Carregando...
Leis e JustiçaMato GrossoPolíticaSeleção dos Editores

Intervenção administrativa: entenda porquê e como ela acontece

Foto de Reinaldo Fernandes
Reinaldo Fernandes

Uma semana atrás a Justiça de Mato Grosso mandou o governo do Estado intervir na administração da Saúde em Cuiabá. O objetivo: readequar os serviços prestados à sociedade. Havia denúncia de falta de médicos e as primeiras informações sobre a gestão da secretaria começaram a ser divulgadas ontem (4). Entre os pontos mais destacados, uma suposta dívida de R$ 350 milhões.  

Mas, você entende o que está acontecendo? A intervenção administrativa está prevista no artigo 35 da Constituição Federal e faz parte dos preceitos do estado de bem-estar social. Funciona mais ou menos assim: se os serviços vão mal e o ente responsável por administrá-los não consegue fazer melhor, há motivos para a intervenção.  

Conforme o artigo 35 da Constituição, a intervenção deve ocorrer sempre de acordo com as regras da composição do país. O governo federal pode fazer a requisição administrativa sobre o Estado e o Estado sobre o município. 

Como ocorrem as intervenções? 

A decisão de intervir pode ser tomada de duas formas. O governo federal, ou Estado, pode adotar a medida por iniciativa própria, se entender que existem motivos que levarão ao colapso dos serviços públicos. É a chamada intervenção espontânea. 

Há três hipóteses para ela:

  • se o estado ou município estiver há dois anos consecutivos sem pagar dívidas;
  • se os serviços previstos nas constituições Federal e Estadual não estiverem sendo prestados;
  • e se o mínimo de dinheiro (25% do orçamento) não estiver sendo aplicado na educação. 

A intervenção também pode ser determinada pela Justiça, seguindo as regras de União, Estados e municípios. Neste caso, a intervenção é provocada. Foi o caso que ocorreu com a Saúde em Cuiabá. 

Nesta hipótese, a Justiça deve levar em conta três critérios:

  • descumprimento de ordens judiciais,
  • não cumprimento de leis,
  • uma ação direta de inconstitucionalidade (ADI). 

A intervenção na Saúde em Cuiabá 

(Foto: Cottonbro / Pexels)

A intervenção no SUS (Sistema Único de Saúde) de Cuiabá foi determinada pelo desembargador Orlando Perri, no dia 28 de dezembro. Ele atendeu um pedido do procurador-geral de Justiça, José Antônio Borges, chefe do Ministério Público de Mato Grosso. 

No pedido, estão apontadas três ações que a Prefeitura de Cuiabá teria descumprido.

  • um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em 2018 com o próprio MP para reduzir a quantidade de servidores temporários na saúde. 
  • a ineficiência para limitar o número de servidores temporários a 25% do total e abrir concurso público para preencher as vagas que ficariam abertas. 
  • suspender novas contratações de temporários. 

Conforme o MP, a situação administrativa ficou ainda mais grave quando chegaram denúncias do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso (Sindimed) sobre falta de médicos, o que estaria causando furo nas escalas de plantão. Além disso, faltava também medicamentos e havia atraso no pagamento de salários. 

Segundo o MP, os dados foram apresentados pelo sindicato em agosto do ano passado, mas a deficiência estaria se arrastando desde 2018, em coincidência com o ano de assinatura do TAC. 

O que acontece durante a intervenção? 

O advogado Felipe Amorim Reis, membro da Comissão de Estudos Constitucionais da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso (OAB-MT), diz que a intervenção tem caráter duplo: administrativo e financeiro. 

O poder interventor assume todas as responsabilidades do prefeito na área interditada e fica obrigado, no prazo estabelecido pela Justiça, a apresentar um diagnóstico da situação. 

“Eles começaram a fazer um raio X da Saúde. Eles devem ter acesso a todo tipo de documentos como se fossem o prefeito. E, ao final do prazo, terão que apresentar um relatório para o Estado, que vai decidir se pede ou não mais prazo para continuar com a intervenção”, explica. 

Conforme o decreto do governo, o interventor nomeado tem o poder de exonerar funcionários e contratar outros para ocupar os cargos em aberto, se achar necessário. 

O advogado Felipe Amorim diz que, no caso de secretário, a pessoa que estiver ocupando o cargo no momento da intervenção fica afastada, pois somente o prefeito teria o poder de exonerá-la. O pagamento ou não do salário dela durante esse período depende da decisão do prefeito. 

Prefeito Emanuel Pinheiro não tem autonomia sobre o setor da saúde em Cuiabá, enquanto a intervenção durar (Foto: Luiz Alves / Prefeitura de Cuiabá)

O problema das dívidas  

Felipe Amorim acrescenta que o caráter financeiro da intervenção inclui, além da identificação das dívidas e da quantia de dinheiro em caixa, a ajuda do Estado e da União para resolver o problema de deficiência financeira. 

No caso em andamento em Cuiabá, a colaboração entre União, Estado e município é reforçada pela característica universal do SUS no Brasil. 

“O SUS não é um serviço só do município, ele deve atender todo mundo que procurá-lo. O financiamento dele é, dessa forma, tripartite, com dinheiro da União, do Estado e dos municípios. O município é o nível de administração que menos recebe dinheiro, e eles ficam obrigados a ajudar”, comenta. 

O advogado diz que não há uma regra fixa para os casos especiais (como a intervenção) de quanto cada ente deve colaborar para restabelecer o funcionamento dos serviços.  

O boletim do gabinete de intervenção calculou, até o momento, pagamentos em aberto de R$ 350 milhões. A Justiça deu 6 meses para o Estado fazer um diagnóstico e apresentar uma solução para o caso. 

Notícias em primeira mão

Junte-se à nossa comunidade exclusiva no Whatsapp e seja notificado sobre os furos de reportagem e análises profundas antes de todos.

Últimas Notícias

Crônicas Policiais

Homem entra em luta corporal com a PM e acaba baleado durante ação contra o tráfico

: Trio que comandava venda de drogas em Cáceres foi desarticulado pelo 6º Batalhão. Denúncias anônimas podem ser feitas pelo 190
Crônicas Policiais

Câmeras do Vigia Mais MT flagram foragidos por tráfico e organização criminosa

Sistema de reconhecimento facial e leitura automática de placas auxiliou na prisão de dois criminosos em Sinop e Cuiabá nesta semana
Crônicas Policiais

Suspeito tenta tomar arma de PM, acaba baleado e operação desarticula “boca de fumo” em MT

Homem tentou fugir por região de mata após agredir os policiais. Casal que operava ponto de venda de facção criminosa também foi preso nesta sexta (26)
Crônicas Policiais

Polícia Civil prende mulher com carga de 99 mil cigarros contrabandeados em Nova Olímpia

Suspeita foi flagrada transportando 495 caixas de cigarros de origem estrangeira na MT-343 e foi autuada em flagrante por contrabando