O impacto na ciência de Brasil e Portugal: a língua não nos serve de desculpa

A explicação dos pesquisadores brasileiros de Humanas a respeito do idioma parece ser um argumento que não se sustenta

Lisboa (Wikimedia Commons)

Olá pessoal, estive recentemente em um congresso de editores de revistas nacionais, em Fortaleza (“ABEC Meeting 2019”), para dar uma palestra. Mostrei os números que vocês já estão “carecas de saber”, sobre o baixo impacto da ciência nacional como um todo e, em especial, de algumas áreas do saber.

Dentre as áreas em que detalhei os problemas de impacto estão a Sociologia, a Saúde Pública e a pesquisa em Educação. Mostrei ainda alguns dados recentes (ainda não publicados) sobre a área do Direito.

Em meus estudos recentes, fiz comparações dos impactos dos artigos publicados nas melhores revistas nacionais com os publicados nos melhores periódicos do exterior em cada área que mencionei acima. Vamos resumir os dados que obtive até o momento.

Para a Sociologia, verifiquei que há uma diferença média de 16 vezes de impacto entre as revistas do Brasil e as “top 5” dos Estados Unidos e Reino Unido (link 1).

Na área de Saúde Pública, a comparação foi com revistas da Europa e observei uma diferença média de 3 vezes (link 2). No caso da Pesquisa em Educação, fiz as análises de duas formas diferentes (detalhes no link 3 e link 4), chegando a conclusões muito semelhantes: diferenças de impacto de 19 vezes ou de 14 vezes.

Finalmente, para a área do Direito, comparei o impacto das sete revistas nacionais que estão na plataforma Scimago com as “top 5” do mundo. O impacto médio das revistas brasileiras resultou em CPP=0,15 (CPP, citações por publicação) e o das internacionais em CPP=5,1 para publicações do triênio 2016 a 2018. O resultado indicou que nossas revistas de Direito apresentam 34 vezes menos impacto que as melhores do exterior.

Ouvi de muitos na conferência de Fortaleza que o nosso grande problema seria que os estudos nessas áreas de Humanas são focados em problemas regionais, logo, não gerariam interesse mundial. Além disso, publicam majoritariamente artigos em português. Haveria uma tradição nas Humanas de se publicar em nosso idioma, o que faria nossa pesquisa ter pouco alcance global.

Mas se nosso problema é o idioma, seria então conveniente fazer comparações com Portugal, certo? Afinal, eles falam a mesma língua que nós, apesar de as vezes não entendermos tudo por causa do sotaque!

Resolvi então olhar para quatro áreas das Humanas, de acordo com a classificação da plataforma Scimago. Realizei a análise tradicional de impacto, que todos aqui já conhecem – o CPP. Entretanto, resolvi introduzir um novo indicador, que é criação minha: o Rank-Score. Ele dá uma nota de 0 a 10 de acordo com a posição num ranking de países.

Um exemplo de como funciona: Portugal está em 23º num ranking de impacto de 44 países. Seu Rank-Score é: – [(23/44 – 1) x 10] = 4,77. Resultado, nota 4,8. Mas se Portugal estivesse em 2º lugar (entre 44 países) o Rank-Score seria 9,6 (para o 1º lugar damos 10,0). Se fosse 23º lugar entre 30 países o Rank-Score resultaria em 3,0.

Vamos aos resultados:

Artes e Humanidades

Brasil: 39º lugar em impacto entre 44 países com ao menos 500 publicações em 2017. Rank-score=1,1. CPP da Coreia do Sul (1º lugar) = 3,90. CPP do Brasil = 0,71 (18% do impacto do 1º lugar). 12º lugar em quantidade, com 1880 publicações.

Portugal: 834 publicações. 23º lugar em impacto, Rank-score=4,8. CPP=1.45 (37% do impacto do 1º lugar).

Ciências Sociais

Brasil: 46º lugar em impacto entre 46 países com ao menos 1000 publicações em 2017 (último lugar). Rank-score=zero. CPP da Holanda (1º lugar) = 2,81. CPP do Brasil = 0,75 (27% do impacto do 1º lugar). 13º lugar em quantidade, com 5588 publicações.

Portugal: 2340 publicações. 25º lugar em impacto, Rank-score=4,6. CPP=1.51 (54% do impacto do 1º lugar).

Administração, Contabilidade e Negócios

Brasil: 46º lugar em impacto entre 48 países com ao menos 250 publicações em 2017 (antepenúltimo lugar). Rank-score=0,4. CPP da Dinamarca (1º lugar) = 3,75. CPP do Brasil = 1,19 (32% do impacto do 1º lugar). 10º lugar em quantidade, com 2238 publicações

Portugal: 898 publicações. 20º lugar em impacto. Rank-score=5,8. CPP=2,53 (67% do impacto do 1º lugar).

Economia e Finanças

Brasil: 40º lugar em impacto entre 42 países com ao menos 250 publicações em 2017; (antepenúltimo lugar). Rank-score=0,5. CPP da Dinamarca (1º lugar) = 3,18. CPP do Brasil = 0,99 (31% do impacto do 1º lugar). 18º lugar em quantidade, com 695 publicações.

Portugal: 406 publicações. 18º lugar em impacto. Rank-score=5,7. CPP=1,91 (60% do impacto do 1º lugar).

Como se pode verificar, ficamos atrás de Portugal nas quatro áreas das Humanas. O Rank-Score médio do Brasil (nas 4 áreas) foi 0,5 e do Portugal foi 5,2. Essa nota portuguesa não é uma “Brastemp”, mas é um resultado dez vezes maior que o do Brasil.

Com relação ao percentual de impacto do 1º lugar, o valor médio do Brasil foi de 27%; no caso de Portugal foi 54,5%. Novamente, a nação portuguesa não é a “8ª maravilha do mundo” em impacto, mas é um resultado substancialmente melhor que o brasileiro. Vejamos agora seis sub-áreas, que fazem parte das áreas das Humanas:

História

Brasil: 469 publicações em 2017. 12º lugar em quantidade e 43º em impacto (de 44 países com ao menos 100 artigos publicados, ou seja, penúltimo lugar); 1º lugar: CPP=1,27. Rank-score=0,2. CPP=0,19.

Portugal: 228 publicações, 13º lugar em impacto, Rank-score=7,0. CPP=0,65.

Linguagem e Linguística

Brasil: 477 publicações em 2017. 13º lugar em quantidade, 41º em impacto (de 43 países com ao menos 100 artigo, ou seja, antepenúltimo lugar); 1º lugar: CPP=2,79. Rank-score=0,5. CPP=0,30.

Portugal: 106 publicações, 26º lugar em impacto, Rank-score=3,9. CPP=0,98.

Antropologia

Brasil: 289 publicações em 2017. 9º lugar em quantidade, 24º em impacto (de 26 países com ao menos 100 artigos, ou seja, antepenúltimo lugar); 1º lugar: CPP=1,97. Rank-score=0,8. CPP=0,57.

Portugal: 109 publicações, 8º lugar em impacto, Rank-score=6,9. CPP=1,58.

Direito

Brasil: 366 publicações. 14º lugar em quantidade, 40º em impacto (de 41 países com pelo menos 100 artigos, ou seja, penúltimo lugar); 1º lugar: CPP=3,03. Rank-score=0,2. CPP=0,46.

Portugal: 136 publicações. 10º lugar em impacto. Rank-score=7,6. CPP=1,80.

Educação

Brasil: 1489 publicações. 9º lugar em quantidade, último lugar em impacto (de 47 países com ao menos 200 artigos; 1º lugar: CPP=2,32). Rank-score=zero. CPP=0,51.

Portugal: 594 publicações. 34º lugar em impacto. Rank-score=2,8. CPP=1,06.

Filosofia

Brasil: 279 publicações. 12º lugar em quantidade, 24º em impacto (de 35 países com pelo menos 100 artigos; 1º lugar: CPP=1,48). Rank-score=3,1. CPP=0,63.

Portugal: 101 publicações. 26º lugar em impacto. Rank-score=2,6. CPP=0,57.

Como pudemos verificar, o Brasil ficou atrás de Portugal em 5 das 6 sub-áreas de Humanas que avaliamos. Filosofia foi o único caso que tivemos um impacto maior (Rank-score 3,1 versus 2,6) – mesmo assim, com uma pequena diferença.

Portugal também apresentou um resultado ruim em Educação (Rank-score 2,8), porém ainda assim melhor que o Brasil, que levou ZERO em Rank-score. O valor médio do Rank-score brasileiro (n=6) foi de 0,8 e o de Portugal de 5,1.

Analisamos também o percentual de impacto em relação ao 1º lugar. Como podemos verificar na tabela abaixo, ficamos na frente de Portugal apenas em Filosofia. Chama a atenção o excelente resultado dos portugueses em Antropologia (80% do impacto do 1º lugar). O valor médio das seis áreas deu 22,4% para o Brasil e 51,6% para Portugal.

Deixo aos leitores a reflexão sobre os números aqui apresentados. Como podem ver, a explicação dos pesquisadores brasileiros de Humanas a respeito do idioma parece ser um argumento que não se sustenta. Se fosse assim, os resultados de Portugal também seriam pífios, como os do Brasil.

Não sei se os portugueses publicam mais em inglês ou em nosso idioma (é algo para ser ainda investigado). Mas o fato concreto é que o impacto dos trabalhos de lá são muito superiores aos do Brasil.

É quase certo que o problema não é a Lusofonia (a língua portuguesa).

Será que as aulinhas de inglês são mais efetivas em Portugal para os intelectuais da universidade?  Falando agora com seriedade: um trabalho ruim, fruto de uma pesquisa ruim, mesmo que tenha sido traduzida para o inglês na hora de publicar, não terá sucesso de impacto. Isso posso garantir.

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Link 1: https://olivre.com.br/o-baixo-impacto-das-publicacoes-brasileiras-de-sociologia

Link 2: https://olivre.com.br/o-limitado-impacto-da-producao-cientifica-brasileira-em-saude-publica

Link 3: https://olivre.com.br/no-brasil-80-das-pesquisas-em-educacao-sao-desconsideradas-pela-comunidade-academica

Link 4: https://olivre.com.br/de-volta-aos-numeros-do-impacto-internacional-da-pesquisa-em-educacao-do-brasil

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