Pandemia: proibir venda de bebidas alcoólicas, mas manter igrejas abertas funciona?

Há quem diga que as igrejas respeitam as regras de biossegurança. E também quem argumente que, se for pensar assim, escolas poderiam abrir

(Foto: Pixabay)

Algumas prefeituras em Mato Grosso adotaram como estratégia de combate à pandemia do novo coronavírus a proibição da venda de bebidas alcoólicas. Mas, em detrimento disso,  atividades que formam aglomeração continuam liberadas, como os cultos religiosos.

A pergunta que fica é: do ponto de vista da contaminação, qual a diferença entre reunir pessoas em um bar ou em casa das reuniões que ocorrem dentro de igrejas?

Professora da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat), epidemiologista e virologista, Ana Cláudia Pereira Trettel avalia que qualquer tipo de aglomeração – principalmente neste período de auge da pandemia – representa um risco.

Entendo que qualquer atividade que gere aglomeração de pessoas deva ser proibida. Neste momento, enquanto a gente não sair deste cenário de alto risco em que Mato Grosso está, academias, igrejas, ou qualquer outra atividade que reúna pessoas deveria ser proibida. Não pode fechar uma coisa para compensar outra“, argumenta.

“Se a gente parar para pensar, a quantidade de pessoas dentro de uma igreja é maior que dentro de uma sala de aula”, ela continua, lembrando que escolas e universidades, públicas e privadas estão fechadas desde março.

Professora Ana Cláudia Trettel defende que todas as atividades que causem aglomeração permaneçam fechadas (Foto: arquivo pessoal)

Para a pesquisadora, o que tem pesado nas decisões dos gestores municipais é a ideologia política e religiosa que, muitas vezes, pode ser traduzida em moralismo e até mesmo em votos. Afinal, as eleições de 2020 foram adiadas, mas ainda serão neste ano.

“As questões ideológica e religiosa estão influenciando os decretos. Cada pessoa tem sua cultura instituída e sua diversidade de informações. Como estamos tendo uma diversidade de informações sendo postas pelo governo federal e estadual, o municipal vai ser influenciado e seguir a vertente que ele acredita mais”, ela pondera.

Igrejas são importantes, bares também!

Prefeito de Lucas do Rio Verde, Luiz Binotti (PSD) é um defensor da manutenção das igrejas abertas. No último domingo (12), ele decretou a proibição por 15 dias da venda de bebidas alcoólicas na cidade, mas não mandou fechar as portas das igrejas.

“Vejo que precisamos cuidar do lado espiritual das pessoas e, se não fizermos isso, daqui alguns dias vai aumentar o número de casos de depressão”, ele disse ao LIVRE, defendendo o Decreto 10.282/20, do governo federal, que reconhece cultos religiosos como atividades essenciais.

Município de Lucas do Rio Verde, localizado a 330 quilômetros de Cuiabá (Foto: Ascom)

“Aqui, as igrejas ficaram fechadas por um período, mas foram liberadas. Vejo que poucas pessoas estão indo. E as igrejas estão seguindo os protocolos”, ele completou.

Questionado se fechar bares e manter igrejas abertas não soa como moralismo, o prefeito admitiu: “são todas medidas que, no fundo, ninguém sabe ao certo quais são os efeitos”.

Mas Binotti se valeu do bom humor para declarar que, mesmo com todos os bares e distribuidoras fechadas em Lucas do Rio Verde, a cidade mais próxima esta a 60 quilômetros de distância, portanto, ele ainda “corre o risco” de alguém se aventurar a comprar bebida na cidade vizinha.

“Afinal, cerveja também é um forma de terapia”, concluiu.

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1 COMENTÁRIO

  1. Vinícius, se me permite, gostaria de responder a sua pergunta no segundo parágrafo do texto. A diferença entre reuniões em casa/bares e de reuniões de cultos religiosos é basicamente a palavra que rege todo o artigo: a aglomeração. A aglomeração, na sua definição gramatical e prática, quer dizer a reunião de pessoas de forma EXCESSIVA em um ambiente. Veja, quando nos reunimos em bares/em casa com amigos, na maioria das vezes, o espaço não é fator de impedimento para que sempre chegue mais um, ainda mais em um encontro regado à álcool (mesmo que não seja consumido excessivamente) onde a formalidade é deixada de lado e os cumprimentos calorosos são corriqueiros (aperto de mãos, abraços etc). Dessa forma, não adianta colocar espaçamento social como regra, já que na primeira hora do encontro todos se esquecerão, as máscaras estarão por baixo dos queixos e todos estarão dando risadas e se abraçando. Nos cultos religiosos que respeitam o espaçamento social e todas as medidas sanitárias cabíveis (pelo menos os que eu frequento assim o fazem) não existe contato físico, não existe aglomeração, já que os bancos foram espaçados e a igreja comporta menor quantidade de pessoas que a sua capacidade usual (nem chegamos perto de falar da capacidade máxima) e ninguém está lá para se abraçar, tomar uma gelada e contar novidades, mas simplesmente para, com sua máscara devidamente colocada, realizar seu ato de fé em oração e silêncio. Visto que essas duas realidades são nitidamente diferentes, acredito que a resposta seja bem clara: em um culto religioso sério e comprometido com a segurança sanitária não haverá aglomeração como em um bar, e você não precisa frequentar diariamente uma celebração religiosa para perceber a razoabilidade dessa afirmação. Mas você poderia dizer: “e os cultos lotados onde todos se encostam e parece mais a feira no sábado de manhã?” eu te respondo que eles estão errados, tão errados quanto as festas clandestinas regadas a álcool. E sendo assim, te convido a participar de uma missa na minha comunidade, onde todas as regras são rigidamente cumpridas, onde as pessoas encontram verdadeiro alívio para a tensão da exaustiva quarentena que vivemos e onde a aglomeração passa longe do silêncio e da calmaria de uma comunidade comprometida em respeitar as regras e servir a Deus.

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