Vidas que se cruzam em busca de abrigo

(Foto: Ednilson Aguiar / O LIVRE)

O charme do professor Carlos Alberto e seu inglês e espanhol fluentes não foram o suficiente. Elizabeth preferiu se separar. Se mudou. Foi pra longe. E como já era de se esperar, seu andar espevitado e alegre logo chamou a atenção de outro olhar. Pedro, que há tempos vivia sozinho, se encantou assim que a viu. Não demorou, começaram a namorar.

Tudo ia bem, até que Carlos Alberto, depois de um de desentendimento familiar, também teve que deixar o local que chamava de lar. Coincidência, ou não, acabou mais uma vez nas redondezas de onde Elizabeth agora está.

Seria um romance como tantos outros contados em livros, poemas e filmes, não fosse um detalhe: Elizabeth, Pedro e Carlos Alberto já passaram dos 60 e o local onde os três vivem, juntos, é a Fundação Abrigo Bom Jesus, um dos primeiros asilos filantrópicos de Cuiabá.

Dos três, Pedro Müller, 69 anos, foi o primeiro a chegar. Assim como tantos outros moradores do local, foi por contra própria. Tomou a decisão após se divorciar, segundo ele, amigavelmente da ex-esposa. “Fomos numa juíza que era amiga nossa, de mãos dadas, assinamos tudo e estava feito”.

Gaúcho, vivendo em Mato Grosso desde 1979, comprou um apartamento no Rio Grande do Sul e deixou para ela e seus três filhos. Ao retornar para Cuiabá, uma série de problemas financeiros lhe impediam de continuar bancando as despesas de uma vida sozinho. Pedro acabou optando por um albergue de onde, meses depois, conseguiu ser transferido para o abrigo. E lá se vão sete anos.

Elizabeth Peixoto Oliveira, 65 anos, chegou ao Bom Jesus cerca de três anos depois de Pedro. O motivo também foi o divórcio, mas, diferentemente dele, ela foi contrariada. Com os filhos morando em Brasília e no Rio de Janeiro, Beth, como como prefere ser chamada, se viu sem opções.

Sorte de Pedro. “Ela entrou ali e eu falei: opa! No começo ela me achou muito avançado, mas fomos convivendo e estamos aí. Vamos ficar junto um bocado de tempo ainda, se Deus quiser”, ele conta.

A companhia animou os dias dela. “Logo no início, eu me sentia muito sozinha. Sentia falta de pessoas próximas, de amigos. Quando o conheci, tudo foi sanado”, lembra.

Ednilson Aguiar/O Livre

Abrigo Bom Jesus

Elizabeth Peixoto Oliveira, 65 anos, e Pedro Müller, 69 anos

 

Hoje, o casal faz planos de, um dia, ter uma casa só deles. A condição financeira é que continua sendo um impedimento, de acordo com Pedro. Beth ainda não conseguiu se aposentar e o salário que ele recebe não é o suficiente para manter os dois.

No abrigo, eles dormem em quartos e pavilhões separados – existe uma ala para as mulheres e outra para os homens. Pedro afirma que até existem quartos para casais, mas são muito disputados e, atualmente, estão todos ocupados.

“Nós já moramos, inclusive, num quartinho juntos, mas deu um contratempo. Ela é meio nervosa, meio bravinha (risos). Agora estamos tentando de novo”, ele diz.

A rotina do dia a dia é compartilhada com outros 87 idosos, entre eles, o ex-marido de Beth, Carlos Aberto Couto. Mas, diferente do que seria em filmes ou livros de romance, (quase) não há conflitos.

O motivo da separação, nem Carlos Alberto, nem Beth revelam. Ela evita contato com o ex-marido durante a rotina no abrigo. Já ele, afirma com bom humor que, de vez em quando, ainda acontecem algumas brigas. “A Beth tem um gênio infernal”, diz sorrindo.

Para Pedro, a proximidade entre sua namorada e o ex-marido dela não é motivo para problema. “Eu sempre digo que o que aconteceu com ela e o que aconteceu comigo é um negócio que a gente põe uma pedra em cima. Eu me dou com ele [Carlos Alberto]. Eu converso, ajudo ele com a cadeira [de rodas]”, diz.

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Carlos Aberto Couto, “20 anos e uns quebradinhos”, conforme ele mesmo afirma

Segundo Carlos Alberto, foram quase 20 anos de união que, se dependessem dele, teriam durado mais. “Eu não queria separar dela. Eu gostava dela ainda. Gostava demais. Mas ela é terrível, quando não gosta de uma pessoa, sai de baixo”.

O professor aposentado faz parte da parcela de idosos que chegou ao abrigo por imposição da família. Passados quase dois anos, Carlos Alberto diz que já se acostumou com o local e que hoje gosta de viver lá. Seu sorriso desaparece, no entanto, ao afirmar que sente saudades da vida que tinha antes de chegar ali.

“Eu fui internado pelo meu irmão Osmar. Ele me tacou aqui, foi embora e depois morreu. Ficou com a cara de lata. Me colocou aqui contra minha vontade. Falou: rapaz, você está ficando velho, então vou internar você. E quem morreu primeiro foi ele”, diz.

A chegada e a família
Carlos Alberto, Beth e Pedro não tem mais contato com suas famílias. Segundo funcionários do abrigo, fazem parte do grupo de quase 90% dos idosos que chegam e nunca recebem visitas de parentes.

Juracy de Melo Fontana, de 84 anos, há sete no abrigo, é uma das poucas que ainda tem contato com os quatro filhos e os oito netos. “Eu tenho uma neta que mora no Chile e vem aqui me ver”, conta.

Adepta de uma filosofia de vida que prega o desapego material, ela afirma que o segredo para se sentir bem no abrigo – ainda que sem receber visitas da família – é se preparar mentalmente para essa nova etapa da vida.

“Eu decidi vir para cá porque eu queria ser livre. Filho fica cobrando que a gente tem que descansar, que não pode fazer as coisas. Eu queria viver a minha vida do meu jeito. Eu adoro isso aqui”, afirma, lembrando que a ideia, inicialmente, não foi bem aceita pelos filhos.

Ednilson Aguiar/O Livre

Abrigo Bom Jesus

Juracy de Melo Fontana, de 84 anos, há sete no abrigo

Outros, como Pocidônio Bruno de Almeida, 73 anos, há 16 morando no local, encontram na Fundação Bom Jesus uma alternativa bem melhor que uma vida de privações financeiras. Trabalhador rural e ex-garimpeiro, ele conta que vivia no Distrito da Guia, em Cuiabá, e descobriu no abrigo um local onde não passaria mais fome.

“Escutei no rádio falando que tratavam das pessoas idosas no abrigo, daí eu vim para Cuiabá. Cheguei na Prainha e perguntei onde era. Falaram para pegar a avenida mais movimentada de carro e, depois da brigada militar, eu ia ver a porteira. Cheguei, almocei e daí me internaram”, lembra.

Na época, segundo Pocidônio, “velho nenhum queria fugir”. “Aqui tem o que comer e o que beber. Minha roça era pequena e o garimpo também não prestava mais. Não tem lugar melhor do que aqui”, sustenta.

Ednilson Aguiar/O Livre

Abrigo Bom Jesus

Pocidônio Bruno de Almeida, 73 anos, há 16 morando na Fundação

 

Para manter todos os 89 idosos e pagar os salários dos 51 funcionários – entre os quais estão nutricionistas, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais – a Fundação conta, principalmente, com doações da comunidade.

Um repasse mensal é feito pela Prefeitura de Cuiabá, que banca a estadia dos idosos que o município encaminha para o local. Além disso, um bazar costuma ser realizado para vender as roupas doadas pela população e que não servem para os moradores do abrigo.

A principal necessidade é por fraldas descartáveis para adultos, luvas de látex para os cuidadores e outros materiais de higiene pessoal. A instituição também conta com a doação de cestas básicas e apoio financeiro.

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