14 de abril de 2026 13:26
Opinião

O sol nem sempre brilha na TV

Foto de André Luís Ribeiro Lacerda
André Luís Ribeiro Lacerda

​A televisão, com sua capacidade de moldar percepções, frequentemente nos vende uma imagem simplificada da natureza humana, como o sendo comum. Uma delas é a do altruísmo: a ideia de que agimos em benefício de outros sem esperar nada em troca, por pura bondade.

Será que é tão simples assim? A sociobiologia nos mostra que as raízes do comportamento altruísta são bem mais complexas e, por vezes, contraintuitivas. Ela desafia a noção romântica de que ‘o sol sempre brilha’ para o bem comum, revelando uma ciência por trás de cada ato de bondade e de egoísmo.

Em entrevista ao Jornal The Washington Post, para celebrar os 40 anos do seu maior sucesso, “take on me” (aceite-me/me dê uma chance) da banda norueguesa A-ha, o vocalista Morten Harket reclamou que recebe apenas 16,6% dos direitos autorais da música. Ele disse que a divisão é injusta.

​Desde 2022, os membros da banda resolveram fazer uma pausa por conta de desentendimentos sobre direitos autorais, dinheiro e controle criativo.

​A situação como um todo pode ser ilustrada com conceitos sociobiológicos, ciência que gerou muita polêmica em meados de 1970 e abordava a dimensão competitiva, cooperativa, altruísta  e “egoísta” (auto-interesse) dos animais em geral, inclusive de seres supercooperativos como são os seres humanos.

​Sabemos que nenhum grupo ou sociedade é exclusivamente competitivo nem exclusivamente cooperativo. A sociobiologia postula que a competição, enquanto processo social é inevitável, pois está baseada no fato implacável de que nem todos conseguem satisfazer todos os seus desejos.

​Comportamentos competitivos e cooperativos são funcionais em qualquer sociedade. Podemos pensar que existem vários tipos de comportamentos competitivos e cooperativos. Mas, a cooperação é um processo social mais aprendido do que a competição.

​A competição parece ser a regra enquanto a cooperação surge ou como sub produto inconsciente da competição ou como uma estratégia consciente de competição, indivíduos cooperam para competir. O produtor rural produz para o mercado (onde irá competir), mas nas diversas etapas do processo, coopera com muita gente, inconsciente ou conscientemente.

​O que é uma banda musical senão um grupo, indivíduos que tem como interesses comuns produzir músicas? Paul Waaktaar na guitarra, Magne Furuholmen no teclado e Morten Harket no vocal. A estrutura social de um banda tem prestígios diferentes em suas posições. Em geral, o vocalista tende a ter mais prestígio, pois atrai muito mais atenção e, portanto, pode angariar mais recursos.

O A-ha é um grupo social, cujos comportamentos competitivos e cooperativos de seus membros, motivados por “egoísmo” (auto-interesse) e altruísmo recíproco (um indivíduo ajuda outro com a expectativa de que esse favor será retribuído no futuro), produziu canções maravilhosas, como “The sun always shines on tv” (o sol  brilha sempre na tv) .

Depois da sociobiologia, biólogos evolucionistas  procuraram entender a organização social de insetos, mamíferos e primatas a partir dos interesses individuais, um tipo de individualismo metodológico. Para entender o formigueiro deve-se partir dos interesses das formigas. Para entender a espécie tem que entender o indivíduo. Para entender uma banda de pop rock, deve-se partir dos auto-interesses de seus músicos. No fundo, é como se não não existisse a banda, apenas os músicos.

Portanto, falar de sacrifício pelo grupo, conforme defendia etólogos como Konrad Lorenz,  é um impossibilidade segundo a sociobiologia. E a reclamação de Morten Harket não mostra isso? Visto como porta-voz de uma banda mundialmente famosa, ele poderia ignorar o que considera injustiça na partilha de direitos autorais de uma música?

Na música ou na família, a divisão dos recursos nunca é considerada justa. Pode ser igualitária e ser injusta, como geralmente acontece. Muitos músicos, para driblar questões relativas à desigualdade, costumam dizer publicamente que todo o trabalho deles é coletivo, mas não é, e, mesmo que fosse, isso não excluiria as desigualdades nas contribuições.

Grupos sociais e coletivos pressupõem fundamentalmente desigualdades. E as desigualdades também variam. Tem alguém que compõem mais que os outros? Quem fez aquele acabamento que foi o diferencial que resultou no sucesso daquela música?

O argumento de Harket é que, em relação a “take on me”, foi “aquela nota do meio que desencadeou tudo”, e ela “veio de mim”. Por isso, ele não acha justo a divisão 16,6% para ele e 83,4% para os outros dois membros.  Ele acha que recebe “menos do que merece”, embora não seja o autor da letra.

Os colegas de Harket reconhecem que “ a beleza e a voz de Morten” tiveram papel fundamental no hit. Mas, a divisão 83/16 persiste. Hoje, apenas no Spotify, são 25 bilhões de reprodução.

A reclamação de Morten Harket expõe o inconformismo de um membro que se sente injustiçado na partilha dos recursos conquistados. Partir de uma igualdade absoluta é sempre um caminho preguiçoso e injusto  quando nos referimos a um trabalho que é cooperativo como a música produzida por uma banda.
Provavelmente, existem bandas que são mais ou menos cooperativas e em que os recursos conquistados são mais ou menos desigualmente distribuídos. A equação da busca da igualdade pressupõe o reconhecimento dos mais diferentes tipos de desigualdade que constitui o trabalho de produção musical  e de distribuição dos recursos obtidos.

A igualdade jamais será conseguida porque os indivíduos são sempre muito diferentes e, portanto, interagirão desigualmente, e também porque o processo de criação tem mensuração difícil.
Guitarristas, tecladistas e, vocalistas e cantores em geral, estão sujeitos a várias doenças ocupacionais, principalmente devido a movimentos repetitivos, postura inadequada e longos períodos de prática  (tendinites, bursites), doenças e lesões por causa do uso excessivo da voz. O que nos mostra que, enquanto recursos, podem ter vida curta.

A idade também afeta o desempenho de guitarristas, tecladistas e vocalistas. A idade afeta a performance vocal dos vocalistas, mas a extensão e o tipo de mudança variam consideravelmente entre indivíduos. Harket, que tem 66 anos, declarou que está com doença de Parkinson.

Pela idade dos membros do A-ha, eles têm pouco tempo e não vão resolver um problema que a sociobiologia tem estudado e pelo qual tem sido mal vista pela intelectualidade progressista: a de que cooperamos, mas lutamos pelos nossos auto-interesses sempre e, muitas, vezes ele não combinam com o interesse do grupo.

A próxima vez que você se deparar com um ato de bondade na televisão ou na vida real, lembre-se de que as raízes desse comportamento podem ser muito mais profundas e complexas do que parecem.

Longe de ser uma simples expressão de “bondade pura”, o altruísmo é um fenômeno multifacetado, moldado por milhões de anos de evolução. A sociobiologia não desvaloriza a bondade humana, mas a contextualiza dentro de um quadro científico rigoroso, mostrando que, mesmo quando o sol parece brilhar para todos, há uma intrincada dança de auto-interesses  por trás do espetáculo.

André L. Ribeiro e Lacerda é professor na Faculdade de Ciência e Tecnologia da UFMT, campus de Várzea Grande-MT.  

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