Cientistas desenvolvem testes para detecção de metanol em bebidas
Segundo Ministério da Saúde, há pelo menos 113 notificaçõe
Luiz Claudio Ferreira – Repórter da Agência Brasil
Publicado em 04/10/2025 – 09:37 | Brasília
Não há cheiro ou gosto diferente. A adulteração por metanol nas bebidas alcoólicas só pode ser constatada por testes laboratoriais. Entre esses exames, pesquisas nascidas em universidades públicas brasileiras ampliam os caminhos para detecção da substância.
O Ministério da Saúde confirmou, nesta sexta, que há pelo menos 113 registros de contaminação por metanol. Onze casos foram confirmados e 102 estão em investigação.
Uma das iniciativas de detecção é do Laboratório Multiusuário de Ressonância Magnética Nuclear, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que abriu as portas ao público em geral para examinar bebidas alcoólicas de forma gratuita, mediante agendamento.
Análise em 5 minutos
Segundo o vice-coordenador do laboratório, o professor de química Kahlil Salome, o equipamento de ressonância funciona de forma semelhante aos exames de saúde.
“Colocamos o líquido em um tubo. A análise é muito rápida. A gente consegue analisar uma amostra a cada cinco minutos”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.
Para fazer a detecção, bastam algumas gotas da bebida (0,5 mililitro). “Quando a gente coloca a amostra no equipamento, ele devolve um gráfico. Tem várias linhas e uma dessas linhas é referente ao metanol.”
O pesquisador recomenda que as pessoas que tiverem desconfiança da origem de bebidas procurem o laboratório. “A gente consegue analisar bem rapidinho.” Ele explica que a detecção é possível mesmo com bebidas com corantes ou frutas.
O exame aponta, por exemplo, a presença de quantidade inadequada ao consumo humano: 10 microlitros de metanol em 100 ml de bebidas como cachaça, vodka e tequila.
O professor defende que a pesquisa na universidade pública traz respostas à sociedade também em momentos de crise. “A gente tenta também trazer a população de volta para a universidade. Houve um período de muitos ataques à universidade pública.”
Ele explica que outras universidades federais têm laboratórios do mesmo gênero que poderiam ser acionados para exames sobre a presença de metanol.
Método patenteado
Outra instituição de ensino público com pesquisa sobre detecção de metanol é a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Em 2022, pesquisadores do Instituto de Química, em Araraquara, desenvolveram um método capaz de identificar adulterações em bebidas alcoólicas destiladas.
O método foi patenteado pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). Os pesquisadores da Unesp adicionaram um tipo de sal no líquido. Se houver metanol, a amostra se transforma em formol. Na sequência, um ácido gera mudanças na coloração da solução. Essas etapas de reação levam cerca de 15 minutos no caso do etanol e das bebidas alcoólicas.
Pesquisa virou empresa
Outra pesquisa nasceu na Universidade de Brasília (UnB) em 2013, em um projeto incubado na instituição quando o químico Arilson Onésio Ferreira fazia o curso de mestrado. Foi criado um exame a partir de reagentes. A empresa (Macofren) deu certo e hoje disponibiliza kits para empresas privadas e instituições governamentais.
“O projeto surgiu na UnB com um foco específico em trabalhar no combate às fraudes por metanol em combustíveis”, contextualizou à Agência Brasil. O projeto foi desenvolvido no Laboratório de Materiais e Combustíveis, liderado pelo professor Paulo Soares e pelo aluno Guilherme Bandeira.
“Isso que está acontecendo agora no Brasil já aconteceu na Europa e foi registrado no documentário Metanol, o líquido da morte.” O químico chama atenção para o fato de que a partir de 30 ml de metanol uma pessoa pode morrer.
Segundo o pesquisador, a detecção do metanol na bebida tem uma dificuldade em função da diversidade de formulações, incluindo corantes e açúcares, que podem gerar falso positivo. “Nunca pode ocorrer um falso negativo”, garante.
O químico diz que o kit com os instrumentos e materiais para fazer um teste custa R$ 50. Depois de adquirir os materiais, o reagente fica em torno de R$ 25 por teste. Para realizar o exame, basta 1 ml da amostra da bebida. Desde o início da crise, os pedidos não param — há 200 empresas na fila de espera, incluindo produtores de eventos como casamentos e festas.





