Contato com a família, atividades produtivas e “períodos de descanso”. Parece que estou descrevendo a vida de um brasileiro típico, certo? Mas essas características também servem para descrever a vida de quem mora na “Cracolândia” de São Paulo.
É o que mostra o relatório “A ‘Cracolândia’ pelos usuários: como as pessoas que vivem nas ruas do território percebem as políticas públicas”, publicado nesta sexta-feira (25).
A pesquisa é fruto de um trabalho do Núcleo de Estudos da Burocracia da Fundação Getulio Vargas (NEB/FGV), do Centro de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo (CEM/USP) e do Grupo de Estudos (in)disciplinares do corpo e do território (Cóccix).
Os pesquisadores conversaram com 90 indivíduos entre julho e agosto de 2022. Mais de 80% eram homens negros entre 30 e 49 anos. A amostra não representa exatamente toda a população da Cracolândia, mas ilustra ao menos uma parte da realidade vivida por usuários de drogas e pessoas em situação de rua na região.
Uma vida quase “normal”
Mais de 90% dos indivíduos que falaram com os pesquisadores relataram fazer uso de crack. Os demais disseram fazer uso regular de bebidas alcoólicas.
A maioria deles (69%) dorme nas ruas e quase 40% disseram que estão na região por vontade própria. Eles consideram a Cracolândia sua casa ou, simplesmente, se sentem bem estando ali.
E, apesar das condições adversas, metade dos entrevistados ainda mantém contato com a família.
A pesquisa também identificou que existem uma preocupação dos indivíduos para gerar renda. Cerca de 66% deles realizam atividades produtivas regularmente, como reciclagem e venda de objetos.
Descrença nas políticas públicas
Sete em cada 10 entrevistados já foram internados, pelo menos, uma vez. Mas há casos de usuários de crack que chegaram a se internar mais de 30 vezes. Muitos veem a internação como um local temporário para descanso e recuperação física, não como uma solução efetiva para o uso problemático de drogas.
“Os dados mostram uma relevante aderência das pessoas às internações, contrariando um discurso geral que diz que as pessoas não querem se tratar”, diz Amanda Gabriela Amparo, do Cóccix, uma das autoras do trabalho.
As principais razões para o abandono das internações incluem o fim do prazo sem suporte pós-tratamento, abstinência forçada e más condições nas instituições, que muitas vezes se assemelham a prisões.
E por falar em prisão… a violência policial, de acordo com o relatório, é um fator agravante na vida dos moradores da Cracolândia.
“A gente não pode dormir e nem comer. Somos parados pela operação, aí temos que correr”, relata uma das entrevistadas.
O aumento da presença policial têm intensificado as tensões na região. A política de dispersão adotada a partir de 2022 resultou no espalhamento dos usuários pela cidade, amplificando os impactos negativos.
“Eles acham que com isso estão aliviando alguma coisa? Não, estão prejudicando segundos e terceiros”, afirma um dos entrevistados.
A inadequação dos serviços ofertados e a violência constante resultam na falta de expectativa dessas pessoas em relação ao poder público. Muitos expressaram desilusão e desconfiança.
“Um bom tratamento seria ter uma cooperativa para todos terem uma ocupação de mente”, sugere um entrevistado, ressaltando a importância de atividades que promovam inclusão social e autonomia.
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(Com informações da Agência Bori)




