A conquista por espaços talvez seja um dos temas mais recorrentes entre as pessoas trans. Mas a professora, historiadora e jornalista Astrid Beatriz Bodstein, 50 anos, avalia que conseguiu chegar onde gostaria. Para ela, mais que a conquista de espaços, o que vale é conquistar pessoas. E para isso, Astrid revela que a “postura” é a chave de tudo.
Professora de boas maneiras, etiqueta, monarquia e realeza, Astrid é uma figura icônica. Em seu círculo de amizade convive com príncipes e princesas, além de referências nacionais do comportamento e de etiqueta.
Vinda de uma família de classe média, cujos pais eram funcionários públicos, Astrid se avalia como alguém privilegiada. Isso porque é uma mulher branca, que mora em uma área nobre, e teve acesso uma boa educação.
Astrid aponta que essas características a protegem de menos preconceito declarado, e acaba garantido certo nível de “passabilidade”, que ocorre quando uma pessoa trans passa despercebida em relação à sua identidade.
“Toda pessoa trans quando sai de casa já está militando, sobretudo sobre a questão da passabilidade. Se eu sou uma pessoa que ninguém me detecta, eu não tenho problema nenhum. Mas quando alguém me detecta, as reações são variadas”.
Militância
Astrid já foi presidente do Grupo Brasileiro de Transexuais (GBT), criado em 1995. À época, o grupo atuava para proporcionar intercâmbios de experiência entre pessoas trans, e com isso, fortalecer a autoimagem e a autoestima.
“Eu investia recursos próprios, mandava cartões postais com mensagens de autoafirmação, e para criar uma cultura de identificação. O grupo durou até 2001. Eu já estava em outra conjuntura em minha vida. Eu não queria mais me expor tanto”, relata Astrid.
Ela conta que foi a primeira mulher trans a estudar na UFMT, e que em 2000, quando começou a estudar jornalismo teve que enfrentar as dificuldades de não ser reconhecida pelo nome identitário por alguns professores.
Hoje, Astrid se considera uma mulher de direita, e afirma que a questão do liberalismo econômico – com menos intervenção do Estado – é um dos fatores que a faz se identificar com essa corrente política.
Por essa razão, Astrid já chegou a ser chamada de fascista por pessoas trans e gays que militam na esquerda.
“Muitas pessoas trans e gays me chamam de fascista, por conta de diferenças ideológicas. Mas essas pessoas não têm decência de olhar para trás e ver que passou alguém que deixou uma imagem de competência, dignidade, inteligência. E isso tem a ver com minha formação pessoal de família e também monarquista”, ressalta.
Monarquia e etiqueta
Como monarquista, Astrid é considerada uma referência. Ela estuda o assunto desde os 16 anos de idade. Já conheceu basicamente toda a família Imperial do Brasil, e mantém amizade com alguns membros dentre os descendentes da realeza como o príncipe D. João Henrique de Orleans e Bragança.

Outra amizade, que Astrid faz questão de destacar é com a jornalista e escritora Claudia Matarazzo, que é uma referência nacional em etiqueta e comportamento.
“Eu tenho contato quase que diário com a Claudia Matarazzo, que é uma papisa sobre etiqueta e boas maneiras. O mais legal de tudo é que ela valida o meu conhecimento e o meu trabalho. Isso é mais que conquistar um espaço, é conquistar pessoas”, ressalta.
Ser diferente
Astrid aponta que um grande diferencial a qualquer pessoa, principalmente, a uma pessoa trans é a postura.
Segundo ela, sua postura de uma mulher com boas maneiras, educada e intelectual foi responsável por cativar pessoas.
“Eu sou o que sou, sou diferente, mas não sou melhor ou pior do que ninguém. Em alguns temas eu até sou melhor, mas porque estudei”, destaca.
Para Astrid, o fato de ser de direita, monarquista e trans, não deveria causar espanto, porque é uma questão de estar onde quiser.
“Isso deveria ser intrínseco a todo mundo, as pessoas simplesmente deveriam estar onde gostariam de estar, inclusive nas igrejas. Eu sou adventista e frequento os cultos”.
Ela reconhece que a aceitação é um tema mais complicado quando se trata de pessoas trans. “Porque a sociedade já desenvolveu um grau de tolerância maior em relação à homossexualidade”.
A professora avalia que diante de pessoas trans, ainda existe muita resistência. “A impressão é que as pessoas ainda pensam: nossa, deu um passo a mais? Nossa, é demais!”, afirma.
Quanto à divisão política e ideológica que muitas vezes coloca em conflito pessoas trans ou outras minorias, Astrid aponta que muitas pautas como divisão de renda, e direitos humanos foram “sequestradas pela esquerda”, e a muitos da direita acabam generalizando quem apoia essas bandeiras como se fosse de esquerda.
“Eu sou uma defensora dos direitos humanos, talvez não como direcionou a esquerda”, avalia.
Falando de espaços
Outro espaço conquistado por Astrid é a sala de aula. Professora há 10 anos, ela conta que nunca teve nenhum problema de rejeição por parte dos alunos ou de seus pais.
“Eu desenvolvo com eles um relacionamento extremamente respeitoso e afetuoso”.
Astrid avalia que isso tem a ver com sua “postura enquanto pessoa”, e que faz com que a condição de mulher trans seja vista como irrelevante nesta conjuntura.
Palestrante
Além de professora, Astrid também é palestrante e oferece cursos de boas maneiras, etiqueta, além de abordar questões de gênero. Para conhecer melhor seu trabalho, basta seguir no instagram: @astridbeatrizbodstein




