Tráfico de pessoas: pandemia e subnotificações facilitam assédio a vítimas

Este ano, já foram feitos três resgates em Mato Grosso, as vítimas eram mulheres que foram aliciadas para a exploração sexual

(Foto: Alexandr Podvalny / Pexels)

“Você terá uma vida diferente aqui”. “A proposta é de um bom salário que vai render bons frutos, chance de cuidar melhor da família”. Esses são alguns dos discursos que conquistam muitos dos que ouvem essas promessas e acabam vítima do tráfico de pessoas.

Em tempos de pandemia, quando a vulnerabilidade econômica e social é maior, esse aliciamento não enfrenta resistência por parte das vítimas. Em outro ponto, a subnotificação dos casos também incentiva a prática criminosa.

Neste ano, em Mato Grosso, já foram feitos três resgates. As vítimas eram mulheres, sendo duas adolescentes, que sofriam com a exploração sexual.

O aliciamento

Em meio ao caos, a proposta surge tentadora e a vítima, então, se deixa levar.

Geralmente, o aliciamento é feito por pessoas próximas, que se dizem amigas, oferecem muitos benefícios para a pessoa sair da cidade de origem dela, ir para outro Estado ou até mesmo país”, explica Giovana Maria do Nascimento, coordenadora do Núcleo Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do Estado de Mato Grosso (Netrap).

Quando chega no destino, a vítima é colocada em cárcere privado sob o pretexto de pagar a dívida que assumiu com o aliciador.

Durante a pandemia, esse aliciamento sofreu uma alteração em sua forma, aponta o relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Os traficantes se adaptaram ao “novo normal” e transferiram o contato com as vítimas para propriedades privadas ou online.

O relatório aponta ainda que, com as alterações promovidas pela pandemia, como por exemplo, a realocação de policiais, os traficantes conseguem operar com menos risco de detecção.

Combinado a isso, o fechamento das fronteiras diminuíram as oportunidades de fuga das vítimas ou mesmo a identificação dos casos suspeitos.

(Foto: Divulgação)

A pandemia também contribui com a vulnerabilidade das vítimas, frisa Dulce Regina Amorim, coordenadora do Comitê de Estado de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (Cetrap).

“Muitas pessoas perderam o emprego ou o arrimo de família e acabam se envolvendo com essas falsas promessas”, explica.

Identificação e notificação

Amorim, comenta que um dos pontos que contribuem para a subnotificação dos casos é a questão da identificação e notificação.

Isso quer dizer que, em muitos casos, quando é feito o resgate, o registro do crime considera a atividade fim, ou seja, trabalho escravo ou exploração sexual. Não se pontua o tráfico de pessoas nas investigações e boletins de ocorrência.

“Por isso, faremos as capacitações dos profissionais para que eles se sensibilizem e identifiquem essas ocorrências para fazer o devido registro”, afirma. Os cursos devem acontecer já nos próximos dias.

Esse olhar diferenciado precisa ser expandido também para a população como um todo, acredita Nascimento, coordenadora do Netrap.

“Esse é um tema ainda desconhecido e que precisa ser debatido por meio de palestras e capacitações. Entretanto, esse processo ficou prejudicado por conta da pandemia”, lamenta.

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O destino das vítimas

As vítimas, após aliciadas, podem ser levadas para outras cidades dentro do mesmo país, como aconteceu com as adolescentes de Brasília, que foram resgatadas no Mato Grosso. Ou ainda para um outro país.

As pessoas aliciadas são direcionadas para trabalhos em área rural. Os homens fazem o serviço braçal em plantações, enquanto as mulheres são direcionadas ao trabalho doméstico, indica Amorim, do Cetrap.

Há também o direcionamento para a exploração sexual, nesse caso, indica a coordenadora do Conselho, as vítimas são principalmente adolescentes.

(Foto: Dương Nhân / Pexels)

Tome cuidado

A principal orientação das especialistas diz respeito à atenção às promessas de muita facilidade.

Ao aceitar alguma proposta, recomenda Nascimento, deixe com os familiares as informações quanto ao destino.

“Ao chegar lá, não entregue os documentos para a pessoa que ofereceu o trabalho”, complementa a coordenadora do Netrap.

Outros números de MT

De acordo com a plataforma Smartlab – Observatório da Erradicação do Trabalho Escravo e do Tráfico de Pessoas, Mato Grosso teve, em sete anos, 254 ocorrências registradas no Disque 100 relacionadas ao tráfico de pessoas e trabalho escravo.

Os dados correspondem ao período de 2012 a 2019, quando foram contabilizadas também 64 ocorrências do tráfico de crianças e adolescentes.

A Capital concentrou a maior parte dos casos, 10%, seguida de Várzea Grande, 6%, e de Alto Paraguai e Juara, 5%, cada.

Com relação a crianças e adolescentes, 91% das denúncias foram quanto ao tráfico de pessoas e o trabalho análogo a escravidão. Os 9% restantes eram relacionadas à exploração sexual.

Mais uma vez, Cuiabá ficou na frente com 17% dos registros, seguida de Várzea Grande (11%) e Campo Novo do Parecis (6%).

As denúncias desse tipo de ocorrência podem ser feitas ao Disque 100.

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