Tá Lá o Corpo Estendido no Chão

Sobre a Morte de MC Reaça e Nossa Falta de Humanidade

(Foto: Reprodução/Facebook)

Tales Volpi, conhecido como MC Reaça, um jovem rapista de 26 anos se matou durante o final de semana. Procurei na net alguma notícia que apresentasse os fatos de seu suposto suicídio com isenção. Não achei. Desde as primeiras notícias sobre o suicídio do rapaz, a atmosfera já estava anuviada por hipóteses conspiratórias, ataques furiosos ou loas exageradas ao rapista.  Me incomodou a maneira rasa como o caso foi tratado. Nada sobre o estado emocional do rapaz, se ele se tratava ou não para a depressão, nada sobre seus familiares.

Alguns jornais nem tentaram esconder sua sanha em politizar a notícia, reportando já no segundo parágrafo, o tuíte do presidente Bolsonaro, lamentando sua morte e expressando condolências à família. Morto sábado à noite, Reaça se torna peça política já no domingo de manhã. Nem 24 horas de humanidade lhe foram concedidas.

A notícia deveria entristecer ao leitor independente de sua orientação política. Os detalhes da sua morte descrevem um jovem precisando de ajuda, claramente desesperado ao se ver confrontado com decisões erradas que fez. Eu tenho um filho de 25 anos e penso nas vezes em que o vejo reagindo à vida ainda de maneira quase adolescente, engatinhando ainda na vida adulta.

Penso em minha própria vida e nos muitos anos de burradas que precederam meu amadurecimento.  Os erros de Reaça não tem absolutamente nada a ver com seu posicionamento político. Seus jingles, a meu ver de mal gosto, defendendo Bolsonaro e a direita não tem nada a ver com sua morte, ou com os erros que cometeu.

Quem morreu não foi uma persona política. Foi um jovem de 25 anos com toda uma vida pela frente. Lamento que ele tenha possivelmente espancado sua amante grávida. Lamento que ele tenha sentido que a única coisa a ser feita depois do terrível ato tenha sido tirar sua própria vida.  Pelo jeito era um jovem de extremos. Pelo jeito precisava de ajuda psiquiátrica. É possível que não tenha sabido lidar com a fama que alcançou.

O que me impressiona mais é a maneira como a notícia foi recebida. Os muitos vídeos no Youtube  apenas confirmam  que a maneira  vergonhosa com que a mídia escrita tratou da morte  não é uma exceção. O desrespeito com a vida humana é um traço comum a todos. Reaça não foi retratado como gente, mas como um personagem político, um tipo de Pixuleco de plástico  em que ou se bate, ou se exibe, mas que não é nada além de uma caricatura de plástico vazio.

Como na música antiga de João Bosco, o corpo tá lá estendido no chão, “Em vez de rosto, uma foto de um gol, em vez de reza, uma praga de alguém, e um silêncio servindo de amém. Só que ao no lugar do silêncio o que se ouve é um escarcéu maldoso, um pisoteio sem dó num jovem que estava apenas começando a viver. Onde está nossa humanidade?

Deixo aqui meu lamento. Lamento pela moça, vítima da fúria de Reaça, lamento pelo bebê que vai nascer sem poder conhecer o pai, e ainda vai ter que lidar a vida toda com as narrativas polarizadas que cercam a vida e a morte dele. Lamento pela esposa enfrentando a dor dupla da traição e do suicídio do marido, e do pai do rapaz. Solidariedade é importante e não custa caro.

A frieza cruel que João Bosco já denunciava não é nova. Parece ser um traço da brasilidade a banalidade com se trata a morte e  a discussão política aguerrida de hoje só está nos empurrando mais fundo para o buraco de impiedade que já era nossa marca registrada. Otto Lara Rezende, intelectual mineiro ficou famoso com a frase usada por Nelson Rodrigues como inspiração de uma de suas peças: “O mineiro só é solidário no câncer.”

A frase resume de maneira bem humorada a visão de mundo de Nelson, que vê a humanidade com intrinsecamente propensa ao mal, mas também pode ser entendida como uma espécie de denúncia a uma crueldade inata do brasileiro que se torna facilmente às mazelas do “outro.”

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Bráulia Ribeiro trabalhou como linguista, etnógrafa e missionária na Amazônia durante trinta anos e no Pacífico Sul por seis anos. Ela tem um MA em Linguistica pela Unir, um MDiv da Yale University e é doutoranda em História e Teologia Política na Universidade de St. Andrews na Escócia. É autora dos livros Chamado Radical e Tem Alguém Aí Em Cima?, publicados pela Editora Ultimato. (www.braulia.com.br).

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