Um idioma estranho e uma vida de isolamento: você sabe como é ser surdo no Brasil?

Ir ao supermercado, buscar ajuda médica e até tirar a carteira de motorista exigem muito esforço; servidores públicos não estão capacitados para entender essas pessoas

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Era manhã de uma sexta-feira quando a reportagem esteve na sede do Procon, em Cuiabá, e viu algo que chamou a atenção. Em frente a um dos guichês, um homem visivelmente angustiado tentava se comunicar com os servidores utilizando Libras – a Língua Brasileira de Sinais.

Esse homem é Jilney da Silva Nascimento, 46 anos. Ele buscava informações sobre como obter a carteira de motorista, mas os servidores públicos ali alocados não estavam preparados para atendê-lo. Desconheciam “seu idioma”.

Foi assim que a Bruna Gomes entrou na história. Formada em Pedagogia e com curso técnico em Libras, a jovem de 28 anos trabalha como intérprete para a Central de Intérpretes de Libras (CIL), ligada à Secretaria de Estado de Educação (Seduc).

Jilney explicou a ela que não conseguia tirar a carteira de habilitação, pois precisava de um intérprete para o acompanhá-lo durante o processo.

O custo desse profissional deveria ser arcado pelas autoescolas, que têm, por lei (10.436/2012 e resolução Contran nº 558/2015), a obrigação de promover a inclusão. Mas a realidade não é essa.

Jilney ficou surdo aos seis e apenas aprendeu Libras aos 36 (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Segundo Jilney, há 5 meses ele luta pela habilitação. Ele diz que já procurou diversas escolas, que se recusaram a matriculá-lo. Por fim, decidiu pagar uma intérprete por conta própria.

O homem, que hoje é aposentado em razão da deficiência, não nasceu surdo, mas perdeu a audição aos seis anos. Na sua família, outros irmãos também são surdos e um deles chegou a se formar em Pedagogia.

Jilney não fez faculdade. De Alto Paraguai (200 km de Cuiabá), ele teve dificuldades de ter acesso à Libras: apenas conseguiu aprender a linguagem aos 36 anos, quando se mudou para Cuiabá.

Nesse tempo todo, deixou de fazer coisas básicas, como ir ao mercado. Ao médico? Somente em casos de extrema urgência ou se conseguir agendar atendimento com a CIL.

Usar o transporte público também é uma dificuldade, principalmente, se precisar do auxílio de alguém para encontrar o local para onde estiver indo.

Rogério Belussi é presidente da Associação dos Surdos do Estado de Mato Grosso (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Ao contrário de Jilney, Rogério Belussi Miranda, de 45 anos, teve a oportunidade de concluir o ensino superior. Surdo de nascença – uma sequela da rubéola que sua mãe teve  na gravidez -, ele é presidente da Associação dos Surdos do Estado de Mato Grosso.

E também presta serviço para a CIL, assim como Bruna, com o intuito de minimizar as dificuldades enfrentadas pelos surdos.

Rogério teve oportunidades diferentes de Jilney. Enquanto o segundo morou por anos em uma fazenda, e demorou para ter contato com a Libras, Rogério nasceu e morou, por anos, em Brasília (DF). Lá, estudou em uma escola particular onde as aulas eram ministradas em Libras.

Já na faculdade, ele estudou em uma instituição particular que oferecia intérprete de Libras. Sua sala de aula era composta por 30 alunos ouvintes e 10 surdos.

Apesar disso, as dificuldades não deram trégua para Rogério. Assim como o primeiro personagem, ele revelou que também teve problemas para conseguir sua licença para dirigir. Foi preciso mais de um ano para finalizar o processo.

Rogério acredita em um momento em que a Libras será incluída como disciplina na rede pública de ensino. “Ter intérprete em sala não significa inclusão”, diz, com auxílio da Bruna.

Conforme a própria intérprete, é uma missão “quase-impossível” listar qual é a maior dificuldade dessa comunidade. “Serviços básicos. Emprego, saúde, Procon, Defensoria… Não dá para priorizar”, comenta.

Intérprete não é inclusão

Professor de Libras na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Riguel Brum concorda com Rogério sobre os intérpretes. “As pessoas acham que é só colocar um intérprete e pronto. Mas não é só isso”, diz.

Ele, que hoje ensina estudantes de cursos como Medicina e Enfermagem a desenvolver a comunicação com os surdos, acredita que estamos cada vez mais perto da verdadeira inclusão. Mas o caminho ainda é tortuoso.

Conforme o professor, há um movimento nacional para que a Libras se torne disciplina curricular obrigatória em todo o país. Enquanto isso, segundo ele, as secretarias de educação poderiam incluí-la por conta própria.

Em Mato Grosso, um projeto com essa finalidade chegou a ser elaborado em 2014. Segundo a Seduc, há pelo menos 712 alunos surdos matriculados nas escolas estaduais. Contudo, o projeto não andou.

A comunidade surda espera que a Câmara Temáticas das Pessoas com Deficiência, criada na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) auxilie na busca por políticas públicas eficazes.

O LIVRE também questionou a Seduc sobre o andamento do projeto para a implantação da Libras nas escolas, mas não obteve uma resposta até o momento da publicação desta matéria.

O espaço continua aberto a manifestações.

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