Um parto na viatura: pai e filha homenageiam policial 15 anos depois

A história de Josiane não seria a mesma sem o sargento Ronaldo, por isso, sua festa de debutante precisava ter a presença dele

Josiane durante a valsa com o sargento Ronaldo (arquivo pessoal)

Era noite do dia 7 de fevereiro de 2005, e o radialista Josiel Moura Campos, à época com 23 anos, ia cobrir uma festa de Carnaval afastada da cidade. Um trabalho para uma emissora de TV local. Mas a vida tinha outros planos para ele.

Sua mulher entrou em trabalho de parto – com três semanas de antecedência -, quando ele chegava ao local de gravação: o Iate Club. Josiel teve que voltar correndo para Barra do Garças (520 km de Cuiabá) para tentar socorrê-la.

Chovia naquela noite e o motorista do carro acabou entrando em um buraco na pista, que furou o pneu do veículo, quando faltavam cerca de três quilômetros para ele chegar. Josiane estava prestes a nascer.

Ele tentou lembrar de algum amigo para pedir ajuda, mas nenhum deles tinha carro. Foi então que a ajuda que nunca falta lhe veio à cabeça: a Polícia Militar.

Foi assim, há 15 anos, que começou uma história de gratidão de uma família a uma corporação e, especialmente, a um militar: o sargento Ronaldo, à época soldado.

Naquele dia, na viatura, ele fez de oração ao início do parto. Neste ano, 2020, foi homenageado na festa de debutante da menina que salvou no dia de seu nascimento.

O socorro em 2005

Ao receber o chamado, o tenente Estênio, que atualmente é major, entrou com contato com a viatura mais próxima e a mandou até o pai. Os policiais pegaram o radialista, o colocaram no carro da Polícia Militar e foram com ele buscar a mãe.

A gestante estava no Bairro Nova Barra Sul, que ainda é um pouco afastado da cidade, e precisava ser levada para o Hospital e Maternidade Dom Bosco (hoje já não mais existente), no Bairro Cidade Velha, em Barra do Garças.

Dentro da viatura, a situação era tão tensa que o pai, Josiel, lembra de ter visto o sargento Ronaldo rezando pela bebê. Foi por este motivo que ele jamais esqueceu o nome e o rosto do policial.

“Chegando ao hospital, ela já se encontrava em trabalho de parto, tendo iniciado o nascimento da criança dentro da viatura”, lembrou Cleber Ronaldo Borges, 50 anos, o sargento Ronaldo.

A rapidez dos policiais com a viatura foi essencial para o salvamento de Josiane (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Quando chegaram ao hospital, Josiane já tinha cerca de 10 centímetros do corpo “nascido”.

O médico de plantão pensou em esperar a chegada do médico que já atendia a mãe, mas quando viu que a menina já estava, em parte, fora do corpo, afirmou que tinha que terminar o parto com urgência ou mãe e filha morreriam.

“O médico falou: ‘se a viatura não tivesse ido buscar, ela não teria sobrevivido’. Foi muito rápido, tanto é que, quando colocou ela [mãe] na mesa do parto, eu estava no celular tentando ligar pro médico e ela [a filha] já nasceu”, contou o pai, Josiel.

“O doutor tinha mais de 40 anos de profissão e disse que nunca tinha feito um parto tão rápido na vida dele. Ela estava pronta, tinha estourado bolsa. A bebê já tinha quase saído dentro da viatura mesmo”, completou.

Abandono

Se os primeiros segundos de vida já fizeram de Josiane uma guerreira, o que estava por vir seria mais uma batalha. Com dois meses e 15 dias de vida, ela foi entregue pela mãe nos braços do pai.

“A mãe dela chegou em casa e falou: ‘Josiel, a partir de hoje você vai tomar conta dela sozinha’. Achei estranho. Ela me deu como se estivesse dando um objeto. Eu pensei: ‘ela vai embora e vai voltar em meia hora’. Mas essa meia hora dela tem 15 anos. Josiane não conhece a mãe”, ele contou.

O pai, Josiel, e Josiane, quando ainda pequena (Foto: arquivo pessoal)

Quando Josiane tinha entre sete e oito anos, a mãe chegou a procurar o pai novamente, perguntando como estava a filha. Ele, no entanto, foi duro, dizendo que ela a havia abandonado e a mulher sumiu novamente.

Aos 10, Josiane viu a mãe pela primeira e única vez. Estava acompanhando sua avó, que vende enxoval de porta em porta. Em uma casa, enquanto elas mostravam as peças, a moradora não parava de olhar para a criança. Até que a mulher perguntou: “essa menina é a Josiane?”. A avó respondeu: “é. E você é quem?”.

“Eu sou a mãe dela”, retrucou a mulher.

A avó guardou todo o material, pediu licença e saiu chorando, assim como a neta.

Pouco depois, a mãe tentou contato novamente com o pai e, por fim, procurou a filha no Facebook. Elas chegaram a marcar um encontro, mas a mãe não apareceu, deixando ainda mais mágoa na adolescente.

“Elas nunca se conheceram pessoalmente. Mas sempre que minha filha coloca uma foto [na rede social], ela curte”, contou o pai.

Josiane, no entanto, não cresceu sem uma figura materna. Ela chama a avó de mãe e, inclusive, mora com os avós, que tem como segundos pais.

A separação ocorreu somente agora, devido à pandemia de coronavírus, para proteção dos idosos.

“A história da minha filha é muito forte, ela tem acompanhamento psicológico. Eu tenho outra filha, outra família, mas ela tem o quarto dela pronto. Quando ela quiser, está pronto para ela estar comigo. Ela preferiu morar com meus pais, mas todo final de semana está comigo e agora, na quarentena, também”, contou Josiel.

Josiane e a avó, a quem considera como mãe (Foto: arquivo pessoal)

Dificuldades de pai solteiro

Apesar de mais para frente ter sido ajudado pelos pais, primeiro Josiel enfrentou tudo sozinho. Quando chegou em casa e contou ter sido abandonado pela mãe de Josiane, foi expulso de casa pelo pai, que achava que ele arrumaria várias mulheres e passaria a responsabilidade da criação da filha a eles.

“Foram mais ou menos nove meses. De manhã, com uma babá, e a tarde e a noite eu ficava com ela. A parte mais difícil do bebê, amamentação, essas coisas, eu fiz toda sozinho. Um colega de trabalho que tinha carro me levava para vacinar e virou padrinho da minha filha por ter acompanhado tudo”, contou.

Depois, os pais ficaram com dó e o aceitaram novamente. Hoje, os dois são apaixonados pela neta. Durante a quarentena, até choram de saudade dela.

Josiane durante a valsa com o avó (Foto: arquivo pessoal)

Reencontro e homenagem

Josiane só soube da história de seu nascimento na viatura da PM aos 10 anos, quando o pai encontrou um policial que esteve na ocorrência.

“Passado uns 10 anos, encontrei o pai da criança em um mercado e ele me lembrou do fato. Me comoveu, diante do tempo passado e da lembrança de uma ocorrência que fugiu ao trabalho normal da Polícia Militar”, contou o sargento Ronaldo.

Quando se aproximou de seu aniversário de 15 anos, Josiane, então, não pensou duas vezes: pediu ao pai para homenagear os policiais e a enfermeira que a salvaram.

Hoje aluna do 1º ano do ensino médio, ela sonha em cursar Medicina, mas para seguir uma carreira militar no Exército. “Eu acho a profissão deles muito importante para todo mundo, principalmente para mim. Foram heróis na minha vida”, disse.

Quando soube a ideia da filha, o pai acatou imediatamente.

“Se ela está viva hoje é porque a viatura chegou rápido e passou todos os sinais de trânsito vermelho, correndo. Muitas pessoas dão trote na polícia. Se naquele momento as pessoas estivessem dando um trote, eu teria perdido a minha filha”, afirmou Josiel.

Não foi fácil encontrá-lo, mas ao receber o convite para dançar a valsa de 15 anos com a moça que havia salvado, o sargento Ronaldo aceitou imediatamente.

Josiane durante a valsa com o sargento Ronaldo (Foto: arquivo pessoal)

A festa

A comemoração, no dia 7 de fevereiro deste ano, foi emocionante do início ao fim. Desde o momento em que tocou a música “Um anjo do céu”, do Grupo Maskavo – que o pai sempre cantou para a menina.

No momento da troca da boneca pelo sapato, o pai e o avó – pai de consideração – participaram juntos.

Por algum tempo, os convidados se perguntaram porque havia policiais na festa. O pai de Josiane, então, contou a história de seu nascimento, agradeceu o sargento Ronaldo e ele dançou a valsa com a adolescente.

“É uma grande emoção ser homenageado pela família, pelo fato de ter ajudado alguém em necessidade e de ter o trabalho como policial reconhecido. Como militar, já atendi inúmeras ocorrências, mas ajudar uma vida a vir ao mundo, com certeza é muito gratificante”, disse o sargento.

Policial militar desde 1998 – antes já militar pela Aeronáutica -, Ronaldo tem orgulho de pertencer à Corporação e disse fazer o trabalho com muita honra e responsabilidade.

Depois da festa, comentando em um corredor sobre como tinha sido a homenagem, o sargento encontrou dentro do Batalhão o policial que trabalhou com ele na ocorrência, no  dia do nascimento. Infelizmente, ele não havia sido localizado antes, para também ser homenageado.

Na vida de Josiel, Josiane e de toda sua família, Ronaldo, o colega e toda a Polícia Militar são vistos como verdadeiros heróis.

“É uma sensação de segurança. Muitas vezes, as pessoas acham que a polícia só está ali para pegar bandido, mas a polícia faz coisas além da sua obrigação. A polícia, hoje, não é somente correr atrás de bandido, ela representa muito mais que isso”, disse Josiel, que há 15 anos agradece à Polícia Militar a alegria de ser pai.

Josiane e o pai (Foto: arquivo pessoal)

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