Um PM e sua missão: aproximar a polícia e o cidadão

O tenente-coronel Sebastião Carlos Rodrigues da Silva fala ao LIVRE sobre seu papel como policial e pesquisador

No cargo há menos de um mês, o tenente-coronel se organiza para visitas a Consegs e bases de PC (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Credenciais não lhe faltam: três pós-graduações e um mestrado dedicados à gestão e elaboração de políticas de segurança pública mais humanizadas. Certamente que os conhecimentos dessas áreas fortaleceram a escolha do tenente-coronel Sebastião Carlos Rodrigues da Silva para a Coordenadoria de Polícia Comunitária da Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso.

No cargo há menos de um mês, ele deve iniciar em breve uma série de viagens por cidades de Mato Grosso para criar novas bases ou, ainda, dar novo gás às já existentes, que por um motivo ou outro estejam “adormecidas”.

Inspirada por um novo modo de atuação, a Polícia Comunitária revela um novo comportamento da segurança pública que se baseia em uma relação horizontal entre o Estado, representado pela polícia, e os cidadãos.

Tensão

O livro é resultado de estudo aprofundado sobre a Polícia Comunitária (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

O tenente-coronel e mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Mato Grosso é autor do livro “A Polícia Comunitária em Mato Grosso: Tensão entre Estado e Sociedade”, que acaba de ser lançado e é resultado de intenso estudo para seu projeto de mestrado.

E seguir com os estudos, chegando ao doutorado, é só uma questão de tempo.

“Estou só me planejando; afinal, concluí o mestrado em 2018 e preciso descansar um pouco. Mas sei que isso deve acontecer, pois tenho uma visão inquietante da maneira de pensar a polícia. Vejo a Polícia Militar como um ente extremamente fundamental para a sociedade, mas vejo que é preciso que ela deixe de atuar em algumas áreas que são muito mais eficientes do que somente ficar correndo atrás de bandido então, é por isso essa minha paixão pela polícia comunitária”.

No processo de pensar a relação entre a polícia e a sociedade, o coordenador da Polícia Comunitária em Mato Grosso realizou um processo desafiador. Estudá-lo do viés da opinião dos gestores de segurança pública era algo comum, foi então que decidiu desvendar o lado da sociedade. Nessa tensão entre um e outro, estariam os cidadãos aptos a atuar em conjunto com a Polícia Comunitária?

É preciso pensar no coletivo

O tenente coronel que acaba de assumir a Coordenadoria enfatiza que é preciso pensar no coletivo (Ednilson Aguiar/O Livre)

Foi então que em Cuiabá, realizou uma pesquisa em que cada um dos 650 entrevistados que moravam em áreas de atuação da Polícia Comunitária, respondia a 40 perguntas.

“Mas meu foco não eram as críticas. Eu queria saber se a sociedade cuiabana tinha os pré-requisitos para participar do projeto”. E desafiado por seu orientador, ampliou a perspectiva dos resultados, criando ainda, um grupo focal de escuta de dez líderes comunitários e também, de gestores da segurança pública, do secretário de segurança pública à época da pesquisa, até comandantes de bases de PC da cidade.

O que ele descobriu? “Que a sociedade cuiabana não está preparada para este projeto”.

Segundo o pesquisador, além de um sentimento de civismo é preciso uma postura de coletividade que pouco se faz presente. “Com base na pesquisa, nas entrevistas, dados analisados, constatei um pensamento individualista. O interesse pessoal ainda se sobrepõe quando por exemplo, se juntam pessoas para se fazer algo conjunto. E é isso que é a Polícia Comunitária”.

Para ele, é importante que a comunidade entenda que o projeto não é da polícia. É dela. “Só assim vai conseguir fazer com que muitos setores do governo precisem ir até ela para pensar algo”. Segundo o tenente coronel, a doutrina foi implantada em 1999, no Governo Dante de Oliveira, por impulso de um programa nacional, mas, os cidadãos ainda não tiveram esse despertar.

Doutrina serve de inspiração

“Enquanto isso, a Polícia Militar vem inspirando outros Poderes. Como é o caso do Ministério Público e do Poder Judiciário que, antes encastelados, têm dedicado sua atuação também a pensar iniciativas que visem a uma aproximação, visando ao bem-estar social”.

A Polícia Comunitária não existe sem essa relação horizontalizada. “É um novo pensar que complementa o princípio da polícia que vigia. É o encurtamento da distância”.

Ele exemplifica que, há uns cinco anos, não se poderia imaginar que policiais interagiriam em um grupo de rede social como hoje acontece no WhatsApp, com moradores de um bairro, por exemplo.

“A tecnologia só veio melhorar essa relação. O cidadão tem a oportunidade de ser ouvido, de contribuir. Precisamos dessa troca. Os problemas da segurança pública não são exclusividade de um ou de outro, é nosso. É por isso que estamos trabalhando hoje essa polícia muito mais aberta a críticas. Mas não só à crítica, à ajuda, principalmente”.

Vínculo

“Por exemplo, a mesma equipe que vai atender uma ocorrência de roubo em um estabelecimento, amanhã vai estar lá para prestar apoio. Às vezes o pouco que o policial pode fazer é ser uma voz amiga, e isso, pensando bem, pode valer muito, não é mesmo? Visitas a escolas, praças e tudo o mais que puder fazer para criar um vínculo, são iniciativas que fomentamos dentro da coordenadoria”.

Segundo ele, cursos são realizados constantemente para despertar essa consciência de mútua colaboração nos policiais. Mas é preciso que a população se engaje.

“Não priorizamos número de prisões, apreensões, não trabalhamos em cima de registros criminais, mas de humanizar, de evitar delitos, de reduzir conflitos. É para isso que estamos aqui”.

Saiba mais sobre o autor

O tenente-coronel Carlos honra suas raízes e faz questão de reverenciá-las. Filho de Dalvina e Antônio Calino, nascido na cidadela de Poxoréu, frequentou o Centro Juvenil Poxoréu onde segundo ele, “passou sua infância embriagando nas lições de seus pais, conterrâneos e do Mestre Armando Catrana. Engraxate, vendedor de frutas, pipocas, picolés, gandula de futebol…”. Essa é uma parte da infância do mestre em Polícia Comunitária.

Casado com Jéssica e pai de Niccolie e Niccolas se inquietou com a maneira de atuar da PM e buscou pesquisar e encontrar a resposta a pergunta: a PM é Polícia do Estado ou Polícia do Governo? Estudioso na seara da segurança pública ele fez importantes proposições, como em 2008 sobre a criação da Delegacia de Polícia Judiciária Militar para tratar dos crimes militares perpetrados por PMs. Assim, se enveredou nos estudos sobre a “lavratura do termo circunstanciado de ocorrência policial como garantia dos direitos humanos do cidadão”, em estudos de pós graduação pela UFMT. O tenente coronel Carlos também foi comandante da ESFAP – Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da PMMT que em 2016 teve o privilégio de formar 1476 novos policiais militares.

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