Sebos em Cuiabá: livros, discos de vinil e antiguidades ganham novos abrigos na cidade

"Trabalhamos com memória, somos essencialmente atemporais"

Há quase três meses, unir o útil ao agradável significou para Edson Xavier, 49, dar vazão a uma faceta colecionadora que transbordou o espaço de sua casa, onde ele guarda mais de 6 mil LPs e 2 mil revistas em quadrinho (sem contar os livros). No âmbito profissional, descansar da rotina de 20 anos como professor de Direito também lhe propiciou um período do dia para se dedicar a uma paixão que não se difere tanto do ofício de lecionar, já que ele montou uma livraria de usados na rua principal do bairro universitário Boa Esperança, em frente à UFMT.

“Era algo que sempre sonhei em ter, mas só pensava mesmo em quando me aposentasse. O sebo foi um lugar que eu frequentei muito, é um universo interessante de pessoas e assuntos que se encontram e isso sempre me fascinou”, conta Edson, sobre sua motivação para idealizar a Raro Ruído, projeto individual que se tornou familiar, uma vez que a esposa Christiane Krunger, 37, e as filhas logo embarcaram na ideia, tornando concreto o que até então era possibilidade.

Edson Xavier em seu acervo (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

“O acervo de livros foi uma oportunidade de um sebo que estava fechando no interior de São Paulo. Mas, claro, algumas coisas eu também trouxe do meu acervo pessoal, principalmente os discos repetidos que eu tinha”. Discos de vinil da Led Zeppelin e The Beatles, por exemplo, ele já chegou a ter quatro cópias de um álbum só.

No mesmo bairro de Cuiabá, Priscilla Figueiredo, 30, e Maximilliano Amorim, 36, juntaram suas pequenas coleções de LPs com outros 2 mil herdados da família da jovem e instalaram o acervo da Tchá por Discos – que já chegou a 5 mil exemplares – em um dos vários cômodos da casa da avó, a maior entusiasta do projeto encampado pela neta. Na residência onde já moraram até 12 pessoas, eles também promovem o Roda Vinil, um encontro que reúne entusiastas de antiguidades, na ampla varanda.

Priscilla, Maximilliano e o acervo Tchá por Discos (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Priscilla concilia a lojinha online e itinerante que existe desde o ano passado com um emprego em órgão público, ocupação que antes intercalava com trabalhos na iniciativa privada. Max trabalha com assessoria na área empresarial e era um dos organizadores da Feira do Vinil, iniciativa que ocupou espaços da UFMT e Casa Cuiabana e proporcionou sua entrada no ramo, paixão herdada do pai – um colecionador de discos de vinil que se dissolveram em empréstimos, perdas e danos da juventude.

Além de mobilizar famílias, essa coisa de sebo e antiguidade parece mesmo unir casais e se instalar em qualquer cantinho. Exemplo disso é o artista plástico Thiago Sinohara e a escritora Marília Bonna, que se aprofundaram em paixões que seguiram fluxos naturais e hoje servem de motor ao fusca-sebo Rua Antiga. “Foi natural também que fosse em Cuiabá, terra onde a gente se conheceu, terra natal do Thiago e minha terra de criação, terra para onde a gente tinha voltado (eu, do Rio; Thiago, de uma temporada em São Paulo) e onde a gente queria ficar”, conta Marília.

Marília, Thiago e o Fusquinha 1969

Não à toa, eles não mais separam vida pessoal e trabalho de paixão – e nem querem, pois, segundo Marília, a busca foi justamente unir tudo isso. “Muito embora eu faça mestrado, o nosso compromisso fundamental é com o projeto, que é maior que o sebo em si. Rua Antiga surgiu de uma procura, num momento em que nós dois resolvemos abandonar nossas ocupações anteriores. Surgiu de um rompimento. Então hoje não faz sentido que a gente não se dedique integralmente a ele, já que foi uma decisão tão grande, que a gente assumiu e acredita”, resume.

A novidade agora é que, além da itinerância do sebo que já completa ano, eles também optaram por atender na própria residência, no centro da cidade, a Casa 10 da Rua Joaquim Murtinho. As motivações foram muitas: o crescimento do acervo que já não coube no fusquinha; a correria da rotina que limitaram as saídas; além do mais, a alternativa vai ao encontro do ideal de mundo e comércio do casal.

“Abrir a porta da nossa casa é uma ideia que faz muita parte do nosso projeto: é uma evolução quando a gente compara, por exemplo, com abrir a porta do nosso carro. O nível de intimidade aumenta, entende?”, complementa.

Raro Ruído (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Acervos

“O sebo tem uma característica que é a intensa rotatividade. Você vende, compra e troca. Começamos com um acervo bem antigo, mas em um mês de funcionamento já houve uma renovação muito grande de seminovos”, conta o proprietário do Raro Ruído. É que neste ramo tão fértil para se criar relações, Edson explica que, a partir do momento em que um sebo se instala na cidade, é comum que ele passe a ter fornecedores naturais. A ideia é fazer o livro girar.

No sebo de Edson, a predominância é de obras de literatura, mas, até por estar ao lado da universidade, eles também oferecem livros técnicos das mais diversas épocas e das mais diversas áreas; sociologia, história, filosofia, medicina, economia, biologia, física, matemática… É só garimpar. A diversidade e quantidade de gibis também é grande, além dos itens de coleção e dos discos de vinil.

“É um acervo de grande quantidade e eu diria de muita qualidade. Temos artistas que já não são mais fáceis de encontrar em vinil e clássicos como Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin… No campo da literatura, temos raridades que atribuo à idade, temos livros da década de 1950. Temos uma edição original italiana da Divina Comédia de 1940, por exemplo, segundas e terceiras edições de livros do Machado de Assis que datam 1918”, explica.

Na entrada da loja também se encontra sempre uma banca de itens de promoção, como livros que custam até R$ 3. “Com o passar do tempo quero fazer isso para todos os itens, também já temos uma de DVDs e de LPs, depois vai ser de gibis e CDs”, conta Edson.

A mesma coisa a Priscila e o Max já fizeram e fazem na Tchá por Discos. Já rolou promoção de disco a 1 real na compra de 20. No acervo de 3 mil vinis e LP’s compactos, estilos que revisitam os infantis ao heavy metal, passando por clássicos da Música Popular Brasileira. Alguns autografados e com dedicatórias. “A gente acaba sempre sabendo um pouco da história daquele sem conhecer”, conta Priscila.

Sobre os critérios de valores, eles explicam: “Primeiro a pessoa vê o estado do disco, depois a tiragem de cópias e as peculiaridades; se a música foi censurada, se é um disco com participações especiais e raras. Até o estúdio que o disco foi gravado importa. O disco de rádio, por exemplo, já tem um outro valor, porque tem a história de divulgação”, explica Max. “Então a gente também tem que saber a história, conhecer os artistas. Depois o cliente ainda olha a capa, se está riscada já barateia”, complementa Priscila.

Entre os itens catalogados, discos que datam 1950, mas nas caixas de doações ainda por explorar, raridades da década de 1930. Também já passou por eles o primeiro disco de Bossa Nova gravado no Brasil e, nas estantes, figura por exemplo o disco de estreia do saudoso Belchior. Com o tempo, o acervo também passou a receber CDs, fitas cassetes e itens de antiguidade: brinquedos, placas, retroprojetores e aparelhos antigos como gravadores, celulares e toca-discos.

Para administrar tamanha diversidade de itens que tomou conta do Rua Antiga, Marília e Thiago, por sua vez, organizam o sebo por banquinhas. Na banquinha dos livros, eles começaram com um acervo voltado para literatura, arte, filosofia, sociologia e história, mas hoje já tem de tudo, como educação, música, biografia e esoterismo. Devido à parceria com a editora Carlini&Caniato, eles vendem, ainda, novas obras de autores mato-grossenses.

Na banquinha da música e na dos filmes, discos de vinil, fitas cassetes, CD, DVD e VHS de todos os estilos. Na banquinha do antiquário, móveis, objetos de decoração, objetos de coleção, revistas, postais, fotografias, papéis de carta, bonecas, brinquedos, malas, placas, vitrolas, máquinas de escrever e toca-fitas. E tem também a banquinha das delicadezas, que abriga tudo o que não se encaixa nas outras, como caderninhos artesanais, marcadores de livro, ímãs e aquarelas feitas pelo Thiago.

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Mais do que livros e discos

Quando pensou em abrir um sebo, a ideia de Edson foi, além de livros, mexer com quadrinhos e LPs. Ele quer fazer do Raro Ruído um espaço de encontro e um reduto cultural. Além de ir ao encontro da rotina, o horário de funcionamento diferenciado da loja diz muito sobre isso, pois abre das 16h às 22h. Período ideal para o happy hour que, além de música e literatura, é regado a café, chás, cervejas puro malte e vinhos – uma diversidade de seis rótulos, mas de preços acessíveis.

“Esses produtos são um adorno para quem quer ficar aqui, para proporcionar um ambiente de aconchego. E não precisa nem comprar; estudantes com dificuldade de dinheiro podem pegar o livro e ler aqui. A ideia é que a pessoa frequente e que o espaço sirva como uma referência cultural”, explica Edson.

“É divertido lidar com as coisas que a gente gosta, conhecer gente nova, experiências novas. Eu vim de uma cidade do interior de um Estado pequeninho, mas sempre tive acesso a bibliotecas e era algo encantador, uma fonte única de conhecimento”, endossa Christiane.

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

A Marília do Rua Antiga concorda que um sebo vai muito além do comércio de produtos e diz muito sobre um ideal de comportamento e de consumo afetivo. “É lidar com o que a gente ama, vender o que a gente consome, cuidar da memória do outro, continuar uma história (e conhecer tantas outras), subverter o tempo das coisas, ser o ponto de encontro entre pessoas perdidas uma da outra (às vezes no tempo, às vezes no espaço, às vezes nos dois)”, ressalta.

Assim como a Tchá por Discos, eles atendem em casa com hora marcada e como os encontros mensais do Roda Vinil, Marília e Thiago também idealizaram mais um espaço de interação, o evento Casa Aberta Rua Antiga. “Um sábado onde nossa casinha fica aberta a visitas durante um dia inteiro: para todos aqueles que querem conhecer o acervo, conhecera casinha do fusca, tomar um café com a gente e trazer disco para ouvir na vitrola”, explica.

Rua Antiga (Foto: Divulgação)

Ambas as iniciativas também atendem nas redes sociais, negociando via direct para marcar o encontro. “Uma plataforma online, como um site, é muito fria”, explica Max. “Tem gente que passa horas no acervo olhando e o legal é que a gente conversa e cria amizades”, complementa Priscila. Sem contar que vários espaços da cidade já atentos ao ramo dos sebos também abrem as portas para as iniciativas. Bares identificados com a temático, como o Hookerz e o Malcom, algumas hamburguerias, o Colégio Master com o evento Master Literário, e o café-bar Metade Cheio que, quinzenalmente, organiza uma feirinha de cacarecos.

Atemporalidade

“O sebo é uma demanda de nicho”, acredita Edson. Em contexto digital, onde a leitura encontra possibilidades em vias virtuais, através de tecnologias que permitem a portabilidade das palavras, ele conta que nesses primeiros meses de experiência, o Raro Ruído tem recebido pessoas com diversas motivações e perfis, principalmente os curiosos – público que não necessariamente será o que “vingará”.

Raro Ruído (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

“Além das pessoas que estão ligadas à nostalgia e consome livros antigos, discos e aparelhos vintages, há um aspecto de sedução sobre os mais jovens que se interessam pelo formato de uma forma que você não sabe explicar muito bem. Eu acho que tem um certo apelo para aquelas pessoas que cresceram tendo uma relação tátil com o livro e fazem com que esse tipo de estabelecimento possa existir”, explica.

“Esses dias mesmo fomos surpreendidos por um menino de uns 10 anos no colégio Master que veio nos pedir com a maior segurança um LP”, exemplifica Priscilla. Em relação ao vinil, Max acredita que o item nunca tenha saído das prateleiras daqueles que realmente gostam, envolvendo um público que continuou comprando e circulando a música no formato, mesmo a indústria diminuindo a fabricação no fim da década de 1990: “Quem tem sempre guarda”.

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Ademais, quem não aprecia uma boa música? Muita gente não sabe, mas o som de um vinil é muito melhor do que qualquer outro formato. “O primordial é a qualidade sonora que o vinil traz. O som do CD e Spotfy não têm a mesma por causa da masterização, quando o som é comprimido para o formato digital ele perde a qualidade. No vinil conserva praticamente toda forma original da música, pelos menos nos mais antigos. Até as prensagens mais atuais não têm mesma qualidade”, ressalta.

Marília, em sua habilidade com as palavras, resumiu: “Tomando por base uma cidade que nunca teve a cultura do sebo (muita gente nem sabe o que é) e a cultura do antigo, acho que estamos construindo essa história juntos – nós, os sebos, e a cidade. Ademais, não acredito que estar em alta ou em baixa sejam qualidades possíveis em sebo: trabalhamos com memória, somos essencialmente atemporais”.

 Serviço 

O sebo Raro Ruído está localizado na Avenida Edgar Vieira, 420, Boa Esperança. Nas redes sociais, eles estão no Facebook e no Instagram. Horário de funcionamento: segunda a sexta-feira, das 16h às 22h, e sábados, das 9h às 14h. Mais informações pelo (65) 98129-3203.

O acervo da Tchá por Discos está localizado na Rua Oito, 462, Boa Esperança. A visita é combinada pelo (65) 9630-9500 ou nas redes sociais, através do Facebook e Instagram.

O casa do fusquinha Rua Antiga está localizada na Rua Joaquim Murtinho, 1336 (Casa 10), com visita agendada. Nas redes sociais, eles estão no Facebook e no Instagram, e também atendem pelo (65)99984-6861 e (65)99967-0241.

 

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