Vamos escrever o Brasil!

É nossa tarefa nos explicarmos ao mundo. Não apenas por nossa causa, mas para que o mundo aprenda uma lição sobre democracia através de nós

Dilma no NYT: narrativa perversa que não muda

No começo do ano pensei em começar a escrever para a imprensa americana. Tentei enviar alguns artigos. Consegui publicar os que não se referiam diretamente a Bolsonaro. Os artigos que escrevi sobre as eleições, sobre a nova presidência e, claro, sobre a derrota do PT, foram todos rejeitados. Só para a National Review enviei três, rejeitado, rejeitado, rejeitado.

Até aí, tudo bem: não em sinto acima da possibilidade de rejeição. Aliás, ela é lugar-comum na minha vida, e creio que na de quem quer que seja que queira publicar. A rejeição em si seria normal se não fosse a ausência total de outros artigos sobre o tema escritos por outros comentaristas. Tudo bem que não quisessem os meus, mas que ao menos publicassem algum de outro escritor falando sobre o surgimento da direita na América do Sul, nas revistas da direita americana. Os poucos textos que eu li eram de detratores. Encarregavam-se de denunciar o novo governo como um “retorno à ditadura militar”, um retrocesso político terrível para um país que experimentava uma democracia mais ou menos sadia nos últimos 20 anos.

No primeiro mês do ano apareceu um artigo escrito pelo chanceler Ernesto Araújo na The New Criterion[1]. Boa oportunidade, mas infelizmente um artigo ruim. Melhor não escrever do que fazê-lo mal, vociferando acusações contra a esquerda de uma maneira quasi-religiosa. Se os esquerdistas podem falar usando mentiradas e discursos de ódio, da direita é cobrado rigor acadêmico, precisão lógica, “coolness” emocional. Melhor pra nós. O alto padrão nos obriga ao exercício meticuloso da palavra. O chanceler não teve esta calma e a meu ver não conseguiu passar o recado.

A revista “The New Yorker” publicou em março um artigo infame de Jon Lee Anderson sobre Bolsonaro: “Jair Bolsonaro’s Southern Strategy (A estratégia sulista de Bolsonaro)” Outra pérola de clichês e mentiras. Respondi com uma peça da qual até me orgulhei: “The Procrustean Bed of Ideologues (A cama de Procusto dos ideólogos)” onde denunciava a sanha dos esquerdistas de medirem os fatos de acordo com a sua pseudo-moral. Novamente fui rejeitada pela NR. Mas na mesma revista poucos meses depois o articulista Jay Nordlinger, um conservador da antiga cepa, calmo, lógico, para minha surpresa publicou em agosto um artigo comparando Bolsonaro com Putin.[2]  Nada de substância: uma acusação leviana e irresponsável na época do infame factoide da Amazônia em chamas.

O Wall Street Journal foi a única mídia de peso, talvez devido ao trabalho de Paulo Guedes, que tem prestígio nos círculos econômicos americanos que publicou um ou dois artigos[3] louvando os méritos do novo governo. Mesmo assim, em um outro artigo mais recente o Journal ainda dá voz aos críticos do governo.

Ouvi uma vez um jornalista da Times com experiência de 30 anos no cenário internacional dizer em alto e bom som que a América Latina é irrelevante no que diz respeito ao cenário internacional. Não fede nem cheira. Talvez seja o isolamento linguístico, ou a cultura híbrida que temos nem ocidental nem afro-ameríndia que nos torna um “bicho” estranho no cenário internacional. Mas não, as nossas peculiaridades culturais ou característica linguística não é motivo para nos encolhermos à nossa insignificância e não nos preocuparmos com o   mundo. Muitos países igualmente distantes do ocidente conseguem se comunicar por aí.  Numa época em que a esquerda domina completamente a narrativa internacional os conservadores brasileiros deveriam estar gritando aos quatro ventos.  É nossa tarefa nos explicarmos ao mundo. Não apenas para ter uma boa imagem lá fora, mas para que a lição que está sendo aprendida aqui possa ajudar a experiência de outros.

É fácil explicar o Brasil para outros? Não é.  Moro numa casa de uma senhora escocesa. No dia em que o STF votava sobre a prisão na segunda instância, minha indignação era tanta que eu senti vontade de comentar com alguém sobre o assunto. Expliquei para ela. A senhora é culta, tem mestrado em psicologia. Expliquei três vezes. Ela balançou a cabeça em total incredulidade.

“Não, você deve estar confundindo os termos jurídicos”, disse-me ela. ”É claro que já deve estar na cadeia, esta pessoa que aguarda o ‘trânsito em julgado’” – um termo obscuro ao qual nos acostumamos – mas que significa na prática o ultimo apelo possível para a corte suprema do país…

Insisti que não, que eu era assim mesmo. Ela então pergunta o óbvio: “Então a suprema corte de seu país vai ter que considerar o apelo de todos os casos criminais do país? Para que servem as cortes inferiores então?”.

Eu poderia ter respondido que só quem tem muito dinheiro terá esse privilégio de apelar infinitamente até atingir a Suprema Corte e assim efetivamente evitar a pena. Só os donos do “establishment” político ou os chefões do crime organizado. “Bandido pobre vai pra cadeia, dona.” Mas não, preferi me calar de vergonha. Falar dessa absurda desigualdade da nossa (in)Justiça seria ainda pior. Não dá pra explicar. Assim como não dá para explicar por que os principais meios de mídia agora focalizam na possibilidade remota do envolvimento de Jair Bolsonaro no assassinato de uma vereadora – e deixam de falar da denúncia importante do envolvimento do ex-presidente Lula no assassinato do prefeito Celso Daniel, por um ex-camarada seu. O mandante do crime, protegido por muitos anos, se depender da mídia brasileira,  vai continuar oculto do povo.

Os americanos ficam “absurdados”, e confusos  com toda razão Somos um país difícil de ser entendido. E vamos continuar a ser se alguns de nós não nos voluntariarmos a escrever. Acho que minha intenção ao escrever este texto foi só uma. Apelar aos autores brasileiros. Vamos escrever o Brasil, gente. Sem isto não vamos nunca mudar essa narrativa perversa que se criou sobre nosso país.

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[1] https://newcriterion.com/issues/2019/1/now-we-do
[2] https://www.nationalreview.com/corner/the-power-of-national-pride/
[3] https://www.wsj.com/articles/brazils-market-revolution-11569785928

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