14 de abril de 2026 19:56
Cidades

Moradores juntam dinheiro e pagam velório de Sapinho, morto pela PM

Foto de Camilla Zeni
Camilla Zeni

A morte do traficante Flávio Castro de Lima, de 31 anos, conhecido como “Sapinho”, foi sentida por centenas de pessoas que conviviam com ele no bairro Novo Colorado, em Cuiabá. Na tarde desta sexta-feira (3), o bairro, que já é naturalmente calmo, silenciou. Flávio foi morto na noite de quarta-feira (1), com dois tiros que atingiram a cabeça e o tórax. Na noite anterior, ele havia se envolvido em uma troca de tiros com a polícia no bairro Jardim Mariana, da qual saiu com um tiro no abdômen.

Nas proximidades da rua da Igreja Nossa Senhora Aparecida, dezenas de pessoas saíram de casa para ir ao velório. De crianças a idosos, todos sentiam a ausência de Flávio. Dentro da capela, anexa à igreja, outras dezenas rezavam, choravam e louvavam. Sapinho tinha passagens por tráfico de drogas e homicídio e chegou a passar os últimos 11 anos preso. Nesta tarde, para aquela comunidade, não se tratava do velório de um bandido, mas o último adeus à Flavio, ser humano, filho, amigo, membro da comunidade.

Embora seja conhecido na polícia como autor de diversos crimes, para muitos no bairro Flávio era o “protetor”. Conforme relataram ao LIVRE, ele não era querido porque “dava comida ou gás”, mas porque impedia que outros bandidos roubassem as casas, além de tratar a todos com respeito. “É uma regra, né. Todo bairro tem, não é só aqui”, comentou uma adolescente.

Durante as horas que a equipe de reportagem esteve no local, diversas pessoas se aproximaram para conversar. Queriam negar toda a fama que Sapinho ganhou ao ser morto. Queriam negar que a comunidade Novo Colorado vive uma “inversão de valores”, como classificou o secretário de Estado de Segurança Pública. Queriam deixar seu ponto de vista.

Enquanto a conversa sobre a conduta de Flávio corria do lado de fora da capela, diversas pessoas entravam e saíam do local, onde pelo menos 30 permaneciam em luto. Na lateral da igreja, ao menos outras 50 aguardavam o início do cortejo fúnebre. A comunidade também expressava sua tristeza na rua, onde, ao longo de todo o quarteirão, pelo menos outras 50 pessoas aguardavam em diferentes pontos.

[featured_paragraph]“Isso aqui não é defender bandido, moça. A gente não concorda com a atitude dele, não. Nós sabemos que ele matou, mas não matou tudo isso que estão falando. Jogaram crimes pra ele. Crimes que ele não cometeu. Ele não matou pai de família trabalhador, não. Ele não matou aquele idoso, ele não matou oito pessoas, moça”, comentou, emocionada, uma das pessoas.[/featured_paragraph]

A mãe de criação de Flávio, que preferiu não se identificar, estava extasiada. Diante de tanta gente que se juntou no enterro do filho, ela falou com o LIVRE. Disse que sabe que o filho teve uma conduta que ela não aprovava, mas que ele pagou pelo que cometeu.

“Aconteceu de uma morte de um senhor de idade que saíram falando que foi ele, quem matou saiu falando que era ele e a polícia veio e matou ele. Mas não foi. Isso tem que ser investigado, embora que ele já tenha morrido. Mas ele sempre teve respeito por todo mundo aqui do bairro. Ele não era uma pessoa ruim para merecer o que fizeram com ele. O que ele fez, ele ficou preso e pagou”, comentou.

A entrevista precisou ser interrompida quando a irmã de Flávio desmaiou. Apesar disso, diversas pessoas continuavam a negar as informações divulgadas sobre Sapinho e sua morte. Conforme contavam suas versões, os presentes se emocionavam e se revoltavam.

[featured_paragraph]“Nós já vínhamos falando com a mãe que ela tinha que se preparar, que alguma hora iria chegar notícia ruim. Tem gente que sai da cadeia e é morto no dia seguinte. Ele morreu oito meses depois que saiu. Mas a forma como aconteceu, isso a gente não aceita”, finalizou um dos irmãos de Sapinho.[/featured_paragraph]

Para garantir o velório, que aconteceu mais de 24 horas depois do crime em razão da demora na liberação do corpo junto ao Instituto Médico Legal (IML), a comunidade recolheu dinheiro entre os moradores. Até as crianças fizeram questão de contribuir com as economias. “Teve criança que deu dois reais, porque queria ajudar”, contou uma moradora.

Essa não é a primeira vez que a comunidade se organizou e ajudou Sapinho. Em 2007, moradores fizeram rifas e bingos para angariar fundos e pagar um bom advogado com o intuito de livrá-lo das grades. A história virou filme do cineasta Bruno Bini, que foi rodado na comunidade.

Do velório para o enterro, no cemitério São Gonçalo, localizado no bairro homônimo, apenas três carros seguiram o cortejo fúnebre. Um ônibus também foi alugado pela comunidade. Conforme o cortejo passava pelas ruas do bairro, Flávio recebeu aplausos.

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