Sem apoio, mas com esperança: a jornada dos venezuelanos pelas ruas de Cuiabá

Na capital de MT há 20 dias, a família Alvarez explica porque precisa levar os filhos para o semáforo

Uma cena tem se tornado cada vez mais comum em Cuiabá: venezuelanos por horas a fio nos sinais e rotatórias da cidade pedindo ajuda, seja em dinheiro ou mantimentos ou uma nova oportunidade de trabalho.

Uma dessas famílias está há cerca de 20 dias na Avenida Rubens de Mendonça – a do CPA – a pouco menos de 500 metros da Secretaria de Estado de Trabalho, Assistência Social e Cidadania (Setasc) e do Ministério Público Estadual (MPE).

O pai, José Alvarez, de 25 anos, empunha um cartaz com o pedido de ajuda. A mãe, Damarys Jimenez, 23, cuida das crianças: o pequeno Angel Alvarez, de 3 anos, e Sofia Alvarez, 4 meses.

Damarys cuida dos filhos enquanto José pede ajuda e, especialmente, a chance de ter um emprego (Foto: Ednilson Aguiar/ O LIVRE)

O casal ainda tem uma terceira filha. Valentina Alvarez, de 7 anos, fica sob o cuidado de parentes.

Segundo Damarys, a família buscou uma vaga em escola municipal do bairro Planalto. Foram orientados a voltar só em janeiro. Até lá, Valentina fica sem estudar.

Enquanto isso, José tenta se formalizar no Brasil. Conseguiu parte dos documentos necessários, mas ainda falta a Carteira de Trabalho para conseguir um emprego.

Com a roupa do corpo

Para chegar em Cuiabá, a família precisou vender tudo que tinha na Venezuela. Arrecadou R$ 2,5 mil, valor usado para bancar a viagem.

No trecho, uma estrada sem pavimentação afetou em cheio a saúde da bebê, o que deixou a jornada ainda mais cansativa e longa.

A decisão de deixar a Venezuela foi movida pela esperança de José. Ele queria dar uma vida melhor à família.

Ao LIVRE ele contou que trabalhava com construção civil em seu país. No entanto, o valor que ganhava era insuficiente para o sustento de todos. “Trabalhava quatro semanas, mas o dinheiro só dava a alimentação de uma semana”, disse.

José já conseguiu parte dos documentos, mas não a Carteira de Trabalho para ter um emprego formal (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Além disso, segundo José, falta tudo em seu país. Ora não tem energia, ora falta água encanada. A internet para comunicação é ruim e o serviço de saúde já não existe. “Quando tem médico e remédios, é muito caro, algo que não se pode pagar”, relatou.

A decisão de tentar a vida no Brasil nasceu da experiência da cunhada. Já instalada em Cuiabá, é ela que abriga a família, pagando aluguel, água, luz e comida para todos. “Quando ela veio para Cuiabá, a vida melhorou”.

O que dizem as autoridades?

A reportagem do LIVRE conseguiu contato com a Secretaria de Educação de Cuiabá.

Diretora de ensino do Município, Zileide Santos disse que a escola que a família Alvarez buscou não seguiu a orientação da administração da Capital. Segundo ela, a sugestão é de atender a todos, sem distinção.

No caso de não haver vaga, a escola tem que enviar os dados da família para a secretaria, onde é feita uma triagem para a unidade mais próxima, que tenha disponibilidade de atendimento.

Ainda de acordo com a diretora, a Prefeitura vem fazendo um esforço para atender a demanda de venezuelanos. Existe, inclusive, um programa de aulas de reforço de Português.

Uma reunião também chegou a ser feita por autoridades do Poder Público. Chamada de Rede de Proteção, o grupo tem foco, principalmente, nas crianças cujos pais têm buscado ajuda nas ruas de Cuiabá.

No entanto, pouco se avançou nesse assunto. Ficou definido que seriam realizadas três ações. Uma primeira emergencial, com os Conselhos Tutelares que teria início no dia 26 de agosto. A segunda, um mutirão para confecção de documentos. E a terceira a criação de uma política migratória para Mato Grosso.