“Tem gente passando necessidade e isso não é justo”, conta enfermeira da Santa Casa

Crise financeira se estende desde 2015 mas atingiu o ápice neste mês de julho, segundo diretores

Foto: Ednilson Aguiar

“Isso não é justo. A gente está trabalhando, não está de brincadeira. A gente sai de casa e não tem como voltar”. O relato é da enfermeira Adriana Cardoso Soares, de 48 anos, que passou os últimos 15 deles atuando na Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá. Com o salário atrasado devido ao caos provocado pela falta de repasses públicos, a auxiliar de enfermagem sequer tem dinheiro para ir trabalhar.

É conhecida pelo carinho com que atende famílias da pediatria, em especial, as crianças que estão em tratamento oncológico e precisam de um tratamento humanizado. Adriana toma a luta de muitas crianças pra si, sente na pele a dor do outro, não é à toa que coleciona e guarda com carinho registros ao lado de muitos pequenos que já partiram depois de intensas lutas.

Adriana mora com a mãe e um irmão e é responsável por auxiliar na manutenção da casa com seu salário de R$ 1.005. A auxiliar de enfermagem também é avó de um recém-nascido de dois meses. Sem ter dinheiro sequer para comprar um pacote de fraldas para o neto, ela chorou ao relatar a situação vivida pelos profissionais da unidade.

Emocionada, a profissional contou que, na próxima terça-feira (8), sua única filha irá se formar em Direito, mas que ela não teve condições de comprar uma roupa e sequer poderá pagar a maquiagem da filha para o dia especial. “Ela está contando comigo e eu não tenho como pagar. Não tenho como pagar a maquiagem da colação, que custa R$ 250”, disse ao LIVRE.

Adriana é conhecida pela forma humanizada de tratar seus pacientes

Além da falta de pagamento dos salários, os vale-transporte também não estão sendo repassados aos profissionais. O valor é, em média, R$ 35, que são depositados semanalmente, para que possam cumprir os plantões. No entanto, sem depósito, Adriana quase não foi trabalhar.

[featured_paragraph]“Eu cheguei a comunicar minha chefe, falei que não tinha dinheiro. Ai no plantão passado eu só vim mesmo porque ela me deu R$10. Hoje mesmo eu vim, mas contando que ela vai me dar os R$ 10 pra ir embora, porque eu não tenho dinheiro para voltar. Isso não é justo, a gente está trabalhando. A gente sai de casa e não tem como voltar. A gente não tem como contar com nada”, comentou.[/featured_paragraph]

Além dos problemas financeiros, Adriana reclama que a administração do hospital não tem prestado esclarecimento aos funcionários sobre os atrasos no pagamento. Segundo ela, tudo que se sabe é devido informações prestadas pela mídia.

“Ninguém dá satisfação pra gente. Em nenhum momento a administração do hospital chama os funcionários para dar satisfação. A gente até vê uns papéis nos murais, mas são para os médicos. Nós, da enfermagem e da limpeza, os operários do hospital, estamos todos no mesmo barco”, disse.

Em meio as lágrimas, ela contou que o salário de junho, que era pra ser pago em julho, está atrasado. “Mês passado eu trabalhei extra, contando que aumentaria minha renda pra eu ajudar minha filha com as coisas básicas para o bebê, mas esse dinheiro não chegou”, contou emocionada.

Atualmente, o salário da Santa Casa é a única fonte de renda de Adriana. Ela revela que, além dela, há muitos outros funcionários em situações semelhantes ou piores. “Só não está passando dificuldade quem tem outro emprego, quem tem marido ou uma situação de reserva. Mas no meu caso eu não tenho. Usei meu dinheiro para a chegada do meu neto”.

Foto: Reprodução/Digoreste News – Dr. Antônio Preza, diretor da Santa Casa de Cuiabá

Situação crítica
Conforme um ofício encaminhado pela direção do hospital à Prefeitura de Cuiabá, a falta de recursos chegou na sua situação mais crítica. “Neste ano de 2018 a situação está insustentável, isso devido ao constante atraso de repasses financeiros por esta prefeitura”, diz trecho do documento.

O ofício foi elaborado pelo diretor da unidade, o médico Antônio Preza, e entregue na Prefeitura na segunda-feira passada (23). No documento, eles alertavam sobre a possibilidade de greve dos funcionários, prevista para esta segunda-feira (30).

Segundo o diretor, ao todo, a dívida do Município com a unidade médica seria de R$ 3,1 milhões. O maior débito é do Estado, com valor total de R$ 17 milhões.

Uma reunião entre os diretores da unidade foi marcada para a noite desta segunda-feira (30), para chegar a um consenso quanto a situação.

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