Uns com luvas e máscaras, outros não: policiais temem exposição

Para cumprir missão nas ruas, eles receberam álcool gel. Enquanto isso, o governo de MT tenta viabilizar luvas e máscaras

Ao circular pela cidade, nosso repórter fotográfico, Ednilson Aguiar, flagrou situações em que um policial está protegido e o outro, não (O LIVRE)

Em grupos de WhatsApp não-oficiais da corporação, em que trocam informações diariamente, policiais militares têm manifestado receio em sair às ruas e até da  proximidade entre eles mesmos durante o período em que estão trabalhando.

Os ânimos se acirraram depois que tiveram conhecimento que um soldado apresentava sintomas da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Além de realizar abordagens e atendimento a ocorrências, eles operam corpo a corpo pela conscientização da população: todos devem ficar em casa nesse período de isolamento social.

Na manhã de terça-feira (24), por exemplo, o 1º Comando Regional iniciou a “Operação Fique em Casa”, mais uma ação de enfrentamento para o controle do coronavírus orquestrada pelo governo do Estado.

Registro da PM: eles saíram às ruas ontem de manhã como primeira ação da Operação Fiquem em Casa, pela foto, sem EPIs

Por dia, mais de 1,5 mil policiais militares têm atuado nas ruas. Só na Baixada Cuiabana, são 500 homens e mulheres organizados em 200 viaturas.

Eles patrulham bairros, áreas comerciais e outros espaços públicos. Além de conter a criminalidade, agora têm a missão de fazer cumprir as medidas previstas no Decreto 419/2020, do governo de Mato Grosso.

No interior do Estado, 174 policiais participaram de rondas no último fim de semana.

Foram fechados bares, lanchonetes e comércios com lotação acima do permitido. Também  realizada a dispersão de aglomerações em casas, igrejas, praças, campos de futebol e notificados motoristas de aplicativo transportando passageiros no banco da frente.

Foram registrados ainda boletins de ocorrência contra uma clínica de Jaciara, que não atendeu às recomendações policiais e, por perturbação da ordem, contra moradores de Várzea Grande, que realizaram uma festa.

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Medo

Um policial que não quis se identificar diz que as conversas em que os colegas manifestam preocupação são recorrentes.

“Temos recebido vários vídeos de orientações de como agir, de como nos prevenir, mas se quisermos máscaras e luvas, vamos ter que comprar. Elas ainda não foram distribuídas. Se a gente for pegar nas unidades de saúde, vai ser desvio de finalidade não é mesmo?”.

Ele explica que não dá para cumprir também a orientação de permanecer afastado de uma pessoa.

“Imagina só, a gente trabalha dentro da viatura. Daí chegamos em casa, temos que fazer a assepsia dos materiais, na porta de casa. Lavar a farda que, normalmente, só temos uma”.

O militar ressalta que não se trata de querer abandonar a missão.

“Sabemos da importância do nosso trabalho, fizemos um juramento, mas acaba que fazemos parte, hoje, de um dos grupos mais vulneráveis”.

Neste fim de semana, eles receberam álcool gel. O produto foi doado ao governo.

“Mas não adianta só álcool gel. Precisamos de máscaras e luvas, pois não dá para cumprir à risca a necessidade do distanciamento”.

Distância para registrar ocorrências

Uma faixa divide o policial que vem da rua, do que registra o Boletim de Ocorrência

Outro policial que também preferiu não se identificar reclama que há distinção de prevenção dentro dos setores da polícia.

“Hoje me deparei com uma faixa na porta do Boletim Único [onde registram ocorrências] informando que eu deveria ficar do lado de fora. Então quer dizer que eu posso ir até à residência do indivíduo e colocar minha saúde em risco, mas o policial que trabalha no B.U., não? Eu posso contaminá-lo, é isso? Acho certo que todos se previnam, sem distinção”, desabafou.

Um terceiro policial disse que está mais tranquilo de trabalhar, por conta da redução de gente circulando pela rua, mas também se preocupa com a interação entre eles mesmos.

Poucos têm EPIs

“De dez, dois têm máscara. E contato temos o tempo todo. Eu já nem tenho ido mais para casa dos meus pais, fico assustado”. Ele reflete sobre a possibilidade de vir a ser infectado.

“A gente sabe que hoje está bem, mas semana que vem não sabemos. Os sintomas se manifestam bem depois. Quando eu chego em casa, penso que fiz várias coisas que poderiam ter facilitado o contágio. Eu já até me sinto contaminado, se isso não aconteceu, só Deus”.

Outro policial abordado pela reportagem, diz que teme contrair o vírus e levar para casa.

“Não sabemos se contraímos ou não, pois sabemos que há infectados que não demonstram sintomas. A sorte é que as abordagens já estão reduzindo. Só paramos pessoas em atitude suspeita”.

Protegido com máscaras e luvas, ele esclarece: “eu as comprei e estou usando desde hoje”.

“Mas não podemos parar. Por favor, peço que quem pode, fique em casa. Deixem que a gente fique na rua”.

Missão

O tenente coronel Dias, que atende pela comunicação da PM, disse que reconhece a preocupação dos policiais, mas ressaltou que, quando ingressam na instituição, todos  sabem do compromisso e do risco que correm.

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

“O medo do policial é natural a todo ser humano. Ele tem que ir pra rua porque é a nossa missão. Fornecemos álcool 70 e estamos instruindo, nas conversas ou via watts (meio mais coerente para evitar a contaminação).

Os policiais, sabemos que a confiança depositada pela sociedade exige uma postura de coragem, mas também, de cuidado com ele, com os colegas e com o próximo. Nós fizemos um compromisso e ele será respeitado.

A PM está buscando alternativas para proteger ainda mais os policiais. Mas é importante lembrar que a principal forma de evitar a contaminação consiste em não falar próximo a pessoa contaminada e lavar as mãos com frequência. Estamos providenciando mais materiais. Também fomos pegos de surpresa e o bem-estar do policial também é nosso foco”.

Segundo ele, já foi recomendado aos policiais que limpem as viaturas, patrulhem com os vidros abertos, utilizem o álcool em gel 70 e realizem abordagem respeitando a distância, quando possível.

Suspeita de coronavírus

Um policial que mora em Várzea Grande foi avaliado com suspeita de coronavírus. Em relação a este caso a PM informa que:

“A Polícia Militar informa que, em relação ao policial com sintomas suspeitos de coronavírus, as medidas foram adotadas de acordo com as recomendações do Ministério da Saúde e outras organizações de saúde pública.

O policial em questão estava em viagem de férias no Brasil, retornou no início deste mês e trabalhou normalmente porque não havia determinação ou recomendação para que entrasse em quarentena em função da viagem descrita. Cabe ressaltar que não apresentava sintomas ou qualquer suspeita de contaminação e não havia entrado em contato com pessoas com suspeitas da doença.

A partir do momento que apresentou sintomas suspeitos recebeu atendimento médico e entrou em quarentena de 14 dias, em casa, com a mulher e filho”.

Sobre as EPIs

“O Governo de Mato Grosso esclarece que está buscando de todas as formas possíveis a aquisição de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para todos servidores que continuarão trabalhando neste período.

Vale ressaltar que a dificuldade em adquirir este tipo de equipamento não é apenas do Estado de Mato Grosso, mas também de outros Estados e até mesmo países em função da grande demanda provocada pelo Coronavirus (COVID-19).

O Estado tenta neste momento viabilizar outras maneiras de adquirir estes produtos por meio de parcerias com associações e empresas. Vale ressaltar que neste fim de semana o Governo do Estado iniciou a distribuição de 200 mil litros de álcool 70 que já estão sendo distribuídos para a Segurança Pública e Saúde”.

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