Na Cuiabá dos anos 1940 a construção do Grande Hotel era alvo de curiosidade

Um hotel com 38 quartos? A população especulava se haveriam hóspedes para um lugar tão majestoso

Cartão postal de 1950 mostra a fachada do primeiro "Grande Hotel" de Cuiabá

No início dos anos 1940 uma nova construção em Cuiabá atraía a curiosidade de seus moradores. Transeuntes fitavam o ritmo frenético da obra, quando contornavam a esquina da Avenida Getúlio Vargas com a Rua Joaquim Murtinho.

Havia também quem se sentasse nos bancos do Jardim Alencastro – que hoje é a praça Alencastro -, só para acompanhar a elevação da primeira edificação feita em concreto na cidade: o Grande Hotel.

Mantendo sua imponência no centro da capital, perto de completar 79 anos, ainda hoje atrai olhares. Especialmente, de quem já frequentou o hotel, sua varanda, restaurante ou se divertiu em seus famosos carnavais. O sentimento é de saudosismo já que está inacessível ao público.

Mas a Secretaria de Estado de Cultura e Lazer (Secel-MT) promete mudar essa realidade com o recente anúncio da revitalização do espaço.

A obra deve ser entregue no segundo semestre de 2021. Depois do seu aparelhamento é que ele voltará à vida com a implantação do primeiro Centro de Referência da Economia Criativa de Mato Grosso.

Obra de Getúlio Vargas

De acordo com o coordenador do Patrimônio Cultural da secretaria, Robinson Carvalho, mesmo com a modernização do prédio neocolonial, sua história arquitetônica será preservada, inclusive com processo de estratificação da parede.

A meta é trazer à mostra detalhes que ficaram escondidos por reformas pouco planejadas e descobrir qual o tom original da edificação para pintura da fachada.

Segundo Robinson o Grande Hotel foi inaugurado em 1941 e tombado como patrimônio histórico e cultural em 1984. Ele integra o conjunto de obras oficiais do governo de Getúlio Vargas. Na época, o então presidente entendia que toda cidade importante deveria ter um hotel dessa magnitude.

Hotel teria hóspedes?

Magnitude para a população da época, claro. Robinson conta que a dimensão do prédio e ineditismo dos meios utilizados para construí-lo – como o pioneirismo nas formas para concreto – chamava a atenção da população.

“Havia curiosidade se haveriam hóspedes suficientes para ocupar aquele grande prédio que inaugurou com 38 quartos, sendo apenas quatro deles suítes”.

Teve quem parou na frente para registrar sua presença diante do grande acontecimento. A foto é de Barnabé de Mesquita

Celebridades

Pois bem, os hóspedes vieram. Algumas celebridades como a “rainha do rádio”, Emilinha Borba; a cantora Ângela Maria, o ator e dramaturgo Procópio Ferreira e quem “encomendou” a obra, o então presidente Getúlio Vargas, entre os dias 6 e 8 de agosto de 1941.

“No período do Estado Novo Getúlio determinava projetos e enviava recursos e equipe para construir equipamentos. Caso do Grande Hotel. Que servia para acomodar inclusive, a própria equipe”.

Ele cita o engenheiro responsável pela obra, Cássio Veiga de Sá. “Ele veio até dois anos antes para elaborar toda a logística. Fez cimento em Nobres e trouxe pedras do Coxipó do Ouro. Usar o concreto foi uma inovação já que nessa época haviam abandonado o adobe pelo tijolo queimado”.

Cine Teatro veio junto

E como o espaço abrigava o barracão Amor à Arte Cine Parisien, dedicado a projeções de cinema, ele teve que buscar uma solução para “apaziguar os ânimos”, conta Robinson. Foi então que nasceu um novo projeto, o Cine Teatro Cuiabá.

Depois de inaugurado virou ponto de encontro da cidade. Havia um restaurante com varanda, hoje encoberta por vitrais, em que as pessoas ficavam sentadas olhando o movimento da cidade ou conversando.

“O local também virou um ponto de negócios, muitas reuniões de comerciantes e empresários eram realizadas lá. Os carnavais também foram marcantes”.

Bemat

Mas mesmo sendo um hotel de grande qualidade não sobreviveu por mais de 20 anos. “Alguns funcionários permaneceram por lá, ocuparam os fundos, até que o Banco do Estado de Mato Grosso, o Bemat chegou”.

Com o banco ocupando o espaço, uma série de reformas e ampliações foi feita. Inicialmente construído em formato em E, com particularidades como as varandas das fachadas, as obras para abrigar o órgão estadual excluíram os pátios dos fundos, que foram tomadas por salas administrativas com extensos corredores cegos. As intervenções foram menos radicais nas fachadas voltadas para a rua, conservando muito da aparência original.

Já em 2001, foram descobertas as estruturas ocultadas pelo Bemat, como escadas de serviço e forros de gesso dos salões. Também foram recuperados pisos em tacos de madeira e guarda-corpos metálicos.

A partir daí a então Secretaria de Estado de Cultura instalou-se no local onde ficou até 2015. Desde então tem sido utilizado para uso interno. Mas dado o início da obra – a empresa que venceu a licitação já foi anunciada – a Secel desocupará o espaço.

Cuiabá de Antigamente

Na comunidade Cuiabá de Antigamente, no Facebook, várias postagens relembram tempos áureos do Grande Hotel. São depoimentos como o de José Carlos Castro Branco. “Conheci Cuiabá em 27 de novembro de 1957, fiquei quatro dias hospedado no Grande Hotel. Ótimo, na época. Tinha até jantar ao som de piano. Belas lembranças”.

O membro do grupo, Ovídio Rei lembra do bar e restaurante. “Era hotel e embaixo funcionava um bar muito chique. Na época do carnaval , o desfile era na Getúlio Vargas, o bar ficava lotado de foliões”.

O carnaval também ficou marcado para José Rodrigues Souza. “Na década de 60, tinha Carnaval nos salões desse prédio, no matine que ia até as 17 hs, vinha um senhor de cabelos brancos, seu Leoni, inspetor de menor, convidando as criançadas a se retirarem, daí para frente era baile carnavalesco para Adultos.

Estilo neocolonial

De acordo com Robinson Araújo, a edificação foi durante muito tempo  classificada como de estilo arquitetônico Art Déco, mas hoje novas interpretações da arquitetura descrevem o Grande Hotel como estilo neocolonial.

O neocolonial foi um movimento do início do século 20 que buscava uma arte genuinamente nacional, oferecendo novas bases para a modernização da arquitetura no Brasil, mas sem desconsiderar as raízes e referências do Brasil colônia.

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