Educação na quarentena: pesquisador diz que problema foi “terceirizado” para os pais

Doutor em Educação sugere que pais e mães cobrem as instituições, mas ressalta também é preciso uma auto avaliação

(Foto: Freepik)

Colocar crianças na frente de uma tela e esperar que elas se comportem e absorvam as informações da mesma maneira como faziam quando estavam na escola não é educação à distância. Trata-se mais de uma “terceirização” do problema por parte das autoridades no assunto para quem agora tem que conviver o tempo todo com elas, ou seja, seus pais. Mas será que os pais, em determinado momento, também não terceirizaram a educação de seus filhos exclusivamente às escolas?

A avaliação e o questionamento são do doutor em Educação, professor e pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Silas Monteiro. “Eu diria, objetivamente, que a Educação parou”, disse ele ao fazer – a pedido da reportagem do LIVRE – uma análise do cenário de isolamento social causado pelo novo coronavírus.

Pais e mães de todo o país têm relatado dificuldades com o modelo que vem sem adotado por escolas públicas e particulares de continuar ministrando aulas, apesar da proibição de abrir suas unidades. “E a reclamação deles é legítima”, sustenta o professor.

Para Monteiro, o problema começa por um uso indevido das tecnologias. “Se nós levássemos isso mais a sério, elas já estariam em uso, não nessas circunstâncias, mas em seu uso devido: o apoio ao aprendizado. Já estariam incorporadas, como uma lousa, como o giz, como o pátio da escola estão”.

E mesmo as gerações mais jovens – que já nasceram nessa época digital –, na avaliação do professor, não têm demonstrado uma falta de habilidade ou compreensão de que computadores, smartphones e a internet não são uma mera ferramenta para enviar e receber mensagens.

“Não é só uma extensão do lápis e do papel. Tem outra lógica nisso”, ele afirma. “Uma coisa é você produzir um áudio para o rádio, outra é você produzir um material audiovisual para a televisão. E uma mais diferente ainda é produzir algo para o YouTube ou ligar a câmera do celular e conversar com a pessoa do outro lado”.

Para o pesquisador, mesmo as gerações mais jovens usam a tecnologia como uma mera extensão de antigos objetos, como uma máquina de escrever (Foto: Agência Brasil)

“Incapazes de uma resposta efetiva”

Dada a urgência da situação – a pandemia do novo coronavírus se alastrou pelo mundo sem dar tempo aos países para se organizar minimamente antes de pedir às pessoas que se trancassem em casa –, o que Silas Monteiro vê no Brasil são autoridades do setor da Educação caladas e inertes.

“A gente recebe todos os dias orientações e informações sobre o desenvolvimento do vírus, mas não recebe sobre Educação. Eu não ainda vi os secretários dizerem como os pais devem fazer. Não vi chamarem para falar nos meios adequados coordenadores pedagógicos, psicopedagogos, pessoas que possam dar esse suporte aos pais e mães”.

A orientação do professor a quem se vê, de repente, tendo que auxiliar o filho, mas sem saber como, é que busque orientação nas escolas. De acordo com Silas Monteiro, é fundamental que diretores, professores, coordenadores expliquem aos pais dos alunos qual o projeto pedagógico que estava proposto para aquela criança.

“O primeiro grito que poderia ser feito é ‘instituições, nos ajudem’, porque só ligar o computador não é suficiente. A criança fica inquieta. Se alunos universitários estão reclamando de tédio, imagine uma criança, um adolescente”.

E se o auxílio profissional não for possível – ou ainda que seja –, Sila Monteiro sugere aos pais que aceitem e se dediquem ao período de aprendizado pelo qual eles próprios terão que passar. O momento, segundo o professor, é de auto avaliação.

“Vamos imaginar que isso [a quarentena] se estenda e piore e você tenha que ficar com os seus filhos aí, dentro de um apartamento. Talvez seja o momento de ver como você se relaciona com essas crianças, qual seu papel na vida delas, além de prover alimentação, proteção e saúde. Talvez seja o caso de pensar se a Educação também não foi, em algum momento, terceirizada pelos pais”.

1. Não ache que a criança é o problema

O primeiro passo, conforme Monteiro, é tentar entender as etapas de desenvolvimento do seu filho e aceitar, sem pensar que haja um problema oculto nisso, que crianças são agitadas.

“Não ache que a criança tem um problema só porque ela é agitada. As crianças são agitadas! Elas têm uma demanda de crescimento – e eu estou falando de cérebro, células, hormônios – que torna muito complicado ficar contido. É preciso ter paciência, uma paciência histórica eu diria”.

2. Aprenda sobre e com seu filho

Monteiro sugere usar o eventual tempo livre na quarentena para ler sobre pedagogia e as etapas de crescimento e desenvolvimento de uma criança. Saber pelo que o filho está passando e tentar se colocar no lugar dele.

Para as ocasiões em que for preciso ajudar a entender algo que você mesmo não se lembra mais, o professor dá uma dica: “se você não sabe, aprenda junto com ela”.

“Existem site para isso, site com aula, livros eletrônicos. Busque a informação e mostre para a criança como buscar. Mostre quais sites valem a pena ou não. É uma espécie de alfabetização crítica da internet. Dizer por que aquele site não é bom, como funciona o Google. Os pais podem buscar informação de credibilidade e fazer isso junto com a criança”.

Professor Silas Monteiro sugere: se você não sabe, admita e aprenda aquele conteúdo junto com o seu filho (Foto: FreePik)

3. Reduza expectativas

O pesquisador da UFMT sustenta que, mesmo em condições “normais” de ensino, sempre haverá lacunas. Parte do que se tentou transmitir não vai ser absorvido e atrasos no aprendizado são naturais.

Nesse momento, aceitar que isso pode ocorrer a ponto de a criança “repetir o ano” é uma boa estratégia para pais e filhos. Afinal, trata-se de um ano que praticamente não existiu do ponto de vista do processo educacional como se conhecia até então.

4. Não deixe seu filho quando isso passar

Para Silas Monteiro, um problema evidente no caso dos pais que conseguirem implantar uma estratégia assim é que tudo volte a ser como antes, quando o isolamento social não for mais necessário.

“A criança vai sentir falta. Vai se questionar por que não estuda mais com ela”.

5. Valorize a escola

Para Silas Monteiro, é difícil olhar a situação atual e não enxergar uma certa ironia. O professor se refere à proposta defendia há cerca de um ano para que pais fossem autorizados a ensinar seus filhos em casa, sem a obrigação de frequentar uma escola.

“Era uma grande novidade, porque as crianças não seriam doutrinadas, aquela conversa toda que – me parece – foi reproduzida para desqualificar a escola de um modo geral. Eu diria que há uma ironia nisso, porque boa parte da população que adotou esse projeto político, que tinha isso no horizonte, agora que chegou, parece que não quer mais”.

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