Verdevaldo e o classismo nosso de cada dia

George Whitefield, no século XVIII, pregava sobre a igualdade para multidões de colonos britânicos na Virginia

Achei engraçadinho quando começaram a chamar o Greenwald de “Verdevaldo.” O abrasileiramento do nome traz bom humor para a conversa, e mais do que isto, evoca uma desimportância, substituindo a falsa autoridade imposta pelo nome estrangeiro pelo teor comezinho às vezes sentido em nomes multissilábicos terminados em “valdo.”

Rosevaldo, Fredisvaldo, e agora o Verdevaldo, soam como nomes apropriados para o dono da venda, o auxiliar de pedreiro, mas não para ser o nome de um jornalista internacional.
O humor da alcunha está aí. Além de abrasileirar, o nome “Verdevaldo” faz uma alusão à classe social. Comum no Nordeste, a prática de amalgamar nomes não é bem vista no Sudeste. O Sudeste tem a primazia socioeconômica, estipulando o que é considerado honorável ou não, e é entusiasta dos nomes simples, recusando a individuação excessiva dos nomes inventados que proliferam no Nordeste.

Portanto, o eco de Verdevaldo é carregado de preconceito antinordestino. Verdevaldo soa como nome de retirante, lembrando ausência de educação formal, trabalho braçal, classe baixa, o “paraíba” do Rio ou o “baiano” de São Paulo, os nordestinos genéricos do Sudeste.

O Brasil cultiva uma cosmovisão classista que se faz presente no mecanismo social, na arquitetura, na música, na maneira de as pessoas se vestirem e principalmente no mercado de trabalho.

Se você já foi a um apartamento de classe média numa grande cidade qualquer do Brasil, pode ver a casta na arquitetura. No fundo do apartamento um quartinho de dois metros por um e meio e um banheiro mais mínimo ainda, sem janela, com uma entrada à parte que leva à cozinha e à área de serviço, revela: ainda existe a senzala no Brasil do século XXI.

Você sabe a que classe a pessoa pertence pelo jeito dela falar, pelas roupas que usa, pelo carro, pelo bairro onde mora, e até pelo nome que tem. No Brasil a classe determina como se processa o relacionamento social, as oportunidades que ela vai ter na vida e os direitos que tem diante da lei. Somos o país onde a frase de Machiavelli – “Para os amigos os favores e para os inimigos a lei” – ganhou eco em Getúlio Vargas e se encarnou em nosso sistema político.

O PT e os partidos de esquerda deitaram e rolaram nesta noção intrínseca de desigualdade para construir seu sistema corrupto de poder e sua narrativa sobre as injustiças sistêmicas.

Mas a divisão não é um fato inexorável. Alguns fenômenos sociais são capazes de quebrar esta divisão e provavelmente o mais efetivo é a igreja evangélica. Assim como na América, me parece que algumas convicções profundas semeadas pela teologia Pentecostal estão produzindo um novo consenso de valor social no Brasil. Na América, George Whitefield, no século XVIII, pregando para multidões de colonos britânicos na Virginia ajudou a produzir a sociedade sem precedentes que nasceu em 1776.

A ideia da salvação individual que ele pregava, até então quase desconhecida, provocou ondas de avivamentos que chamavam para uma vida cristã holística, que cuidava do pobre e do necessitado, que se fazia presente em todas as esferas da sociedade e que valorizava a cada indivíduo como um cidadão. A partir de Whitefield os americanos rejeitaram a sombra da Europa injusta, de governo autoritário e sociedade dividida e lançaram as bases filosóficas de um Novo Mundo, onde todos são iguais diante de Deus e têm igual oportunidade de trabalho.

Teóricos liberais se esmeram hoje para semear a convicção de que o trabalho duro num mercado livre por si só vai gerar a sociedade justa com a qual sonhamos neste novo Brasil. Mas acredito que trabalho duro em si não gera mais justiça social. O que gera uma sociedade mais justa é o pressuposto básico da igualdade. Quando todos somos iguais, o trabalho do outro também merece um pago digno. As diferentes funções sociais e profissões se tornam complementares e todos têm acesso a viver com dignidade à custa de seu esforço próprio, ao invés de ter que contar com a esmola do Estado. A constituição indiana aboliu o sistema de castas no país em 1950; no entanto, na prática ele continuou existindo. A força da lei somente não opera o milagre da igualdade.

Na igreja evangélica se aprende que trabalho braçal não é desonroso e roupa velha não te faz menos gente. Para o evangélico, o grito primal da igualdade é o amor de Cristo. Porque Cristo nos ama primeiro, temos a obrigação de amarmos uns aos outros sem discriminação. Seu João do alto de sua origem aristocrata precisa de salvação tanto quanto o seu Manoel da venda, que é descendente de escravos. O Ricardo que estudou na faculdade precisa da salvação tanto quanto o Ricardo que trabalha tapando buracos na rua e nunca passou da quarta-série.

Engraçado é perceber que, apesar de nos termos nos livrado da esquerda, o novo direitismo ainda repete os velhos preconceitos que geraram o nosso Brasil estatista e aristocrático. A sociedade liberal depende de uma convicção de igualdade de valor entre os cidadãos que o Brasil do Verdevaldo ainda não cultiva.

Creio que a base teológica que pode nos salvar deste abismo de desigualdade está sendo nutrida pelas igrejas evangélicas, seja uma catedral revestida de granito, seja uma pequena garagem. Onde se prega salvação individual e o amor de Cristo, prega-se também a doutrina da igualdade de agência em sua melhor forma liberal. Declaro aqui a minha esperança. Que esta teologia venha a substituir num futuro próximo a percepção de valor relativo entranhada em nós, para que fiquemos livres do classismo elitista que atrasa o Brasil.

4 COMENTÁRIOS

  1. “A partir de Whitefield os americanos rejeitaram a sombra da Europa injusta, de governo autoritário e sociedade dividida e lançaram as bases filosóficas de um Novo Mundo, onde todos são iguais diante de Deus e têm igual oportunidade de trabalho.” (Bráulia).

    Whitefield nasceu em 1714 e morreu em 1770. Pastor anglicano, mente e orientação metodista, calvinista do calvinismo europeu importado, teve a Inglaterra, Estados Unidos e Irlanda como três campos de trabalho em um vai e vem pelo Atlântico. Morreu em Massachusetts. A rejeição da ‘sombra’ europeia ocorreu muito antes. Em 1776 veio a independência e Whitefield deve tê-la pressentido antes de morrer.

    O imposto do chá foi um dos primeiros estopins. E muito antes, em 1620, o Mayflower trouxera uma carga de protestantes puritanos independentes a mais não poder. Lá o que mais tarde convencionou-se chamar de ‘espaço-tempo’, dado o tamanho do país, a nação foi constituída. Pense em um país com carro e arma por pessoa! Possui-la é direito constitucional.

    Pode-se dizer com segurança que Ellis Island é o símbolo dessa sociedade firmada sobre um multiculturalismo incrível. Não esquecendo, nem por um momento, dos grandes deístas (Thomas Jefferson e outros) que formaram o caráter nacional, e o “et pluribus unum” (de muitos, um).

    Quer torrar a paciência de um americano? Converse com ele sobre justiça social. A menos, claro, que você seja do partido democrata e se alinha com aquelas novas figuras, Alexandria Ocasio-Cortez e troika que a acompanha mais o milionário senador socialista Bernie Sanders por Vermont.

    Estou lendo tudo o que consigo colocar a mão em Roger (o filósofo americano e não a pantomina brasileira que deve em quando pontua por aqui). Capto dele a ideia de que ‘justiça social’ é a suprema astúcia marxista. A justiça social é a igualdade supostamente inofensiva dos medíocres, escreve.

    Assim é a ideia marxista de ‘justiça social’ que ele destrói com um brilhantismo incrível em TOLOS, FRAUDES E MILITANTES (é o que mais dá entre os evangélicos e em artigos em uma revista supostamente evangélica) chega pela via do totalitarismo ao poder, escoa-se pelo ralo os costumes, a doação, hospitalidade, penitência, perdão e o direito consuetudinário.

    Neste ponto não resisto discordar do artigo de Bráulia que toma uma vertente sutil para sugerir a diferenciação entre o Nordeste e o Sudeste usando a feliz ideia do amalgamento para fazer comparações.

    Eis Roger Scruton contrapondo a ideia de justiça social a que este artigo de Bráulia se refere, “Mas acredito que trabalho duro em si não gera mais justiça social”. Não? O marxismo apregoa a ‘justiça social’ como variante:

    “Do mesmo modo, o objetivo da ‘justiça social’ já não é a igualdade perante a lei ou iguais reivindicações aos direitos da cidadania, como defendidas durante o Iluminismo. O objetivo é um rearranjo compreensivo da sociedade, a fim de que privilégios, hierarquias e mesmo a desigual distribuição de bens sejam superados ou desafiados. O mais radical igualitarismo dos marxistas e anarquistas do século XIX, que buscava a abolição da propriedade privada, talvez já não tenha apelo tão amplo. Mas, por trás do objetivo de ‘justiça social’, marca outra e mais obstinada mentalidade igualitária, que acredita que a desigualdade em qualquer esperar — propriedade, lazer, privilégio legal, posição social, oportunidades educacionais ou qualquer outra coisa que possamos desejar para nós e nossos filhos — é injusta até que se prove o contrário. Em cada esfera na qual a posição social dos indivíduos possa ser comparada, a igualdade é a posição padrão”. (p. 15).

    PS. Se alguém fez contribuição à essa separação da Europa, fico com Jonathan Edwards (1703 – 1758).

    • A melhor crítica contra a famosa “justiça social” para mim vem de Sowell, no seu livrinho “Cosmic Justice” que era primeiro um ensaio sobre justiça social escrito na década de 80 e depois foi engordado por Sowell com estatísticas do mundo inteiro, porque ele é assim, o filósofo-sociólogo-economista gosta de fatos.

      • “Um dos tristes sinais da nossa época é que nós demonizamos os que produzem, subsidiamos os que se recusam a produzir e canonizamos os que reclamam”. (Thomas Sowell). Concordo com a Sowell acima, se ele realmente disse isso.

        “Teóricos liberais se esmeram hoje para semear a convicção de que o trabalho duro num mercado livre por si só vai gerar a sociedade justa com a qual sonhamos neste novo Brasil.” (Bráulia). Aceito como convicção profunda que essa declaração seja verdadeira. Exceto, claro, para esquerdistas de plantão em uma certa revista supostamente evangélica.

        E olha que Sowell fez com que um liberal de cepa em economia, o Nobel Milton Friedman, por quem Sowell foi muito influenciado, considerasse Sowell um gênio.

        Assim, o parágrafo “TEÓRICOS LIBERAIS se esmeram hoje para semear a convicção de que o TRABALHO DURO num MERCADO LIVRE POR SI SÓ vai gerar a SOCIEDADE JUSTA com a qual sonhamos neste novo Brasil. Mas acredito que TRABALHO DURO em si NÃO gera mais JUSTIÇA SOCIAL. (Bráulia – destaques meus).

        Giram aqui dois conceitos, ‘sociedade justa’ não é a mesma coisa, conceitualmente, que ‘justiça social’.

        Numa sociedade JUSTA, a lei para sobre TODOS… mas esquerdistas de todos os naipes e cores esquecem que TODOS aí são DESIGUAIS. O DENOMINADOR comum e a lei, e esta é para TODOS (denominador na fração), mas a DESIGUALDADE sempre, sempre existirá no NUMERADOR (“Os pobres sempre tereis convosco” – João 12:8).

        No marxismo moderno, ou no meio esquerdista americano (‘liberals’), ensina Scruton, os marxisistas, esquerdistas, comunistas, socialistas, etc., querem fazer o NUMERADOR igual (Gates e o meu jardineiro iguais), ainda que seja necessário destruir as instituições que formaram a cultura Ocidental. Um mundo separa Gates e meu jardineiro, ainda que ambos estejam submetidos ao DENOMINADOR comum da lei. Um dos cabeças dessa construção diabólica é Hobsbawm, o estalinista desde criancinha.

        A primeira coisa que um comunista e variantes quer, e as quatro congressistas democratas se encaixam perfeitamente aqui é destruir a lei. Sem acabar com ela, sem acabar com o sistema legal americano do qual elas usufruem, o socialismo de um ‘democrata’ como Sanders não poderá se realizar. Por que não fazem isso na Russia? Na Turquia? Nos países muçulmanos? Não lhe parece curioso que só acontece em países verdadeiramente democráticos, como os Estados Unidos?

        Se Dade County em Miami tem ricaços de um lado e pobres de outro, trata-se de uma SOCIEDADE JUSTA sim, porque quem aporta seu yacht nos lagos artificiais e usufruem do melhor, não são culpados pelas condições de uma classe média, média-media, média e até baixa do outro lado da cidade. Tem Cubano rico sim senhor por lá! O dinheiro, admitindo que ele seja resultado do labor segundo a ética (Friedman) não obriga seu possuidor, a reparti-los, senão através de impostos (obrigatório) e filantropria (voluntarismo). Quem acha que dinheiro de rico em doação gratuita é para resolver problema social está completamente equivocado.

        Isso, porém, — ‘sociedade justa’ — é completamente diferente de ‘justiça social’. Admito, mesmo lendo muito pouco de Sowell (ele é sociólogo, não é minha praia, filosofia e história), que ele saberia fazer essa distinção conceitual entre uma coisa e outra.

        A primeira, ‘sociedade justa’, é de liberais democratas, a segunda, ‘justiça social’ (esquerdistas), é papo furado de marxistas ou ‘liberal’ à americana, as ‘quatro’ congresswomen, por exemplo.

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