.

É o que afirma Rui Ojeda, que está há aproximadamente um mês na cidade. Segundo ele, o comércio local está praticamente todo fechado, com apenas mercados e mercearias autorizados a funcionar.

“E mesmo assim, o atendimento não é normal, porque você não pode entrar na loja. Pega os produtos no balcão”, ele conta.

Além disso, a prefeitura instalou um sistema de controle nas entradas da cidade e tem “rastreado” todos que chegam no município. Um mecanismo semelhante ao adotado pela Prefeitura de Rio Branco, que tem 5 mil habitantes e fica a 330 km de Cuiabá.

Por lá, até a última sexta-feira (27), 12 pessoas estavam mantidas em isolamento por terem chegado na cidade, vindas de outros locais, há pouco tempo.

O comércio não está impedido de funcionar, mas o fluxo de pessoas reduziu ao ponto de os próprios empresários decidirem baixar as portas. Quem continua trabalhando, oferece aos clientes a possibilidade de higienizar as mãos antes de entrar e tocar nos produtos.

E nada fica aberto depois das 21 horas. A Prefeitura instituiu um toque de recolher.

Por outro lado, o poder municipal também tem distribuído detergente e sabão à população mais carente e feito constantes campanhas de conscientização.

Casos suspeitos

De acordo com o boletim da Secretaria de Estado de Saúde (SES) sobre os casos de covid-19 em Mato Grosso divulgado na terça-feira (31), 263 pessoas apresentaram sintomas respiratórios agudos e 25 delas já foram diagnosticadas com a doença causada pelo coronavírus.

Os casos confirmados estão concentrados em Cuiabá (18), Rondonópolis (4), Várzea Grande (2) e Nova Monte Verde (1).

Entre as pessoas que tem suspeita de ter a doença, 48 estão internadas, sendo 19 em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e o 29 em leitos de enfermaria.

Ainda de acordo com a SES, até a última sexta-feira (27), o governo do Estado já havia testado 352 pessoas para a covid-19 e 346 testes apresentaram um resultado negativo para a doença.

A Pasta não tem divulgado em que cidade estão as pessoas com suspeita de terem sido infectadas pelo coronavírus. E ao menos em Guarantã do Norte, isso já se transformou em um problema.

Segundo a professora Krishna Rosa, já circulou pela cidade o boato de que ao menos quatro moradores tinham contraído a doença e a “fofoca” citando nomes já envolveu até advogados, em defesa dos “acusados”.

“Coisa de cidade pequena”, ela ressalta.

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