|terça, 21 agosto 2018

    Kama Sutra: muito além de um manual de posições sexuais

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    Divulgação/Pixabay

    Kama Sutra

    São muita as referências ao texto Kamasutram, ou Kama Sutra como conhecemos no Ocidente. Existem baralhos ilustrados e até livros de colorir com as famosas acrobacias sexuais. Do texto mais inocente até o pornô mais hardcore a palavra esta lá, “Kama Sutra”, embalando as mais diversas fantasias. O que poucos sabem é que podemos aprender muito sobre a sexualidade humana com esse conhecimento de mais de mil anos.

    Primeiro o Kama Sutra não é apenas um texto ou um livro erótico ilustrado, mas uma tradição, uma forma de viver. Ele foi compilado pelo filósofo indiano Mallanaga Vatsyayana, por volta do século IV, contendo ensinamentos de outros livros e transmissões orais que podem ser anteriores à Era Cristã.

    O Kama Sutra é uma forma hindu de perceber o corpo, os relacionamentos, o amor e a sexualidade. O que inclui algumas aberrações machistas, como a recomendação do sexo com empregadas e mulheres de “castas” (as divisões sociais da Índia) mais baixas por puro prazer. Bem, desconsiderando as questões culturais e temporais envolvidas, ainda há muita coisa boa ali. Principalmente o fato do texto reforçar a importância do prazer feminino também (ufa!).

    A palavra Kama é uma referencia ao deus que simboliza o desejo e o amor carnal. E sutra significa seguir um ensinamento. O texto defende o gozo através da conexão dos cinco sentidos. Ou seja, fazer sexo segundo a tradição do Kama Sutra não é equilibrar-se em posições estranhas. Segundo Vatsyana, é necessário manter uma conexão da audição, do tato, da visão, do paladar e do olfato, além da mente e da alma. Profundo, não?

    Se pensarmos que hoje, segundo a terapeuta sexual Barry W. McCarthy, da Universidade de New Brunswick, a duração média de uma relação sexual é de 5 e 10 minutos, podemos imaginar o quão distantes estamos desse ideal de sexo…

    Inspirada nesse belíssimo texto, decidi fazer um modesto resumo de alguns trechos interessantes e que acredito contribuírem para repensarmos o nosso entendimento sobre o prazer. Porém, dessa vez será em duas partes, afinal, um conhecimento de mais de mil anos vale muito mais do que uma coluna.

    Recomendo que todos leiam o livro por completo. Mas, para dar uma forcinha aos casais que não têm muito tempo, vamos aos pontos mais interessantes.

    O segundo choque que o original do Kama Sutra provoca é percebermos que ele está inteiramente escrito na forma de versos, 1250 para ser mais exata. Também sabemos muito pouco sobre o autor Mallanaga Vatsyayana, apenas que ele era um estudioso indiano celibatário (!).

    Muitos podem não acreditar, mas a sua obra é quase um código de posturas para homens e mulheres serem felizes. Ali estão as descrições das 64 artes de amar, que vão desde a culinária, passando pelo vestuário, as maneiras corretas para decorar o quarto, a arte da guerra indo até a magia e a feitiçaria….

    “Este trabalho não é para ser usado apenas com o um instrumento para a satisfação dos nosso desejos. Uma pessoa familiarizada com os verdadeiros princípios dessa ciência, que preserve a sua Dharma (a virtude ou mérito religioso), a Artha (riqueza mundana) e o seu Kama (prazer ou gratificação sensual), e que tem em conta os costumes do povo, terá a certeza de obter o domínio sobre seus sentidos. Em suma, será um ser inteligente, que conhecerá as pessoas atendendo à Dharma e à Artha e também ao Kama, sem tornar-se escravo de suas paixões, e obterá sucesso em tudo que fizer”, preconiza Vatsyayana. 

    Vamos às suas palavras!

    O encaixe perfeito dos corpos
    Uma das partes mais controversas, e interessantes, do Kama Sutra é sobre a classificação das pessoas de acordo com o tamanho e a forma dos órgãos sexuais. Muitos dirão que isso não existe. Divergências à parte, para mim parece pura matemática.

    O texto chama o órgão feminino de “yoni”. As diversas yonis podem ser as de forma de “veado”, “égua” e “elefante”. Os pênis masculinos são do tipo “touro”, “cavalo” e o “lebre. Bem, o animal relacionado nos dá a noção do tamanho que se remete aos órgãos. Nessa parte o texto descreve que existem três (óbvias) uniões correspondentes e nove desiguais. Qual a solução proposta para os desajustes?

    Essa seria a parte mais importante do Kama Sutra e que justifica as célebres acrobacias sexuais. Finalmente compreendemos que as cenas foram descritas para que os corpos se ajustem de acordo com essas combinações de tamanhos. O que lança mais sentidos sobre o porquê do teor erótico das ilustrações do Kama Sutra.

    Se lermos com atenção vamos perceber o texto todo como um grande manual do prazer. Desconsiderando as questões culturais (e machistas), muitas dicas podem ajudar as pessoas a encontrarem posições que podem de fato auxiliá-las a aumentar o prazer com seus parceiros. Ou seja, em resumo, as posições ajudam um homem de pênis pequeno obter mais prazer e uma mulher sofrer menos quando penetrada por um homem com um pênis muito grande. E salve as diferenças!

    Há também uma interessante classificação para a intensidade das paixões. Tanto o homem quanto a mulher podem ter um desejo pequeno, mediano ou grande. Neste ponto há outra revelação surpreendente. Já se reconhecia (há mil anos…) que as mulheres podem demorar mais para atingirem o orgasmo.

    Inclusive se recomenda outros estímulos para se saciar também a paixão feminina caso o homem seja alguém de “pequena paixão”. “O prazer é um derivado da consciência que é o chamado da sua satisfação”, diz Vatsyayana que aconselha que o ato deve continuar “…até que ela experimente os últimos espasmos”.

    E neste ponto, como muitos casais já vivenciaram em suas vidas pessoais, também há diferenças de encaixes e sintonia. Muitas irreconciliáveis e que podem inclusive provocar rupturas. Aqui novamente a leitura do livro pode ajudar, afinal segundo o Kama Sutra o amor é construído dia a dia e, se nasce morno, com o tempo torna-se chama.

    Para quem animou também existem outros livros hindus sobre o tema: o Ratirahasya, os segredos do amor; o Panchasaky, ou as cinco flechas do amor, o Pradipa Smara, ou a luz do amor; o Ratimanjari, ou a grinalda do amor; o Rasmanjari, ou o broto do amor; o Runga Nunca, ou o estágio do amor, também conhecido como Kamaledhiplava ou “Um barco no oceano do amor”, (que mais parece uma canção do Wando, não)?!

    Na próxima coluna vou escrever sobre o Kama Shastra. É nessa parte que estão os oito temas fundamentais: abraçar, beijar, arranhar com as unhas, morder, as formas de deitar, gemer e fazer sons, sobre penetrar e o Auparishtaka, a união das bocas.

    Biografia Juliana

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