Carregando...
Opinião

Os privilégios de Michel Foucault e a condição de Suzana

Foto de André Luís Ribeiro Lacerda
André Luís Ribeiro Lacerda

Em entrevista concedida a uma revista, perguntada se não se achava muito velha para estar se relacionando com um rapaz mais de 40 anos mais jovem que ela, a atriz brasileira Suzana Vieira disse que ela, como Pelé, era uma estrela e que para estrelas a contagem do tempo na idade não se aplicaria.

Esta ideia sugere, entre outras coisas, que, para certos grupos, regras e expectativas não se aplicam. Se isso for verdade, pode-se dizer que membros de certos grupos teriam privilégios comparados com o cidadão comum. Chamo essa ideia de condição de Suzana.

Ao longo da vida de um indivíduo, ele tem que mudar comportamentos para se adequar ao clima cultural de sua sociedade. Há vinte anos, era permitido fazer piadas racistas, hoje, no entanto, quem se arriscar a fazê-las enfrentará constrangimentos. A França dos anos 1970 não é a mesma de hoje, mas muitas coisas que não eram permitidas nos anos 1970 continuam a ser proibidas hoje.

Por exemplo, em 26 de janeiro de 1977, o jornal Le Monde publicou uma carta aberta contra três cidadãos franceses acusados de ter tido relações sexuais com meninos e meninas com idades entre 13 e 14 anos. Dois deles estavam presos desde o ano de 1973.

Em março de 2005, sessenta e seis homens e mulheres foram julgados na França, num dos maiores casos criminais do país, sob acusações de estupro e abuso sexual contra crianças. O julgamento aconteceu num salão especialmente construído na cidade de Angers, no oeste da França.

Em seu livro publicado em 2021, My dictionary of bullshit, o escritor e professor franco-americano Guy Sorman afirma que o famoso filósofo francês Michel Foucault seria um pedófilo. Sorman, em uma viagem a Túnis, capital da Tunísia, teria presenciado Foucault combinando encontros sexuais com crianças árabes no final dos anos de 1960, quando o visitou nos arredores de Túnis.

A declaração de Sorman gerou um grande mal-estar na classe intelectual francesa e entre seguidores de Foucault. Muitos atacaram Guy Sorman, e tentaram desacreditar seu relato, mirando suas posições políticas enquanto intelectual economicamente defensor do liberalismo; outros procuraram questionar a precisão de seu relato.

Alguns críticos da obra de Foucault viram na denúncia de Sorman mais um elemento para desmerecer seu trabalho. Entramos aqui naquela velha discussão: a vida de um autor é importante para entender sua obra? Marcel Proust dizia que não. É preciso olhar apenas para a obra. Outros dizem que sim. O próprio Sorman afirma que conhecer as infâmias ou boas ações do autor enriquece a leitura e a visão que temos da obra.

Sorman ficou surpreso com a celeuma que sua informação sobre Foucault provocou. Segundo ele, revelar que Foucault era um pedófilo não era uma novidade, não era uma notícia. Em 1977, Foucault assinou um manifesto que exigia que nenhuma lei proibisse relações sexuais com crianças. Foucault, segundo Sorman, teria sido um pedófilo declarado em sua época e isso não chocava ninguém.

Irracionalismo

Se pedofilia era crime na França nos anos de 1970, como Foucault conseguiu não ser punido? Por que agora estavam todos impressionados? Desfrutou Foucault da condição de Suzana consciente ou inconscientemente? Sorman diz que Foucault era cego em relação a sua pedofilia.

José Guilherme Merquior escreveu uma avaliação da obra de Foucault denominada Foucault ou o Niilismo de Cátedra. Nela, Merquior considera imerecida a grande fama que Foucault tinha nos anos 1970, 1980, na medida em que ele defendia o irracionalismo. Seja expressando sua simpatia pelo Califórnia enquanto berço da contracultura, seja apoiando efusivamente a revolução do Aiatolá Khomeini no Irã, Foucault mostra certa simpatia pelo desvio.

Merquior faz também ressalva à popularização da filosofia de Foucault. Embora Foucault se autodefinisse como um historiador do presente, Merquior considera-o um “lítero-filósofo”. No mundo anglo-saxão, a filosofia normal era acadêmica no estilo e analítica no método. Na França, a” lítero-filosofia” constituía um gênero misto que não primava pelo rigor metodológico. Segundo Merquior, a maneira como Foucault utiliza as palavras mantém-se “a milhas de distância das cautelas da filosofia analítica”, o que dá a Foucault certa permissão para declarar aquilo que lhe convém.

A questão que se impõe, a nosso ver, é: sendo Foucault quem foi, um intelectual polêmico, engajado em causas políticas, algumas delas condenadas até nos dias de hoje, como a pedofilia, por que seu comportamento não é condenado? Por que grande parte da intelectualidade francesa insiste em defender Foucault de comportamentos criminosos, como a pedofilia? Sorman diz que Foucault oferecia dinheiro para garotos árabes pobres em troca de sexo. Ele, Foucault, um homem branco, poderoso, que escreveu sobre a microfísica do poder, explorava garotos pobres de um país pobre.

Quando se avalia produções de conhecimento, os vínculos entre o que um autor defende e suas práticas sociais podem vir à tona. Não estamos estabelecendo vínculos entre a prática pedófila de Foucault e sua obra. O próprio termo conhecimento é apresentado de uma maneira muito ampla. Ao investigá-lo empiricamente, sabemos que conhecimento científico é diferente de conhecimento filosófico, matemático. Tal como Nietzsche diz, em determinados tipos de obras filosóficas ou mesmo das ciências sociais, o comprometimento dos valores e crenças dos autores é bem maior do que em trabalhos mais técnicos.

Mas, em todos os tipos de produção de conhecimento pairam nuvens ideológicas sobre seus autores, bullshits. Bullshits são mentiras que pretendem se passar por verdadeiras. A “lítero-filosofia” de Foucault não escapou delas; na verdade, parece ter promovido várias, o que deu a seu autor muito prestígio em um certo momento e permitiu a ele desfrutar dos privilégios da condição de Suzana. Mas, talvez tenha chegado a hora de conceder a elas o seu devido valor, concordaria Foucault, o historiador do presente.

André L. Ribeiro-Lacerda é psicólogo cognitivo, sociobiologista e professor de sociologia na UFMT, campus Cuiabá.

Notícias em primeira mão

Junte-se à nossa comunidade exclusiva no Whatsapp e seja notificado sobre os furos de reportagem e análises profundas antes de todos.

Últimas Notícias

Oportunidades

Fisioterapeuta traz a Cuiabá protocolos apresentados em congresso internacional sobre lipedema

Especialista que acaba de palestrar em Lisboa levará aos profissionais de saúde protocolos atualizados de diagnóstico e tratamento da doença durante capacitação presencial nos dias 16 e 17 de julho
Política

Pivetta espera receber apoios de Abilio Brunini e Flávia Moretti na campanha eleitoral

Governador afirmou que declarações de gestores virão na hora em que sentirem à vontade para demonstrar a sua confiança no governo
Política

Governo de Mato Grosso cogita privatizar a gestão da Arena Panantal

Arena teria custo de R$ 20 milhões ao ano para manutenção, e o Estado não tem condições para administrá-la com foco no comércio
Política

Zé Medeiros participa da inauguração da Casa da Direita e defende impeachment de Alexandre de Moraes

Deputado federal relembrou a trajetória do movimento conservador, pediu união da direita e afirmou que o espaço será voltado à mobilização e ao debate político