Telefonemas extraoficiais: militares apontam relação estreita entre Poderes

Governadores falaram diretamente com desembargadores sobre investigações em andamento

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Um telefonema tenso e intimidatório foi revelado pelo coronel Evandro Lesco em seu reinterrogatório no caso da Grampolândia Pantaneira, nesta semana. A ligação, segundo o militar, partiu do ex-governador Pedro Taques e tinha como destinatário o desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), Orlando Perri.

O fato teria acontecido em junho de 2017, quando Lesco era chefe da Casa Militar e foi preso preventivamente, acusado de envolvimento com o núcleo clandestino de interceptações telefônicas montado no seio da Polícia Militar.

A informação sobre uma grande operação envolvendo a Casa Civil “vazou”. Quem lhe contou foram dois oficiais: o corregedor-geral da PM, coronel Alexandre Corrêa Mendes, e o diretor de Inteligência, tenente-coronel Victor Paulo Fortes Pereira.

O encontro aconteceu na sala de Lesco, dentro do Palácio Paiaguás, e chamou a atenção do então governador.

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre) – Desembargador do TJMT, Orlando Perri

Taques queria saber o que estava acontecendo. Telefonou imediatamente ao coronel. Lesco pediu tempo. Disse que ainda estavam conversando e que logo responderia.

Não satisfeito, o ex-governador enviou dois secretários à sala.

Ao contar sobre o caso, Lesco lembrou que foi interrompido pela entrada repentina e violenta de José Adolpho (Casa Civil) e do coronel Siqueira Junior (Sejudh). Eles insistiam em saber o que acontecia, mas receberam uma negativa do chefe da Casa Militar.

Quando os militares foram embora, Lesco foi chamado ao gabinete de Taques. Ao lado do governador, aguardavam os dois secretários. O coronel revelou, então, sobre o vazamento da operação.

“Taques se exaspera e manda oficiar o presidente do Tribunal de Justiça, comunicando sobre o vazamento”, lembrou o coronel. Em seguida, Taques liga para Perri. De forma intimatória, segundo Lesco, ele afirma que não iria admitir murmúrios sobre as prisões.

No início daquela tarde, dois militares são detidos. “Nesse momento, a tensão aumenta”, narrou o coronel.

No início da noite, o então chefe da Casa Militar foi preso preventivamente. A ordem de prisão foi assinada por Perri.

Relação estreita

A história é somente uma das que revelaram – durante reinterrogatório do coronel Evandro Lesco e do cabo da Polícia Militar Gerson Luiz Corrêa Júnior – a existência de uma relação estreita entre os poderes Executivo e Judiciário.

Eles são réus em uma ação na Vara Militar de Cuiabá, denunciados pelo Ministério Público por falsificação de documento público, falsidade ideológica e realização de operação militar sem ordem superior.

Os fatos giram em torno do esquema que ficou conhecido como Grampolândia Pantaneira, que envolveu um núcleo clandestino de interceptações telefônicas no seio da Polícia Militar.

Os Barbosa e o TJ

Ex-governador Silval Barbosa e ex-secretária Roseli Barbosa

O cabo PM Gerson Corrêa, apontado como operador do esquema, revelou uma relação entre o ex-governador Silval Barbosa e o desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Marcos Machado.

O caso teria ficado explícito no âmbito da Operação Ouro de Tolo, que resultou na prisão da ex-primeira-dama de Mato Grosso, Roseli Barbosa, no dia 20 de agosto de 2015. Ela foi acusada de liderar um esquema que desviou recursos da Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social (Setas), Pasta que chefiou durante o governo do marido.

Na época, um dia depois da prisão de Roseli, Silval pediu que um de seus advogados “agisse” no Tribunal de Justiça para libertá-la. Horas depois, o ex-governador recebeu uma ligação do desembargador Marcos Machado.

O caso foi noticiado com exclusividade pela TVCA, afiliada da Rede Globo, que obteve os áudios gravados, ainda em 2015. O desembargador, à época, negou que tratava-se de tráfico de influência, disse ter se sentido ofendido e lembrou que tem relação pessoal com Silval. Ainda segundo Marcos Machado, tratou-se de uma ligação cordial, em solidariedade à família.

Cabe frisar que Marcos Machado era promotor de Justiça e foi indicado para o cargo de desembargador em 2011, por Silval. Para o Ministério Público, Machado tinha a intenção de interferir na decisão do pedido de liberdade, que foi parar sob a relatoria do desembargador Rondon Bassil Dower Filho. Ele negou o habeas corpus e Roseli passou uma semana presa.

No reinterrogatório, Gerson, que trabalhava diretamente com o Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) na época dos fatos, lembrou que os áudios foram passados pelo próprio Gaeco à TVCA. O objetivo era, justamente, prejudicar a imagem do magistrado e impedir que ele agisse para soltar Roseli.

A ex-secretária apenas deixou a prisão após conseguir habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça.

Sobre a ligação para o ex-governador, logo após a reportagem da TVCA, o desembargador Marcos Machado pediu, pessoalmente, para que o presidente do Tribunal de Justiça, à época o desembargador Paulo da Cunha, abrisse um procedimento administrativo para apurar sua conduta.

Um procedimento de apuração também foi instaurado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Tanto o CNJ quanto o TJMT concluíram que não houve desvio ético-disciplinar ou qualquer ato ilícito cometido por Marcos Machado, que, aliás, se declarou suspeito de julgar qualquer ação relativa à família Barbosa.

Atualizada às 11h40

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