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Sérgio Abreu, o ás do violão mundial

Foto de André Luiz Chitto de Oliveira
André Luiz Chitto de Oliveira

De todos os personagens que constituem a história do violão mundial, talvez o mais singular tenha sido Sérgio Abreu. Exímio violonista e renomado luthier, nos dois ofícios que desempenhou em sua vida Sérgio atingiu o mais alto nível. Questionado por seu biógrafo, Ricardo Dias, onde teria se sentido mais realizado, Sérgio respondeu: “como luthier cheguei mais perto do que eu queria”.

Aos que adentraram no mundo do violão clássico, seja como músico ou como melomano, alguma vez se depararam com as histórias do lendário Duo Abreu. Formado pelos irmãos Sérgio e Eduardo, o Duo Abreu teve uma carreira de sucesso, a ponto de terem como empresário Harold Shaw, que, para contrastar, também empresariava a violoncelista Jacqueline Du Pré – insigne intérprete do Concerto para Violoncelo, de Elgar.

Os irmãos gravaram três discos ao todo: The Guitars of Sérgio and Eduardo Abreu (1968), com um repertório que abrangia Villa-Lobos, Bach, John Dowland, Frescobaldi, Scarlatti, Vivaldi e Ravel; Os Violões de Sérgio e Eduardo Abreu (1969), que contém interpretações de Tellemann, Falla, Granados, Scheidler Rodrigo e Anon; e o terceiro disco veio em 1970 com as gravações dos concertos para dois violões e orquestra de Guido Santórsola e Castelnuovo-Tedesco.

Entre os grandes feitos de Sérgio Abreu, além dos diversos concertos e dos discos solo e em duo, saliento o primeiro lugar no maior concurso de violão da época, o ORTF (Paris), conquistado em 1967, e o feito de ter divido palco em 1972, no Festival de Windsor, com o violinista Yehudi Menuhim, virtuose que deu o maior brilhantismo possível nas Sonatas para violino de Beethoven.

O Duo Abreu se dissolveu em 1976, com a saída de Eduardo. Sérgio manteve sua carreira de concertista até 1982, quando da arte de tocar migrou para a arte de construir violões. A paixão pela lutheria se manifestou ainda na adolescência em meio as aulas da professora Monina Távora, ex-aluna de Andrés Segóvia, que possuía um violão Hauser de 1930 fabuloso. Sérgio era fascinado por esse violão e chegou a declarar que era o melhor instrumento do mundo. Em 1977, ele foi agraciado com o violão Hauser pela sua professora, o tal violão que o fez ser luthier.

Sérgio Abreu se foi no último dia 19, mas o seu legado permanecerá. As suas gravações e os seus violões soarão enquanto o bom gosto sobreviver na humanidade. Ao meu ver, o seu maior patrimônio foi ter iniciado a tradição de duos de violão brasileiro. Sérgio e seu irmão Eduardo foram os primeiros e os maiores, enquanto o Duo Assad manteve com êxito e genialidade o que deles herdou. Hoje, a chama continua acesa com o Brasil Guitar Duo e o Duo Siqueira Lima.

Os violões construídos pelas mãos de Sérgio e toda a sua trajetória como concertista são motivos de orgulho nacional. Sérgio Abreu integrou o maior duo da história do violão e foi o luthier mais requisitado do país. Para o leitor que não o conhecia, eu indico a gravação do Duo Abreu interpretando Rameau e o recital gravado em 1970 disponível na plataforma GuitarCoop.

André Luiz Chitto de Oliveira, professor de artes e filosofia.

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