Um alerta que vem do Chile

Não dá pra mudar a cultura econômica de um país sem mudar a sua estrutura moral, o seu sistema interno de valores

O Chile está em caos. Como um país exemplo para o restante da América Latina, um país com uma econômica pujante liberal, com uma educação de primeiro mundo, talvez o único país sul americano que podia ser comparado com  Europa, mergulha na violência e no quebra-quebra de maneira tão avassaladora?

O professor Mario Aguilar, da universidade de St Andrews, chileno, acadêmico de renome em história política e religião, deu uma breve entrevista para a BBC sobre o estado em que ele encontrou o Chile na ultima semana, quando esteve de visita. Na entrevista (em inglês, link abaixo) ele analisa rapidamente o problema. Perguntado sobre o papel da igreja Católica, ele diz: “Ferido por muitos escândalos, o establishment católico perdeu sua capacidade de influencia. O que vemos nas noticias não retrata o caos em que o país está mergulhado”.

Segundo o Prof. Aguilar os únicos que ainda são ouvidos são os padres Jesuítas, que têm um trabalho com os pobres há muitos anos e de muita significação social. E sendo eles teólogos da libertação, tudo o que tem a dizer é: “Tomamos tudo dos pobres, porque agora nos surpreendemos quando eles querem tomar tudo de nós?”. Uma posição que obviamente não melhora o diálogo entre os protagonistas da crise.

O que o Prof. Aguilar não disse no rádio, depois me comunicou numa entrevista pessoal. Sua maior preocupação no momento são as vozes institucionais se perderam na sociedade. O judiciário e o legislativo estão desmoralizados por escândalos de corrupção. O executivo é visto como o culpado pela crise.  Segundo ele não existe uma voz de comando unificada. Os protestos são fragmentados, as reinvindicações são as mais diversas e absurdas. As turbas que depredam o espaço público, as estações de metrô, e saqueam os supermercados não estão pedindo uma medida concreta da parte do governo, querem uma espécie de justiça cósmica, como “o fim da desigualdade”, o fim do “sistema.”

Todos as grandes redes de comércio internacional foram saqueadas e destruídas em Santiago. Os maiores hotéis de Viña del Mar foram incendiados, mais de 25 mil empregos criados pela rede hoteleira e pelo turismo que é uma das principais fontes geradoras de renda principalmente nesta época do ano, desapareceram. Dr. Aguilar afirma que  a reconstrução das 66 estações de metrô destruídas até agora vai custar centenas de milhões de dólares, sem contar com incêndios de ônibus, impedimento das vias públicas, vandalismo e violência pura e simples.

Quem vai sofrer mais com tudo isto é o pobre. Ainda que os protestos parem agora, serão muitos anos para reconstruir o que se perdeu. E se as depredações e o esgarçamento social não tiverem um fim rápido em breve, em poucas semanas o Chile se tornará numa El Salvador, numa Honduras ou Somália, ou seja um estado falido sem controle central, dominado por guerrilhas territoriais e pelo crime organizado.

Como entender o que aconteceu? Para nós de fora, os chilenos tinham tudo o que sonhamos. Muitos dizem que o “plano de Guedes” é o que está em jogo no momento, sendo que a economia chilena desde os tempos de Pinochet segue o modelo liberal da Universidade de Chicago. Mas pode ser que esta nossa visão externa esteja equivocada.

A celebrada economia liberal do Chile pode ter sido mais parecida com o modelo do Brasil petista de ontem, do que com o que querem implementar Guedes e Bolsonaro hoje. Segundo Dr. Aguilar, 34% da economia chilena estava na mão de apenas 14 famílias. Ou seja, o capitalismo que se praticava no país sofria da doença do compadrismo, o famigerado crony capitalismo.

Num blog da Universidade de Chicago (link abaixo), o jornalista Daniel Matamala denuncia os bastidores da economia Chilena nos mesmos termos. A celebrada economia chilena, aparentemente um sucesso, sofria dos mesmos problemas causados pela cultura promíscua de privilégios, impunidade, tratamento preferencial nos bancos federais, evasão de divisas, fraudes do imposto de renda, que por muitos anos foi o modus operandi da elite econômica e política do Brasil.

Diz Matamala: “O acadêmico da Universidade do Chile Javier Ruiz-Tagle estima que compadrio, evasão de impostos, e escândalos de corrupçãp representam mais de 4.8 bilhões de dólares em perdas para os consumidores… A impunidade da elite alimenta a fúria contra a desigualdade. Chile tem 47.7 no índice Gini, o pior de qualquer país da APEC… A concentração de riqueza só é semelhante à dos países da África, com o 1% mais rico da população capturando 30.5 da renda (543 das famílias mais ricas recebendo 10.1% da renda nacional). O economista Ramos Lozpes calculou que os cinco homens mais ricos do Chile de acordo com a Forbes, incluindo Presidente Piñera, têm a mesma renda dos 5 milhões de chilenos… O crony capitalismo é o culpado parcial disto. Enquanto a liberalização da economia abriu muitas áreas para a livre competição, também concentrou dinheiro na mão de alguns poucos magnatas bem conectados”.

O índice Gini de desigualdade mencionado por Matamala é criticado por alguns por não ser capaz de expressar a natureza da desigualdade. Obviamente a desigualdade chilena não se traduz na miséria hedionda da maioria contrastando com a riqueza absoluta de uma elite como em muitos países da África.

A igualdade absoluta entre seres humanos é uma impossibilidade lógica, sendo que nós humanos dotados de livre arbítrio vamos necessariamente nos diferenciar uns dos outros em intensidade de produção, áreas de trabalho, ambição pessoal, etc. Mas qualquer sociedade organizada de maneira a  concentrar muita  riqueza na mão de uma minoria aristocrata, por mais que a economia aparente ser liberal,  não vai ser percebida como uma sociedade que permite a  ascensão social. 

A população chilena gozava de estabilidade econômica e política de uma forma que nossos países latinos ainda não foram capazes de atingir. Mas ainda era um cenário latino-americano, marcado pela velha indiferença da elite classista que se aproveitou do liberalismo para solidificar seu controle sobre a maioria. O crony-capitalismo é com certeza o grande vilão de nosso projeto econômico latino-americano, porque enrijece os vícios que nos impede de sermos uma sociedade justa. 

Que o infeliz colapso do projeto chileno nos sirva de alerta. Não dá pra mudar a cultura econômica de um país sem mudar a sua estrutura moral, o seu sistema interno de valores. Na América Latina nenhuma reforma será bem sucedida sem que o ethos classista e imoral de nosso estamento burocrático seja confrontado diretamente. Bolsonaro e as tias do zap continuam sendo a maior esperança do Brasil.

Entrevista: https://www.bbc.co.uk/sounds/play/m0009ry2

Artigo: https://promarket.org/how-economic-concentration-and-crony-capitalism-led-to-the-chaos-in-chile/

 

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