Taques se perdeu em algum ponto do caminho que começou em 2015

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Por onde anda o Pedro Taques que conheci?, perguntei no título do artigo publicado neste site há pouco mais de um mês. Retomo o tema com a resposta inacabada: o homem que me impressionou tão positivamente numa entrevista ao Roda Viva perdeu-se em algum trecho do caminho que Taques começou a percorrer depois da festa de posse no Palácio Paiaguás.

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Por onde anda o Pedro Taques que conheci?

É difícil localizar com precisão o ponto exato em que o governador de Mato Grosso deu o primeiro passo no desvio que o afastaria da estrada principal balizada pelo procurador da República implacável no combate a todo tipo de corrupto e pavimentada pelo senador que ousara desafiar a grande bancada dos congressistas cafajestes. Falta ainda localizar com precisão o início da desoladora metamorfose que resultaria na rendição a usos e costumes identificados com o Brasil Velho.

Em 17 de dezembro de 2014, ao despedir-se do Congresso para cumprir a missão que lhe foi confiada por mais de 800 mil eleitores, Taques jurou que permaneceria fiel aos valores que orientaram o comportamento do homem da lei e do parlamentar oposicionista. “Estou deixando esta Casa sabendo que combatemos o bom combate”, afirmou num trecho do discurso. “O tempo é agora. Não há como parar a ideia cujo tempo tenha chegado”.

Depois de reiterar que não deixaria em paz os pastores do atraso, especialmente os corruptos, o governador eleito fez a advertência profética: “Há novos e melhores modos de se fazer política. Se não mudarmos a política, nada vai mudar, e nós seremos mudados”. O Pedro Taques que ocupou o centro do Roda Viva no dia em que o conheci me fez acreditar que fora apresentado a uma das raras personificações de um novo tipo de homem público, afinado com o país modernizado pela Lava Jato e por operações anticorrupção desencadeadas em Mato Grosso.

Taques se declarou orgulhoso do perfil exibido pelo secretariado que, conforme sublinhou enfaticamente, fora montado sem concessões a partidos nascidos sob o signo da barganha obscena. Quase todos os integrantes do primeiro escalão do executivo estadual, lembrou mais de uma vez o entrevistado, eram técnicos acima de qualquer suspeita.

Passados três anos e meio, como a Itabira do poema de Carlos Drummond de Andrade, aquela equipe fotografada no dia da posse do novo governo é apenas um retrato na parede. E como dói para quem acreditou que as coisas seriam mesmo diferentes. A estampa de técnico era a fantasia que ocultava politiqueiros de quinta categoria, que o senador Pedro Taques se negaria a cumprimentar, ou larápios vorazes que não escapariam do olhar vigilante do procurador Pedro Taques.

A roubalheira na Secretaria da Educação, as bandalheiras no Detran, o caso das escutas ilegais e outros escândalos que mancharam o governo eleito para sepultar de vez a era dos silvalbarbosas deixariam espantado o homem da lei que conseguiu engaiolar o ex-governador do Pará Jader Barbalho. E decerto mereceriam críticas impiedosas do parlamentar que enfrentou com notável altivez os quadrilheiros comandados por Renan Calheiros.

Num trecho do discurso em que anunciou a decisão de disputar a presidência do Senado, Taques justificou a candidatura sem chances: “É como derrotado que posso dizer francamente que a sociedade brasileira clama por mudanças, por dignidade, por esperança, por novos costumes políticos”. O que diria o corajoso senador de um governador que, confrontado com episódios que o procurador do Estado tratava como casos de polícia, recita desculpas muito parecidas com as dos envolvidos nas descobertas da Operação Lava Jato?

Em setembro de 2017, quando o secretário de Comunicação foi atropelado por denúncias amparadas em robustas evidências, o chefe de governo foi exemplarmente evasivo. “A respeito do Kleber Lima, só posso falar depois que nós tivermos acesso à ação”, declamou. “Não tive acesso, não posso me manifestar. O próprio Kleber, que é ‘réu’, entre aspas, precisa ter acesso à ação e ainda não teve. A hora em que eu ler ação, vou tomar as satisfações devidas do secretário de Comunicação”. A prometida interpelação nunca ocorreu.

A desconversa se somou aos muitos sintomas da decepcionante metamorfose. Para manter o amistoso relacionamento com uma Assembleia Legislativa infestada de infames, o governador ficou de costas para as tenebrosas transações promovidas pelos aliados. Também tratou os casos protagonizados pelo Paulo Taques como traquinagens de primo mais novo.

Em abril de 2017, decidido a livrar da condenação um bandido amigo, assinou um manifesto que tentou fantasiar o amigo bandido de vítima dos abusos da Lava Jato. Trecho do documento, que rechaçava verdades divulgadas pela revista Veja: “É inaceitável a prática de vazamentos seletivos e mentirosos que encontram eco em práticas jornalísticas pouco responsáveis. Esses vazamentos, movidos por propósitos obscuros, buscam lançar uma névoa sobre a vida pública brasileira”.

Um mês depois, surpreendido pela gravação que continha a conversa entre Aécio e Joesley Batista, Taques optou por atacar a delação premiada: “Esse instrumento muitas vezes se transforma em negociatas”, derrapou em maio de 2017. “Não estou generalizando, mas às vezes viram chantagem política e vingança”. Quando o governador se filiou ao PSDB, os eleitores decentes torceram para que os tucanos ficassem parecidos com Pedro Taques. Ocorreu o contrário.

Ele costuma alegar que não pode carregar o peso de culpas alheias. A explicação mambembe até faria sentido se Taques não tivesse sido quem foi. O senador respeitado também pela argúcia lembraria que governar é escolher, e quem comanda é responsável pelas más escolhas que faz. O exemplar procurador do Estado descobriria em poucas horas irregularidades ocorridas na sala ao lado, e desvendaria em alguns minutos crimes consumados a um palmo do nariz.

O tratamento dispensado a meliantes de estimação faz de Pedro Taques um cúmplice por omissão. Isso é crime, e qualquer espécie de delito inclui quem o pratica na categoria dos casos de polícia. Também por isso, o homem que há quatro anos ocupava uma vaga no Grupo Especial da política brasileira hoje luta para escapar da zona de rebaixamento.

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