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Solidariedade ameniza o caos na BR-163

Foto de Gabriele Schimanoski
Gabriele Schimanoski

É sexta-feira, pós-carnaval, e muitos brasileiros ainda tentam se recuperar da semana festiva. Não é o caso daqueles que fazem parte da cadeia do agronegócio brasileiro. Enquanto uns colhem a safra de soja, outros têm a missão de levar o grão até os portos do país. Flávio dos Santos – caminhoneiro há pelo menos uma década – faz parte deste grupo.

Ele saiu de Matupá (MT) transportando 57 toneladas de soja com destino aos portos do Norte, e, ao lado de outros milhares de motoristas, passou os últimos 20 dias parado em um trecho não asfaltado da BR-163, no Pará. São cerca de 90 km de terra, entre o distrito de Moraes de Almeida e o município de Trairão, que se transformaram em um grande atoleiro devido às fortes chuvas e o grande número de carretas que trafegam na rodovia nesta época do ano.

“Passei o carnaval na avenida 163”, disse à reportagem do LIVRE, conseguindo brincar ainda em meio ao caos. “Eu estava parado na altura do distrito de Moraes de Almeida, foi lá onde passei fome”, relata.

Mesmo com restaurantes, o dinheiro era curto e acabou no meio da viagem. O distrito fica a pelo menos 30 quilômetros do ponto onde tudo começou, mas a fila de carretas se estendia por mais 20 quilômetros. “Tive sorte porque conheci gente solidária que, vendo nossa situação, compartilhou o pouco que tinha”, desabafa no meio da fila de caminhões que ainda não conseguiram chegar até o porto de Itaituba.

O caos começou a ser formado no dia 8 de fevereiro, quando uma carreta carregada com soja tombou, fechando a pista. No local, filas foram se formando nos dois sentidos da Cuiabá-Santarém. Para piorar a situação, a chuva não deu trégua e motoristas passaram a parar em fila dupla, trancando a passagem até de maquinários.

“Nós chegamos aqui para tentar organizar. A totalidade do trecho estava um caos. Pessoas há mais de quinze dias passando fome e sede estavam tentando resolver a situação, criando suas próprias leis”, revela o agente da Polícia Rodoviária Federal, Ítalo Carneiro.

Ítalo e outros três colegas precisaram se deslocar de Altamira (PA), distante cerca de 600 quilômetros, pois a viatura dos agentes de Santarém (os primeiros a chegarem no local) havia quebrado. “Era algo inimaginável. Formou-se um nó”, disse.

Passando fome, sede, sem lugar para fazer sua higiene, o caminhoneiro Vanderley Del Sent diz se sentir um “esquecido pelo Estado”. Desde às 6 horas de sexta-feira (03/02) até o meio-dia, ele havia conseguido rodar apenas seis quilômetros. “Nós fomos abandonados pelo Estado. Transportamos a riqueza do país e estamos sendo tratados pior do que cachorro”, reclama.

Na contramão do poder público, está boa parte da sociedade civil do Pará. Quem viu de perto a situação caótica vivida pelos que estavam na estrada garante que não esquecerá tão cedo. É o caso do proprietário da pequena farmácia da localidade de Três Bueiros, Clério Silveira da Costa, que há cinco anos ganha o sustento na região. Ele encontrou um motorista pedindo socorro, pois o medicamento que toma de forma controlada havia acabado, assim como o dinheiro. “Ele teve uma crise de pressão alta. Eu forneci o medicamento de graça, senão aquele homem morreria aqui”, conta.

Do outro lado, há aqueles que lucraram em meio ao caos. Moradores viraram ambulantes e fizeram da BR-163 um verdadeiro comércio a céu aberto. Garrafas com meio litro de água estavam sendo vendidas a partir de R$ 5. Qualquer tipo de mantimento virou moeda de troca. Quem também lucrou com isso foi a dona de um dos dois pequenos restaurantes de Três Bueiros, Adriele Silva Duarte, que viu a clientela triplicar em sua pequena varanda, onde serve pratos como carne de panela e galinha frita por R$ 15. Tímida, preferiu não revelar quanto faturou neste período. Mas se engana quem pensa que ela gostou da situação. “Tinha motorista há 17 dias aqui, a situação era crítica, começou a faltar mantimentos nos vilarejos vizinhos como Vila Planalto e Santa Luzia”, lembra.

Ao longo dos próximos dias, acompanhe a série de reportagens que o LIVRE preparou, direto do Pará, sobre a situação da BR-163, uma das principais rotas de escoamento da produção agrícola pelos portos do Arco-Norte.

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