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Um corredor de possibilidades

Foto de Cassyra Vuolo
Cassyra Vuolo

Na semana passada o telefone de casa tocou e do outro lado da linha “seo’ Firmino me convidava para uma peixada cuiabana, no domingo, em sua casa. Aceitei e perguntei: “Vamos ter bolo de aniversário?” No tom ribeirinho explicou: “Qual nada minha filha, estou no terceiro tempo da vida e nesta altura todos os dias é uma festa. E, se eu for acender todas as velas, ponho fogo na casa”. Rimos e desligamos.

Com o presente em mãos, me dirigi para a beira do Rio Cuiabá e, como no título de Veríssimo, à medida que me aproximava, ouvia uma “Música ao Longe” e um burburinho de gente desfilando em câmera lenta diante dos meus olhos.

[featured_paragraph]Bastou por o pé no chão para que o som aumentasse e o ritmo se acelerasse. Muitos abraços e cumprimentos. E a pergunta: “Onde está o aniversariante?” Apontaram com o dedo em direção ao fundo da casa.[/featured_paragraph]

Me dirigindo ao quintal, passei por um longo corredor. Os quartos nas laterais e finalmente a varanda enorme que dava para a cozinha e o pátio, onde a festa corria solta.

As tradicionais casas cuiabanas geralmente tinham essa disposição: uma sala de onde saia um longo corredor que se encerrava numa área comum. A visita era recebida com formalidade na primeira sala. Os quartos tinham suas portas fechadas e se entrava neles somente sob convite. Porém, se você fosse “gente de casa”, iria direto para a varanda no final do corredor, onde tudo acontecia em torno de uma grande mesa com cadeiras de balanço enfileiradas.

Fui em direção ao aniversariante que cuidava pessoalmente dos peixes e do tempero do pirão. Recebeu a lembrança embaraçado e deixou claro que a presença era o que realmente o fazia feliz.

Sentei com suas filhas numa mesa que permitia ver a festa e o preparo da comida. De tempos em tempos, ouviam-se gritos daqueles que acompanhavam o final da copa na pequena TV improvisada sob o armário da cozinha, bem no final do corredor.

A certa altura, o jogo terminou e o aniversariante deu um tempo nas panelas, jogou o pano de prato nos ombros e ficou diante da tela com a mão no queijo. Fiquei curiosa e fui lá saber o que estava a chamar tamanha atenção.

Era a cerimônia de premiação da copa que estava começando. A alegria e a desolação estampadas nos rostos dos jogadores e nos corpos um misto de exaustão e euforia. O cerimonial do campeonato chamou a seleção da Croácia para receber a medalha de prata e o time da França se posicionou num corredor por onde eles passavam rumo ao pódio. Uma celebração e confraternização inéditas no futebol mundial.

[featured_paragraph]Os olhos de “seo” Firmino se iluminaram e, na sua simplicidade, com ar de encantamento virou-se para mim: “’Taí’ uma coisa linda de se ver. Um bom exemplo para nós que brigamos dentro e fora do campo e que esquecemos que respeito e humildade fazem bem em todo lugar. Podia ser assim aqui também nas ruas, em casa, nos negócios e na política minha filha”.[/featured_paragraph]

Parada em frente a ele e diante do corredor cuiabano, sorri concordando e imaginando as inúmeras possibilidades de reflexão que aquele outro corredor enviava ao mundo.

Fomos interrompidos pelos familiares e amigos cantando os “Parabéns” com o bolo nas mãos.

Por dentro eu estendia as felicitações a aqueles que personificaram o “Imagine” de John Lennon e abriram espaço para novas formas de ver, de estar, de se colocar e de compartilhar o mundo. Um momento único onde todas as pessoas puderam viver a vida em paz e como um só.

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