Muito trabalho, pouco tempo para política: por que as mulheres são menos eleitas?

Em 2016, apenas 189 mulheres foram eleitas vereadoras em Mato Grosso. Homens ocuparam 86% das vagas

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Entre as eleições de 2008 e 2012, o número de candidaturas femininas para as 5.568 câmaras municipais existentes do Brasil saltou de 72.476 para 133.864. Um crescimento de 84,5%. No entanto, esse aumento não fez com que mais mulheres se tornassem vereadoras.

Em 2008, só 8,9% das concorrentes se elegeram. Em 2012, o percentual caiu para 5,7%.

Para a socióloga Fátima Pacheco Jordão, o grande problema da baixa participação feminina na esfera política é que elas são barradas nos espaços de poder.

“A mulher tem grande representatividade em outros espaços, como na educação. Além de serem mais escolarizadas, têm profissões qualificadas na área da saúde, de pesquisas científicas e médicas. Mas elas não têm papel onde existe poder. Os mecanismos de construção de poder, sobretudo político, é nos partidos”, ela explica.

E, provavelmente, são exatamente essas atividades em outros setores que contribuem para a mulher ficar fora da “política tradicional”. A tese é de que elas acabam com menos tempo, principalmente, porque ainda acumulam a jornada de trabalho doméstico.

Um estereótipo que a jornalista e candidata a vereadora “de primeira viagem” Eliana Bess usa a seu favor e com bom humor.

(Foto: Arquivo Pessoal)

“Tenho encontrado, nesse percurso, uma receptividade muito grande porque a mulher é mais sensível, detalhista, se preocupa e tem a capacidade. Quando pega para defender, ela consegue e a ainda faz um monte de outras coisas ao mesmo tempo”.

Paranaense, mas moradora de Várzea Grande (região metropolitana) há cerca de 30 anos e, desde sempre, engajada em projetos e obras sociais, neste ano, ela decidiu se candidatar a um cargo eletivo pela primeira vez.

“Vi a necessidade de ter uma oportunidade para fazer mais. Do lado de fora, a gente vê que a coisa é tão engessada, que não se pensa no outro, no bem-estar, na inclusão social”, ela critica.

A decisão de entrar na política veio acompanhada do sentimento de “posso fazer mais”. A “política de bastidor”, segundo ela, não basta. “Temos que estar dentro, vendo para onde vai o recurso, porque as coisas não acontecem por falta de decisão”.

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Nas últimas eleições municipais, os mato-grossenses elegeram 189 vereadoras, representando 13,46% das 1.404 vagas no Estado. Em Várzea Grande, apenas uma mulher conseguiu se eleger. Em Cuiabá, nenhuma foi eleita pela primeira vez em 26 anos.

E em quase 300 anos de funcionamento, apenas nove mulheres ocuparam cadeira na “Casa de Leis” da Capital.

A primeira foi Estevina do Couto Abalém, em 1951. Depois dela, também ocuparam assento no Legislativo cuiabano: Ana Maria do Couto, Maria Nazaré Hahn, Estevina do Couto Abalém, Bia Spinelly, Enelinda Scala, Verinha Araújo, Lueci Ramos, Chica Nunes e Márcia Campos.

No Brasil, os homens ocupam 86,5% das vagas de vereador. Especialistas afirmam que os números refletem o nível de conservadorismo do eleitor.

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