Workaholic e a depressão

Será que trabalhar excessivamente, ter metas a atingir, abrir mão dos sentimentos e afetos, da família, pode nos levar à loucura?

(Imagem: EBC)

Em setembro de 2019, às vésperas do Dia Mundial para Prevenção ao Suicídio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lança ao mundo o primeiro relatório global sobre o tema anunciando que uma pessoa morre a cada 40 segundos por suicídio no planeta.

Existem muitas teses a respeito, mas o que mais dizem os psicanalistas que estudam o fenômeno é que o ser humano não comanda mais a sua vida. A angústia da certeza de que um dia vai desaparecer (morte), de que não controla o tempo, lhe é imposto a progredir, produzir, empreender e termina por gerar angustias e desprezo pela vida.

Esta semana tive o privilégio de ver duas palestras interessantes sobre “Os Workaholic” da filósofa brasileira e professora de Filosofia da USP, Scarlett Marton uma especialista na filosofia de Friedrich Nietzsche.

A segunda palestra foi com a psicanalista Maria Rita Kehl que também é jornalista, ensaísta, poetisa, cronista e crítica literária brasileira. Em 2010, venceu o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria “Educação, Psicologia e Psicanálise” com o livro “O Tempo e o Cão – A Atualidade das Depressões”.

As palestras fizeram parte do programa “Café Filosófico”, produzido pela TV Cultura em parceria com o Instituto CPFL

Confesso que levei um choque ao ouvir a percepção das estudiosas sobre a condição do homem contemporâneo, a depressão e a conjuntura histórica que levou o homem ao vicio ao trabalho. O que para mim era um orgulho da minha condição genética é nada verdade um doença psíquica, que sempre me causou problemas a ponto de chegar uma vez a ouvir que ao querer ajudar demais atrapalhava.

Raízes antigas

Voltando às pesquisadoras, Scarlett inicia sua palestra lembrando que o desassossego, a aceleração, o vício ao trabalho tem raízes muito antigas. Ela cita o filósofo francês, Bolouse Pascal|(1623 – 1620) que apontou que o desassossego do homem vem da vontade de esquecer da sua situação miserável de ser um ser finito.

Por isso não foi tão difícil para o capitalismo introduzir a cultura do trabalho como valor central das sociedades em todo o planeta. Marton lembra que no auge do período grego romano, o trabalho significava tortura, labor tinha o significado de fadiga. A partir do século 18 com a Revolução Comercial e no século 19 com a Revolução Industrial surge a classe trabalhadora. A Revolução Francesa em 1789 cria o Direito ao Trabalho.

A produção passa a ser o alvo central e surge a busca incessante pelas potencialidades comerciais. Muda a cultura e a educação. No entanto a professora da USP, Scarlett Marton cita a contraposição da Inglaterra que em 1865 cria uma lei reduzindo a jornada de trabalho até 10 horas. Depois de 10 anos a mesma Inglaterra dobrou a sua produção industrial.

Mesmo assim, o abismo emocional da raça humana seguiu o caminho sombrio das obsessões, dos vícios e ai entra o workaholic, uma dependência psíquica como qualquer outra mas esta estimulada pelo capitalismo, o consumismo, nos levando sempre ao ponto crucial das depressões, um buraco fundo na alma.

Direito à preguiça

Em 1849, o revolucionário jornalista Paul Lafargue lança o manifesto “O Direito à Preguiça”. Este ensaio termina por reconsiderar, segundo as tradições clássicas do humanismo, e mesmo da tradição religiosa, a diminuição do trabalho e o ócio como possibilidades de desenvolvimento humano – da contemplação, do espírito, do pensamento, da cultura, da saúde -, desafiando os educadores para novas atitudes.

Curiosamente, Paul Lafargue era genro de Karl Marx. Scarlett ainda aponta o Manifesto contra o Trabalho”, lançado pelo filósofo inglês, Robert Kurz em 1943, membro do grupo Krisis.

Por fim, pela primeira vez me enxerguei uma workaholic, uma obcecada pelo trabalho, abrindo mão de viver a vida que pela graça de um poder superior me foi oferecida. Scarlett Marton orienta a descobrirmos os benefícios da lentidão que nos proporciona atenção e viver o presente. E a preguiça como uma ferramenta de saúde mental, de resistência ao vício do trabalho.

Mas será mesmo que trabalhar excessivamente, ter metas a atingir, abrir mão dos sentimentos e afetos, família e até entrar na onda do lazer como se tudo seja parte da lógica do trabalho, nos leva à loucura? Para a psicanalista Maria Rita Kehl, em sua palestra no Programa Café Filosófico sobre “Aceleração e Depressão”, tudo faz parte de uma grande teia depressiva, que nos fez perder o rumo de nossas vidas. “Perdemos o valor da experiência”, diz ela.

Nada a ver com tranquilizantes

A valorização do estado de consciência é pobre, “serve para aparar percepções e devolver reações”. Com a máxima “tempo é dinheiro” fica impossível encontrar tempo para a busca interior.

A psicanalista nos leva a pensar que grande parte do tempo do homem é expropriado pelo trabalho e não sabemos mais qual é o nosso tempo. Se tudo é feito muito rápido, não conseguimos criar nossa história psíquica e acabamos achando que não fizemos nada por aqui, dá o vazio. “A aceleração do tempo tem a ver com a aceleração do capital”, diz.

Na sua análise, uma característica do deprimido é a sensação de que o tempo não passa. Ao fim da jornada de trabalho ele não deseja nada para o depois. Maria Rita cita o psicanalista Freud, ao afirmar que a aceleração de passagem do tempo passa por três sistemas psíquicos: signos perceptivos (presente), as marcas mnêmicas e a memória inconsciente. “Essa ligação em série permanente permite criar a representação da obra psíquica das sucessivas épocas da vida”.

A valorização do consciente como o mais importante sistema psíquico é um erro. Maria Rita confirma sua importância quanto aos estímulos, memória, pensamentos,funções físicas. “Os outros sistemas  psíquicos nos permite pensar, encadear raciocínios, fantasiar, sonhar, dar nomes aos nossos desejos. Esses sistemas precisam estar ativos durante todo o nosso tempo”, alerta.

A receita da psicanalista não tem nada a ver com tranquilizantes, antidepressivos e ansiolíticos.

“É preciso aprender a bloquear a rememoração, as fantasias. Para aqueles que exercem profissões que exigem atenção constante, respostas velozes durante muitas horas do dia e velocidade o alerta quanto à saúde mental deve ser levado a sério. Estão propensos ao stress, ao afastamento do trabalho, sentimento de vazio, falta de sentido de viver.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros





Aceito que meu nome seja creditado em possíveis erratas.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigo anteriorCom a Bíblia na mão, pregador evangélico beija menina de 14 anos à força
Próximo artigoSomos o reflexo do que comemos? Fotógrafo registra hábitos de criança do Alto Xingu